A alegria intuitiva dos corações futuristas

Egberto Gismonti sobe ao palco ao lado de orquestra de jovens artistas

LAURO LISBOA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2013 | 02h08

Corações Futuristas - este é o significativo título de um álbum do compositor e multi-instrumentista Egberto Gismonti, lançado em 1976. Foi dali que ele tirou o nome da orquestra de jovens que dirige e traz para São Paulo pela primeira vez amanhã . É a única atração brasileira do BMW Jazz Festival, que começa hoje no HSBC Brasil.

"Conheci grande parte desses músicos (quando digo músicos, me refiro àqueles que leem música) que hoje estão tocando na Orquestra Corações Futuristas na Escola de Música Pro-Arte, do Rio, que tinha a direção musical de uma pessoa maravilhosa e uma grande amiga, Tina Pereira", lembra Gismonti.

Tina, segundo lembra o músico, desenvolveu com alunos desde que tinham 8 ou 9 anos de idade projetos de concertos em homenagens a grandes compositores, "sempre criando situações para que se dedicassem à música brasileira". Gismonti foi um desses homenageados. "Acho que foi em 2009, quando ouvi a orquestra tocando a minha música, com arranjos de várias pessoas, como eles sempre fizeram. Passou o tempo e Tina e eu ficamos muito próximos."

Com a morte de Tina pouco tempo depois, e sem que ele desejasse nada relacionado a trabalho com o grupo que tinha visto tocando, na época formado por cerca de 40 alunos, Gismonti, como outros músicos, compareceu ao velório, ao enterro e às missas que se seguiram. "A cada encontro que a gente tinha em torno da morte de Tina, percebi que os adultos tinham lembranças muito positivas em relação a ela, mas comecei a ver que os meninos ficavam chorando o tempo todo", lembra o músico.

De maneira "intuitiva", Gismonti procurou a direção da escola e propôs um encontro com a orquestra para conversar com os ex-alunos da educadora. "Eu achava que a melhor maneira de festejar o amor pela Tina seria tocando. Evidentemente que eu acho que eles sabiam disto, mas naquele momento precisavam de alguém pra lembrá-los."

Com uma certa periodicidade, o músico manteve encontros com a orquestra, ainda misturada com cerca de 40 integrantes de idades variadas. "Eles ficaram muito cabreiros no início, porque ali estava diante deles um homenageado, que estava ocupando o espaço da Tina. Isso criou um certo problema, mas felizmente eles perceberam que eu não estava ali como homenageado e muito menos para substituir a professora."

O que Gismonti queria era desenvolver um projeto, que no início se chamou Viva Tina, reunindo repertório de vários compositores escolhidos por eles, e que fossem para o estúdio da Rádio MEC realizar gravações sem fins comerciais. "Era só para cada um poder receber um número xis de discos e dar para os amigos para lembrar da Tina."

A partir daí, Gismonti propôs à direção da escola que dividisse o grupo em dois, "porque tinha muita criança misturada com gente que já sabia tocar direito". Assim, o grupo ficou com 22 pessoas, ainda jovens, mas bem mais desenvolvidas artisticamente. "Quando eles se deram conta que o meu entusiasmo podia se transformar numa coisa positiva, que talvez eles não tivessem vivido no formato profissional ainda, se animaram muito. Eu também fui me animando demais."

Gismonti diz que não esperava que aqueles músicos "se disponibilizassem e se doassem tanto, a ponto de me convencerem totalmente de que ali tinha um grupo com uma originalidade violenta, porque estavam tocando uma música que era uma encrenca danada, de pé, dançando e se divertindo".

Com oito flautistas, quatro clarinetistas, três saxofonistas, trompetista, trombonista, pianista, baixista, percussionista e baterista, a OCF toca uniformizada e, além do Rio, já se apresentou em Recife, Salvador, João Pessoa, Olinda e fora do Brasil, e gravou trilhas sonoras dos filmes Tempo de Paz, Chico Xavier e O Senhor do Labirinto - Bispo do Rosário, e da peça teatral Folias Metafísicas.

Gismonti lembra que tem por hábito tocar com cerca de 10 orquestras por ano no mundo todo. "Não estou comparando essa orquestra com outras no sentido técnico. O que interessa é que ela tem uma alegria quando toca, sem partitura, e tem contagiado todo mundo. O que eles me sugerem é que em momento algum estou diante de uma orquestra tradicional."

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