A alegria selvagem de machete

Robert Rodriguez confessa que já pensava em Machete desde A Balada do Pistoleiro, mas foi só recentemente que o filme começou a se cristalizar em seu imaginário. Machete, pode-se dizer, nasceu de uma piada. Rodriguez e seu amigo Quentin Tarantino desenvolveram juntos o projeto Grindhouse, formado pelos longas Planeta Terror e À Prova de Morte, que, basicamente, recuperavam/homenageavam as velhas produções B. Para tornar o formato mais completo, Rodriguez e Tarantino criaram trailers (de filmes que nem pretendiam realizar) para acompanhar o programa. O de Machete fez muito sucesso entre distribuidores e exibidores - sem falar que o próprio ator Danny Trejo passou a cobrar do amigo Rodriguez que, pelo amor de Deus, fizesse o longa.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Machete nasceu assim, meio de brincadeira. Deve ser por isso que se trata de um dos filmes mais lúdicos da produção recente, uma espécie de equivalente perfeito para Bastardos Inglórios, que Tarantino, o próprio, fez para satirizar/dinamitar os códigos de guerra. Não se trata apenas do melhor filme de Rodriguez, o que poderia nem significar muita coisa - se o filme atual não fosse tão bom. É também um dos melhores da própria Mostra - o oposto de um filme-cabeça, mas longe de ser descerebrado. O próprio Rodriguez adverte, em declarações que você encontra na internet - "Tudo o que quis fazer foi um filme divertido, sexy e com grandes atores. Agora, se veem mensagens nele... Sim, há recados para todos. E é tudo aberto à interpretação do público." Ou seja, dependendo do que você projetar em Machete, o filme vai ficar bem mais rico (e complexo).

Logo no começo de Machete, Danny Trejo é o federal que se lança numa louca ofensiva contra o magnata das drogas na fronteira mexicana. Apesar do seu esforço heroico, o parceiro - e também sua mulher e filha - são mortos selvagemente pelo vilão Steven Seagal. Três anos depois, Trejo ressurge como imigrante ilegal. A trama, que tem Robert De Niro na pele de um senador tão xenófobo quanto corrupto, parece sob medida para discutir as leis de imigração que foram sendo radicalizadas nos EUA de George W. Bush. Mas o próprio Rodriguez diz que seu tema não é tanto a imigração, mas a ganância do lucro produzido pelas drogas.

O filme é uma fantasia em que o herói imbatível coloca seu machete (sabre) a serviço da revolução encarnada pela tentadora Luz. Mas ele tem outras duas mulheres - a drogadita que se traveste de freira para vingar o pai e a agente da lei que sabe que, quando a lei é injusta, a gente a ignora. As mulheres são todas deslumbrantes - Michelle Rodriguez, Lindsay Lohan e Jessica Alba. O conceito é fordiano - quando a lenda supera a realidade, a gente imprime a lenda, como dizia o editor Edmund O"Brien em O Homem Que Matou o Facínora. Quando Jessica se oferece para fornecer uma identidade a Machete/Trejo no desfecho, ele retruca - para que uma identidade, se já é lenda? O filme é uma festa que potencializa alegremente as linguagens - para o prazer dos cinéfilos.

MACHETE

Cine Tam 4 - Hoje, 21h30

Espaço Unibanco 3 - Quarta, 22h10

Cinemark Cidade Jardim 5 - Quinta, 21h

Cinemark Eldorado 7 - Domingo (31), 21h

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.