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A alma de Hitchcock

No filme que revisita os bastidores da realização de Psicose, a mulher do mestre do suspense ganha status de coautora do clássico de 1960

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2013 | 02h11

SÃO PAULO - Há uma diferença que salta à vista entre o filme de Sacha Gervasi e o livro em que se inspira. No livro de Stephen Rebello (Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose), a mulher de Hitchcock, Alma, é mencionada uma ou duas vezes, e de maneira superficial. No filme, ela ganha dimensão de coautora do trabalho do marido. Interpretada por Helen Mirren, Alma Reville é muito superior àquele clichê segundo o qual por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Ela, sempre segundo a versão cinematográfica, está ao lado do genial marido e, pelo menos em algumas ocasiões, à sua frente. Claro, este é um filme de corte feminista, bastante adequado ao momento presente.

No mais, é um interessante mergulho nos bastidores de realização de um clássico, talvez o mais conhecido trabalho de Hitchcock, mas que ganhou fama em meio a um generalizado ceticismo dos estúdios. Aos 60 anos, Hitch já era, havia muito, um cineasta rico e consagrado. Morava em mansão e mandava trazer a comida do Maxim's, de Paris, por via aérea. Era daqueles que, conforme o jargão em voga, "não tinha nada a provar a ninguém". Bobagem. Os seres humanos, mesmo os mais geniais (e talvez estes mais que os outros), estão sempre tentando provar alguma coisa aos outros. O reconhecimento do próximo é o calcanhar de aquiles da humanidade e o motor de toda a inventividade. E também de muita confusão e crueldade, mas esta já é uma outra história.

De qualquer modo, Hitch, que se tornara famoso não apenas por seus filmes, mas, acima de tudo, por seu ultra popular programa de TV, sentia-se desgastado. Experimentava necessidade de se reinventar. E encontrou no livro de Robert Bloch, Psycho, material interessante para esse renascimento. Não que o romance fosse uma maravilha, mas relatava, de forma ficcional, os crimes verdadeiros praticados em 1957 por um certo Ed Gein, serial killer do Estado de Wisconsin. Norman Bates, o personagem criado por Bloch, e interpretado em Psicose por Anthony Perkins, é inspirado na doentia figura de Gein, assassino que guardava souvenirs de suas vítimas (mulheres em geral) em casa, como peles, orelhas e narizes. Um horror.

E foi assim que a Paramount, ao tomar conhecimento do interesse de Hitchcock pela história, tirou o corpo fora. Hitch foi obrigado a produzir ele mesmo o filme, o que representava um risco tremendo de perder toda a sua fortuna. O estúdio foi convencido a, apenas, distribuir a obra depois de pronta e, mesmo assim, ficou com o pé atrás.

Portanto, Hitchcock, de Sacha Gervasi, não é exatamente uma cinebiografia do mestre do suspense, mas o registro (também ficcional) de um momento decisivo de sua vida e carreira. Hitch é vivido por um Anthony Hopkins intenso, contido, talvez preocupado em não transformar o seu personagem em caricatura, o que é um desafio adicional. Hitch tinha um tipo físico peculiar, um modo de falar todo seu, um senso de humor constante e cortante. Era um tipo e tanto. Enfim, presta-se muito bem para clichês, assim como se prestava, entre nós, uma figura igualmente marcante como Nelson Rodrigues.

Mais difícil é dar-lhes dimensão humana, e isso Gervasi tenta fazer com seu Hitchcock. Mostrando-o como glutão incurável, um tanto alcoólico, inseguro porém sedutor com as mulheres. E especialmente infantil em seu relacionamento com Alma. Cultiva ciúme doentio quando ela começa a escrever um roteiro com outro escritor, o que equivaleria, simbolicamente, a uma traição sexual. Mostra-o tirânico com suas atrizes, Janet Leigh (Scarlett Johansson) e Vera Miles (Jessica Biel).

O caso de Miles é típico. Escolhida por Hitch para estrelar Um Corpo Que Cai (1958), fica grávida e não pode fazer o papel, que passou para Kim Novak. O diretor nunca a perdoou. Mas, como ainda a tinha sob contrato, submeteu a estrela à humilhação de um pequeno papel em Psicose como a irmã de Marion (Janet Leigh), a ladra assassinada no Bates Motel.

A cena mais importante de Psicose, a morte no chuveiro, também é abordada pelo filme, mas não com a riqueza de detalhes que encontramos no livro. É que apesar de ser um filme sobre o cinema, o Hitchcock de Gervasi não deseja ser técnico em excesso. Uma opção válida, certo, mas que não informa ao espectador porque essa é uma das cenas decisivas na história do cinema, quase tão importante quando a das escadarias de Odessa no Encouraçado Potemkin, de Eisenstein. Para se ter ideia, Hitch, gastando do próprio bolso, levou quase um terço do tempo total de filmagem apenas para produzir os meros 45 segundos de filme, obtidos com 78 (!) posições diferentes de câmera.

Enfim, conciso como deve ser um filme de público, Hitchcock não entra em grandes detalhes sobre a trabalhosa montagem de Psicose. O gênio marqueteiro do diretor está lá, ao proibir que as pessoas entrassem nas salas depois de começado o filme, ou implorar para que ninguém contasse o desfecho aos amigos para não estragar-lhes a surpresa. Conta também que Hitchcock mandou comprar e destruir todos os volumes encontráveis da obra de Bloch para que ninguém soubesse do enredo de antemão.

Em sua simplicidade, Hitchcock fala tanto da tumultuada criação de uma obra marcante do cinema, como é Psicose, como do caso de amor entre o diretor e Alma. E esse outro caso é mesmo uma das grandes histórias do mundo do cinema.

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