A alegria de Keith Haring

Mostra apresenta obras do americano que influenciou a arte de rua

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2010 | 00h00

Os bonequinhos das obras de Keith Haring (1958-1990) se transformaram em sua marca: tanto faz se em pinturas, desenhos, gravuras, silk-screens, camisetas, buttons. É que dentro da vertente pop do americano que se notabilizou pelas criações que realizava nas ruas e metrôs de Nova York na década de 1980, principalmente (e que influenciam artistas até hoje), a arte deveria ser acessível para todos - e ainda como parte desse conceito, feita a partir de uma linguagem visual simples, colorida, infantil. É o que se vê na mostra Keith Haring - Selected Works (Obras Selecionadas), que será inaugurada hoje na galeria da Caixa Cultural na Avenida Paulista.

É uma espécie de exposição retrospectiva, com 94 trabalhos, todos sobre papel, emprestados do acervo da Fundação Keith Haring, criada pelo artista em 1989, quando ele já sabia ser soropositivo - a aids foi a causa de sua morte em 1990. "Mas ele era um otimista, fazia obras totalmente positivas. É claro que via os problemas do mundo, os colocava em suas obras, comentando temas sociais, políticos, sexuais. Só que de uma maneira que não aterrorizasse ninguém", diz Julia Gruen, que trabalhou com Haring desde 1984 até a morte do artista e por ele foi indicada para dirigir a fundação que leva seu nome. A mostra, feita com curadoria da americana Sharon Battat, perpassa a produção de Keith Haring de 1982 em diante.

Desconhecido. Em 2003 a Fundação Keith Haring apresentou no Centro Cultural Banco do Brasil obras do artista em diálogo com polaroides do "superstar" pop americano Andy Warhol. Imperavam na mostra anterior de Haring, com pinturas e desenhos, as figuras de seus bonequinhos - sempre sem rostos e barrigudos, com expressões definidas pelos gestos de seus braços e pernas. Entretanto, nessa exposição que agora se inaugura na Caixa Cultural (e que entre 28 de setembro e 14 de novembro será apresentada no Rio), abre-se a oportunidade de se conhecer criações diferentes e desconhecidas do artista.

Como a série de desenhos intitulada The Valley, de 1989, feita a partir de textos do escritor William Burroughs - são obras em preto e branco, de traços "picassianos" bem finos e de atmosfera surrealista que remete a uma mistura de "idade média e vida contemporânea", como define Julia Gruen. Ou o conjunto de 21 litografias de The Story of Red + Blue, de 1989 (uma narrativa de cunho infantil), o labirinto abstrato de Stones e as silk-screens com colagem de 1988 da série Apocalypse, também criada em colaboração com Burroughs (o escritor e pintor era para ele uma inspiração, assim como as criações de Jean Dubuffet e Pierre Alechinsky - este tem atualmente exposição em cartaz no Instituto Tomie Ohtake).

Mas, certamente, estão na exposição as obras da linguagem de forte colorido e mesmo que, por vezes, de referência a temas nada leves como o apartheid racial e as relacionadas à aids (o livro The Book of Life, de prevenção à doença, será distribuído gratuitamente na mostra), são sempre chamativas para um público diverso. "No trabalho dele há a alegria das cores, é sempre fácil de ver", justifica Sharon.

No piso superior estão em vídeos, fotografia, documentário e objetos pessoais a menção biográfica a Haring, que esteve em São Paulo em 1983 ao participar da Bienal daquele ano (pintou um muro na Avenida Sumaré, depois, apagado) - e ele gostava do Brasil, vindo outras vezes passear na Bahia.

KEITH HARING

Caixa Cultural. Avenida Paulista, 2.073, 3321-4400. 9 h/ 21h (dom., 10h/ 21h; fecha 2ª). Grátis. Até 5/9.

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