A alma dos EUA em 9 km²

Recém-lançado na América, Harlem, de Jonathan Gill, reconstitui - de forma enciclopédica e sem se deixar aprisionar por aspectos raciais - as origens e[br]o desenvolvimento do célebre bairro nova-iorquino

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

Nenhum outro bairro americano é mais celebrado e demonizado do que o Harlem. Plantado na ponta norte da Ilha de Manhattan, numa área de 9 quilômetros quadrados, o Harlem começou mal. Mas também simboliza muito da alma do século 20, o século americano.

O recém-lançado Harlem, de Jonathan Gill, faz justiça ao longo subtítulo: The Four Hundred Year History, from Dutch Village to Capital of Black America (Quatrocentos Anos de História, de Vilarejo Holandês a Capital da América Negra). O livro foi bem recebido nos Estados Unidos como o primeiro esforço enciclopédico e desapaixonado de contar a história do lugar que costuma ser explicado - e frequentemente reduzido - em termos raciais. O Harlem abrigou, sucessivamente, holandeses, ingleses, americanos protestantes, judeus como George Gershwin e Groucho Marx, e, finalmente, a primeira maioria negra que chegou ao século 20.

Se o Harlem continua a representar a Afro-América, devemos notar que o último censo registrou, pela primeira vez, os negros em minoria - só 40% dos moradores se declararam afro-americanos. Numa conversa com o Estado, de sua casa em Amsterdã, onde vive com a mulher holandesa e dois filhos, Jonathan Gill confirma a impressão que transmite no livro - a falta de agenda política ou racial. O ex-professor da Universidade de Colúmbia hoje dá aula de Humanidades da Universidade de Amsterdã.

A história contada por Gill começa em setembro de 1609, quando o navio Half Moon apareceu na cabeceira do rio que viria a ser batizado com o nome de seu capitão. Henry Hudson, um inglês contratado pela Companhia das Índias Ocidentais, era um navegador especializado em se perder. Esperava chegar ao Oriente por um atalho fluvial no Hemisfério Norte. Os habitantes originais do Harlem então, os índios lenapes, logo pularam em canoas e seguiram o Half Moon rio adentro, ansiosos por trocar suas ostras por espelhos ou facões. Depois de perder um de seus homens morto por uma flechada, Hudson trouxe dois índios a bordo, fantasiou ambos com casacas e tentou capturá-los. Os dois escaparam e nadaram de volta à margem, de onde ficaram fazendo caretas para a tripulação. Dias depois, os mesmos índios emboscaram o navio de Hudson e foram recebidos a tiros de mosquete.

Começava ali, escreve Gill, "o choque de palavras e mundos, a atração de sangue e dinheiro, a convivência do ódio racial com a curiosidade racial - tudo isto faz parte do significado do Norte de Manhattan".

O Harlem - o nome veio da cidade holandesa de Haarlem, lembra o autor - tornou-se o símbolo da pobreza urbana dos EUA. Mas, no século 19, o bairro apontava para o futuro da cidade, com uma classe média que viria a alimentar a revolução industrial nova-iorquina. No século 18, as colinas do Harlem foram o cenário da batalha que produziu uma das vitórias cruciais da Guerra da Independência e transformou-se em refúgio semibucólico para a nova elite de Nova York.

A narrativa saborosa de Jonathan Gill vai desmistificando anedotas históricas. A famigerada compra da ilha que os índios chamavam de Manahatta em 1626, por US$ 24, não foi bem assim. O holandês Peter Minuit pagou o equivalente hoje a US$ 2 mil, em utensílios, aos índios lenapes. Mas, como não havia propriedade de terras, os índios da tribo Canarsie, do outro lado do rio, onde fica o Brooklyn, também "venderam" Manhattan para os novos ocupantes. Os holandeses, que consideravam os índios "burros como estacas de jardim", gabavam-se de ter pago uma pechincha por uma ilha que não tinha dono.

O primeiríssimo habitante negro do Harlem? Jan Rodrigues, um português. Certamente João de nascença, ele atolou com seu barco num barranco, em 1613. Engraçou-se com uma índia e começou a primeira família birracial americana. Os primeiros escravos negros chegaram da África em 1626, roubados dos espanhóis por piratas. Como a escravidão não era praticada - nem combatida - pelos holandeses, a população negra inicial do Harlem misturava escravos a pequenos proprietários de terras.

No começo do século 19, Nova York era a cidade mais suja e perigosa dos Estados Unidos. Os médicos do Sul da Manhattan prescreviam temporadas de recuperação no oásis verde que era o Harlem. Os ricos nova-iorquinos construíram mansões, fundaram o Harlem Iate Clube e a Orquestra Sinfônica do Harlem.

O bairro começou a ficar para trás do surto econômico que fez de Nova York o centro do país, em parte por causa de estradas mal pavimentadas. Mas o destino do bairro foi selado quando os planejadores municipais decidiram que o centro nervoso do capitalismo seria no Sul da ilha e o Norte continuaria exclusivamente residencial.

Hoje, Gill acha que o destino do Harlem é vítima de outro preconceito de planejamento, o preconceito racial. "Por que áreas mais isoladas e menos viáveis do Brooklyn se tornaram cenário de especulação imobiliária para atrair moradores de alta renda?", pergunta. Gill diz que, apesar da transformação demográfica que tirou do Harlem a maioria dos residentes negros, na última década, outro fluxo trouxe de volta famílias mutirraciais afluentes que começaram a ocupar não só as belas casas construídas no século 19, como também os novos arranha-céus. "O importante é você proteger os moradores vulneráveis que não podem se deslocar", observa ele.

Mesmo os ônibus de turistas que percorrem o Harlem e são apelidados pelos moradores de drive-by safaris têm seu lugar: "A curiosidade respeitosa é bem-vinda", comenta Gill. O problema, comenta, é o baixo número de joias arquitetônicas tombadas. As belíssimas townhouses do Harlem merecem, explica ele, muito mais proteção do patrimônio histórico municipal.

Depois de receber levas de imigrantes alemães, italianos e latinos, e de ter sido um importante centro judaico na virada do século 20, o Harlem tornou-se a capital negra dos EUA a partir da 1.ª Guerra.

O linchamento de negros no Sul atingira uma intensidade sem precedentes. Em 1917, o Protesto Silencioso colocou milhares de pessoas nas ruas e, avalia Gill, foi um evento seminal para unificar politicamente os negros americanos. No silêncio da marcha, quebrado apenas por tambores, uma faixa dizia: "Tragam A Democracia para a América Antes de Levar para a Europa".

A Renascença do Harlem, exaltada com zelo extremo pelos historiadores da cultura negra americana, é questionada por Jonathan Gill. Ele não contesta a explosão de talento de escritores como Zora Neale Hurston e Ralph Ellison, ou o gênio de Duke Ellington e Paul Robeson. Era uma efervescência criativa, devemos lembrar, que convivia com extrema pobreza e racismo ferrenho. No lendário Cotton Club, Duke Ellington ajudou a transformar o que os brancos chamavam de "jungle music" na primeira expressão artística original americana. No entanto, o Cotton Club, além de barrar negros, exigia que as coristas fossem mulatas claras.

"Quanto mais pesquisava", lembra Gill, "mais fui questionando este guarda-chuva da "Renascença do Harlem". Eram estilos estéticos completamente diferentes - a folclórica Zora Neale Hurston, o urbano Ralph Ellison, autor de O Homem Invisível. "Havia enorme diversidade e insistir em reunir tudo sob um título não deixa de ser racismo." Ele lembra também que somente a década de 1940 viu surgir uma geração de harlemites nativos, como Sonny Rollins e Bud Powell.

Em Harlem, Gill conta que a primeira gravação comercial de blues foi feita no bairro, no ano de 1920, pela dupla de empresários W.C. Handy e Harry Pace. Na década seguinte é que emergiram os músicos do delta do Mississippi, como Robert Johnson. A história inicial do jazz deve mais ao Harlem em ragtime do que em dixieland, acredita o autor. Entretanto, o bebop, estilo inventado exclusivamente por músicos negros como Charlie Parker, não marcou um racha radical com o dançável swing, como querem os puristas. "Houve uma superposição", afirma o autor do livro.

Jonathan Gill conta que não teme a descaracterização étnica do Harlem: "Nenhuma área urbana deve ser congelada." Pela primeira vez, desde a década de 20, o Harlem atrai afluência. O avanço latino é evidente e representa um desafio, já que mesmo os latinos de pele escura tendem a se identificar à parte dos negros americanos. Mas Gill lembra também que o Harlem aperfeiçoou, do jazz ao hip-hop, um talento precioso para tempos de mudança: a improvisação.

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