A alquimia de atores de Cibele Forjaz

Ao fazer dez anos, Cia. Livre investiga processos criativos

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

Cia. Livre. A diretora Cibele Forjaz transita entre a tradição e a invenção para criar espetáculos

 

 

 

 

 

"Quem disse que a linha reta é o caminho mais curto?", pergunta Cibele Forjaz. Quando se trata de conduzir atores, a encenadora diz preferir curvas, voltas, espirais. "Você tem que ir rodeando o ator, cercando, criando situações de aproximação. E isso, às vezes, passa por trilhas tortuosas e até por pequenos desvios." É difícil circunscrever aquilo que a diretora chama de "pequenos desvios". Pode ser uma visita ao zoológico, uma receita de bolo ou até um passeio de trem a Paranapiacaba. Mas parece estar justamente aí, nessas experiências pouco ortodoxas e nada cartesianas, muito da essência do seu método de direção.

É extensa a lista de intérpretes que alcançaram grandes desempenhos conduzidos por Cibele. Tão logo despontou como encenadora, sua versão de A Paixão Segundo G.H. sublinhou o talento de Marilena Ansaldi. Em seguida, foi a vez de Matheus Nachtergaele chamar a atenção como protagonista de Woyzeck. Porém, seria só depois do surgimento da Cia. Livre, grupo que completa 10 anos este mês, que a diretora conseguiu levar não apenas uma, mas três de suas atrizes a conquistarem o reconhecimento máximo do teatro brasileiro: o Prêmio Shell.

"Esse teatro contemporâneo, que é um teatro de encenador, deixou o ator um pouco abandonado. A gente tem a sorte de a Cibele ser muito aquecida nessa relação. Uma característica que difere, inclusive, de toda a geração dela. Isso é uma coisa de diretor mais antigo. Diretor mais velho é que costuma gostar de ator", opina Lúcia Romano, lembrada pelo Shell em 2008, por sua atuação em VemVai - O Caminho dos Mortos. Leona Cavalli e Isabel Teixeira completam a lista de intérpretes premiadas. E a diretora volta a trabalhar com todas elas a partir de hoje, quando uma remontagem de Toda Nudez Será Castigada abre mostra no Tusp para comemorar o aniversário da companhia.

O texto de Nelson Rodrigues foi o primeiro trabalho do grupo, que surgiu em 2000 anunciando-se como um coletivo de "atores-criadores". Para viver Geni, a prostituta com ares de beatitude que protagoniza o drama, Cibele convocou Leona Cavalli. Em seu desempenho, a atriz rapidamente despertou o interesse para a companhia nascente e mereceu o Shell naquele ano.

Passada uma década, contudo, nenhuma das duas sabe apontar uma causa única para o reconhecimento que alcançaram. Preferem falar de como esmiuçaram toda a obra do autor, investigaram suas peças, suas crônicas. Depois, lembram de eleger determinados objetos de cena para a personagem - um cigarro, um vestido - e ressaltam a importância dos ensaios exaustivos, muitos deles sem palavras ou criando improvisos antes de chegar ao texto final. "Tem um momento que é por necessidade que você acaba criando. O ensaio mudo, por exemplo, é uma coisa horrível. Não tem mais para onde ir. Então, nem que seja por desespero, por horror ao vazio, você cria a cena", diz Leona.

Igual, mas diferente. Cibele já se mostrou capaz de encenações grandiosas. Uma habilidade que se comprova em produções recentes como sua eloquente adaptação para O Idiota, de Dostoievski. Inversamente, também sabe construir montagens diminutas, em que a proximidade com a plateia é absoluta. Seus processos podem partir de obras clássicas, como fez em Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, ou de apenas um tema amplo, ambição que realizou com VemVai - O Caminho dos Mortos, quando pretendia investigar os rituais de morte dos povos ameríndios.

Mas, mesmo em meio a modos e formas de criação tão diferentes, é possível observar algumas constantes. Uma delas é o trânsito que a discípula de José Celso Martinez Corrêa faz entre novidade e tradição. Outra é o longo tempo dedicado à concepção dos espetáculos. "Não existe fórmula que não seja trabalho, muito trabalho", diz a diretora, que costuma gastar quase dois anos em cada peça e já tem data agendada para a estreia do novo título: África Brasil só entra em cartaz em novembro de 2011.

Ainda que haja atores recorrentes, a Cia. Livre não tem um elenco fixo. Muita gente entrou e saiu do grupo nos últimos dez anos. Assim fez Isabel Teixeira. Decidiu aventurar-se por outros coletivos a partir de 2006. Mas voltou a encontrar a diretora em Rainha(s) - Duas Atrizes em Busca de Um Coração, quando recebeu o Shell como melhor intérprete de 2009. Para criar o espetáculo, que era uma produção sua, Isabel contou com Cibele e com a atriz Georgette Fadel. Sozinhas, alinhavaram a dramaturgia a partir do texto Mary Stuart, de Schiller, e construíram a três, compartilhando as etapas da criação, um lúdico jogo com o público. "É diferente dirigir atores como esses", considera Cibele. "Eles tomam posse não só do personagem, mas do projeto inteiro da peça. São atores e atrizes que são estrelas de seus próprios caminhos."

 

SERVIÇO

Até o dia 26 de setembro, a Cia. Livre revisita algumas de suas montagens mais marcantes no Tusp (Rua Maria Antônia, 294, tel. 3855-1782. Grátis.). Também haverá mesas-redondas e palestras. Veja alguns dos destaques:

20 a 22/8

Toda Nudez Será Castigada

Peça de Nelson Rodrigues, com Leona Cavalli, Hélio Cícero, Vadim Nikitin, Lucia Romano e outros. Sex. e sáb., às 16 h. Dom., às 21 h. Mesa-redonda sobre o processo criativo do espetáculo. Dom., às 16 h.

27 a 29/8

Um Bonde Chamado Desejo

Peça de Tennessee Williams, com Lucia Romano, Isabel Teixeira, Eucir de Souza e Edgar Castro. Sex. a dom., às 21 h.

De 10 a 12/9

Arena Conta Danton

Texto de Georg Büchner e dramaturgia de Fernando Bonassi, com Edgar Castro, Luah Guimarães, Paula Cohen e outros. Sex. e sáb., às 21h30. Dom., às 21 h.

De 17 a 19/9

VemVai - O Caminho dos Mortos

Espetáculo com dramaturgia de Newton Moreno. No elenco, Christian Amêndola, Lúcia Romano e outros. Sex. a dom., às 21 h.

Dia 25/9

Raptada pelo Raio

Espetáculo com dramaturgia de Pedro Cesarino. No elenco, Christian Amêndola, Edgar Castro, Lúcia Romano e Paulo Azevedo. Sáb., às 21 h.

Atrizes falam da diretora

LEONA CAVALLI

UM BONDE CHAMADO DESEJO

"Me marcou muito nosso processo em Um Bonde Chamado Desejo, quando fiz a Blanche Dubois. Fomos ao zoológico, e foi a partir de uma ave que vi lá que criei toda a minha personagem."

ISABEL TEIXEIRA

UM BONDE CHAMADO DESEJO

"Usei uma barriga de água para fazer o papel de Stella, que estava grávida. Foi uma imersão tão grande na personagem, que acabei engravidando logo depois do fim do espetáculo."

LÚCIA ROMANO

VEMVAI - 0 CAMINHO DOS MORTOS

"Somos interlocutores de todas as discussões. Os temas só se tornam significativos quando passam pelo ator, pelo seu universo sensível. Cada vez mais sentimos falta de poder exercer afetivamente a profissão."

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