A alma russa, vista sem retoques

ELENA VASSINA

ELENA VASSINA É PROFESSORA DA PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA, CULTURA RUSSAS DA USP, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h12

Como dizia o próprio Ivan Gontcharóv (1812-1891), o sucesso do romance Oblómov, publicado em 1859, superou suas expectativas: o escritor foi logo reconhecido como clássico nacional. Tolstói escreveu a um de seus correspondentes: "Há muito, muito tempo não temos uma obra tão fundamental quanto Oblómov. Diga a Gontcharóv que fiquei maravilhado com o romance e estou lendo-o mais uma vez". Turguêniev declarou que Oblómov (o protagonista que deu o título ao livro) "será sempre lembrado, enquanto houver russos, ainda que haja apenas um". E podemos acrescentar que Oblómov, um dos mais encantadores personagens de toda a literatura russa, será não só lembrado, mas também admirado. Como diz seu amigo Stolz , "depois que o conhecemos, é impossível deixar de amá-lo".

O idioma russo deve a Gontcharóv o aparecimento de uma palavra nova - "oblomovismo", que, depois da publicação do romance, foi incluída no maior Dicionário da Língua Russa, de Vladímir Dal, com a seguinte explicação: "Indolência russa, preguiça, rotina, indiferença aos problemas sociais". Opinião esta compartilhada pelo importante crítico literário N. Dobroliúbov em seu artigo O Que É o Oblomovismo. No entanto, essa interpretação, característica para os agitados e radicais anos 1860, mudou drasticamente depois de um século e meio desde a publicação do romance de Gontcharóv. Como se sabe, a história e o tempo mudam a interpretação de qualquer obra clássica, revelam a importância de sua problemática existencial, trazendo à tona seus significados metafísicos. Como um cristal mágico, o tempo manifestou sua base filosófica na tessitura narrativa do romance, todas as "eternas" e "malditas" questões sobre o sentido da vida, o amor, a solidão, contraposição entre ação e inércia, a vaidade das vaidades, a finitude e a eternidade... O tempo mudou também a visão do protagonista, mostrando o caráter monumental da imagem de Oblómov e colocando-a ao lado de personagens literárias universais como Hamlet e Dom Quixote.

Oblómov expressa um significativo arquétipo do caráter e do modo de vida nacional russo. E não podemos deixar de concordar com Vassíli Rózanov, escritor e filósofo: ''É impossível falar dos russos sem mencionar Oblómov... Aquela essência que chamam de 'alma russa', de 'natureza russa', obteve, sob a pena de Gontcharóv, um de seus maiores fundamentos, as descrições, interpretações e ponderações sobre si mesma ".

O protagonista Iliá Ilitch Oblómov, um homem de 32 anos, passa a maior parte de sua vida deitado na cama, sem fazer absolutamente nada. Gontcharóv instiga-nos a comparar o preguiçoso e passivo Oblómov a seu melhor amigo, Stolz, enérgico e ativo. Mas, paradoxalmente, ficamos atraídos por Oblómov, que nos cativa com a autenticidade de seu caráter, a profundidade e a total liberdade interior. Oblómov é tão íntegro e perfeito, como a letra "o" que se repete três vezes em seu sobrenome e, notemos, está muito bem representada pela imagem do círculo na capa da presente edição.

O caráter profundo e puro de Oblómov e a luz que sua alma irradia fazem o leitor pensar sobre o valor da não ação (e pressupõe-se também a não participação no mal), que se torna a base filosófica da existência de Oblómov. Stolz diz, sobre Oblómov: "Seu coração não emite nenhuma nota falsa... Nenhuma mentira vistosa vai seduzir seu coração e nada o desviará para um caminho falso".

Ao contrapor a não ação de Oblómov, que constitui, antes de qualquer coisa, a razão filosófica de sua existência, à movimentação frenética de Stolz, o escritor suscita um sério dilema existencial: será que a correria incessante do trabalho de Stolz faz sentido? Oblómov pergunta a Stolz se, um dia, quando duplicar o capital, ele vai parar de trabalhar para... começar a viver. Mas Stolz nem entende o que significa viver sem trabalhar, parece-lhe um absurdo, pois "o trabalho é a forma e o conteúdo, o princípio e o fim da vida". O turbilhão do mundo pragmático perde seu sentido, mas o fracasso de Oblómov, "poeta na vida", para quem "a vida é poesia" é também inevitável - este é um motivo que transparece de modo realmente trágico no romance e que, porém, se supera pela linguagem divinamente objetiva do escritor. E então se evidencia um traço característico do método de Gontcharóv, que o poeta e escritor D. Merejkóvski observou com precisão: "Pela surpreendente sensatez da concepção de mundo, Gontcharóv aproxima-se de Púchkin... Em seu coração, a vida desenha-se, impassível e claramente, como as minúsculas ervinhas e as longínquas estrelas refletem-se num profundo manancial de florestas, protegido do vento. Há uma vivacidade especial na sensatez, na simplicidade e na boa saúde de seu vigoroso talento".

Enfim, o romance de Gontcharóv, na primeira tradução direta, brilhante e impecável, de Rubens Figueiredo, abre aos leitores brasileiros uma nova porta para o universo da literatura clássica russa, que desta vez se ilumina com "o mais puro e o mais luminoso coração'', o coração de Oblómov.

O protagonista, um homem de 32 anos, passa os dias deitado

na cama, sem fazer absolutamente nada

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