A afirmação do amor

O uruguaio El Casamiento e o brasileiro Olhe Pra Mim de Novo tratam de relacionamentos entre transformistas

Luiz Carlos Merten / GRAMADO, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

Foi a melhor sessão de curtas do 39.º Festival de Cinema Brasileiro e Latino. Até o que pode ser considerado o programa menos atraente do formato, na quarta - Calma, Monga, Calma, de Petrônio de Lorena -, teve sua dose de interesse. O filme sobre assassina em série, na verdade uma predadora sexual, começou trash, mas muito original e criativo com o ataque da criatura num cinema pornô, onde a última coisa que os frequentadores fazem é perder tempo olhando para a tela. O diretor viu Serbis, de Brillante Mendoza, e aprendeu bem a lição.

Os dois melhores curtas da tarde foram Um Outro Ensaio, de Natara Ney, e Qual Queijo Você Quer?, de Cíntia Domit Bittar. Dois casais - um homem que se adapta e protege sua companheira cega, e o que ela revela de íntimo, no final; um casal de velhos a revolta da mulher, que explode a partir de um incidente banal. O segundo tem uma belíssima, e simples, ideia de mise-en-scène. O relógio parado que recupera seu movimento, como metáfora da própria relação.

Entusiasmados, ou pelo menos animados pelos curtas, os espectadores embarcaram nos programas das mostras competitivas brasileira e latina, à noite. Entre um filme e outro, a homenagem a Domingos de Oliveira, vencedor do troféu Eduardo Abelim deste ano, foi empanada pela ausência do homenageado. Domingos sofreu um acidente e não veio, mas enviou um vídeo de agradecimento.

Deveria ser - apesar de tudo, foi - o dia dos relacionamentos, da afirmação do amor. O filme uruguaio, El Casamiento, de Aldo Garay, é sobre o par formado por uma transformista e seu companheiro. Depois de muitos anos vivendo juntos, eles resolvem se casar. São simples (simplórios?). Ela admite que sempre sonhou com o vestido de noiva. Ele é um velho machista - e o companheiro talvez tenha feito a operação de mudança de sexo só para satisfazê-lo, porque não ficava bem dois homens vivendo juntos. O marido sentia-se envergonhado.

Digamos que os personagens podem ser interessantes - e o preconceito torna um pouco mais complexa a simplicidade da solução, a forma como eles se assimilam e ajustam. Mas o filme é pobre, esteticamente, mais do que os ambientes que habitam. Transformado em personagem, o totó arrisca-se a virar a figura mais divertida. Passa pelo filme dando beijinhos no par. O filme brasileiro Olhe Pra Mim de Novo, de Kiko Goifman e Cláudia Priscilla, é também sobre um transformista, que também fez operação de mudança de sexo, mas para virar homem.

O personagem veio em pessoa do interior da Paraíba. Trouxe a esposa. Merece todo o respeito, mas o filme incorpora uma discussão muito embolada de Sílvio Lúcio - é seu nome - com a mulher e a filha. Elas se interrogam se ele precisava mesmo mudar de sexo. Essa discussão sobre identidades é uma coisa que faz parte do trabalho de Goifmam, que aqui coassina o filme com a mulher. Como linguagem, o filme brasileiro é mais complexo - até sofisticado - do que o uruguaio. Tem lá seus problemas formais, mas o grande embaraço, afinal de contas, é o próprio Sílvio (escreve-se Sillvio). Até para se impor no meio machista em que vive, ele virou a representação do homem preconceituoso. Exige respeito para si, mas não tem pelas mulheres. Tudo o que diz e faz em cena é ofensivo.

SERRANAS

Calçada

Assim como Cannes, Gramado também tem a sua Calçada da Fama. Astros e estrelas deixaram a marca de suas mãos nas calçadas da cidade. Mas a tradição foi interrompida. A ideia agora é retomá-la. Já se fala num site em que o público poderá opinar sobre quem gostaria de ver imortalizado.

De volta

Nelson Xavier, o Chico Xavier de Daniel Filho, está na cidade. Há três anos ele não vinha. O público o reconhece e pede fotos e autógrafos. Ele corresponde, mas assinala que seu compromisso é ver os filmes da competição.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.