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A admiração que luta

A inveja é o grito do prisioneiro de si que não suporta mais a cela

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2020 | 03h00

Machado definiu a inveja como “a admiração que luta”. A afirmação está no genial Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas a nova lei de Humanitas proposta no livro diz que a inveja é um sentimento nobre e uma virtude, pois nasce do positivo de buscar alguém superior. A personagem do Bruxo do Cosme Velho é uma rara voz a favor da inveja.

No meu livro Pecar e Perdoar (ed. Harper Collins), tratei dos vícios fundamentais da nossa espécie. Constatei (em harmonia com quase todos os moralistas) que a vaidade é a base de todos os erros, capitais, morais, veniais ou pecadilhos cotidianos.

O orgulho fez cair Lúcifer, o mais belo dos arcanjos. Como ele, portador de luz, poderia prestar reverência ao homem recém-criado? Ele preferiu, como escreveu o poeta John Milton (1608-1674), ser senhor do Inferno a servir no céu (Better to reign in Hell, than serve in Heaven). Curioso que a fala orgulhosa dele indica, alguns versos antes, que o Todo-Poderoso instituiu aquele lugar não por inveja e, por isso, eles não serão desalojados dali (the Almighty hath not built here for his envy, will not drive us hence). Comportamento típico de acusados: tenta jogar a culpa em mais gente. Debalde, inveja e orgulho estariam associados para sempre. O invejoso acha que o mundo lhe deu pouco, ou que é mais merecedor do que aquele que parece mais realizado. Assim, na ambição de uma vaidade desequilibrada, surge a umidade para germinar a tristeza pela felicidade alheia, a mais clara e precisa definição de inveja.

Abstraia o tema de Milton: um Céu e um Inferno. Elimine por um instante a possibilidade de um Deus. Pense fora da gramática moral. Assuma apenas o lado técnico: o que alguém ganha invejando? Absolutamente nada. Pelo contrário, ao olhar a vida alheia com força, tende a perder foco na sua. O jovem pintor que se queima de inveja diante dos quadros dos mestres tem uma chance grande de nunca pintar nada bom. Em nada melhora meu projeto profissional achar o do outro superior. Atacar alguém pelas redes sociais revela muito de mim e da minha dor, raramente elimina a fama do meu alvo. Pelo contrário, aumenta a presença dele entre os trend topics... O invejoso ajuda no sucesso alheio. Como queria Brás Cubas, é uma “admiração que luta”.

Serviria o sentimento invejoso para algo bom? Na minha interpretação, é um dos maiores sintomas que podemos expressar do que desejamos ou tememos. Não vejo o sentimento, em si, como ruim, já que somos falhos e pouco sábios. Ao ver que emerge qualquer coisa que possa ser classificada como inveja, pego pela raiz o impulso e penso o que eu quero e, se quero, por que não luto por ela? Retiro do outro o poder de causar dor e coloco-me como protagonista. Deixo de achar que minha felicidade pode estar em régua alheia, que meus afetos possam ser determinados por terceiros e tento reassumir a tranquilidade interna para fazer o que posso mudar, e, bem estoicamente, aceitar aquilo que não posso. Assim, a inveja é um indicativo rico quando surge. É um veneno terrível quando eu a deixo seguir o curso de envenenamento.

Há alguns anos, no já citado livro Pecar e Perdoar, eu dei um conselho a mim e a quem lesse. Seria possível evitar o orgulho e a inveja? “Acho que não. No extremo, alguém que dissesse que está feliz por não ser orgulhoso, no fundo, está dizendo do seu orgulho de ser humilde. Se não tenho inveja de nada, provavelmente já fiz a transição para o país da morte, pois viver, em parte, é invejar. Mortos não invejam, no entanto ainda podem ser invejados.”

Enquanto eu estiver vivo, crescerão em mim os miasmas da vaidade e da inveja. Imerso na lama da humanidade, pelo menos posso tentar lutar e me conhecer um pouco mais. Considero uma luta diária e renhida. Focar no meu projeto. Ser consciente dos meus limites. Admitir meus erros ao menos para mim. Perceber que a luz alheia pode cegar a mariposa do bom senso e me fazer adejar de forma errática em fonte luminosa errada. Quando observar as muitas, inúmeras, incontáveis multidões de pessoas melhores do que eu, conseguirei pensar que algumas coisas podem ser constituídas em bons exemplos. Naquilo que eu jamais poderia alcançar, aceitar que viver é carregar algumas dores. Refletir também que o pouco que eu possa ter de superior à média deve ser apenas prova de que a média nunca é um bom patamar de comparação. Eis a jornada quase diária para ser sábio. Um desafio adaptado do sábio conselho dos alcoólicos anônimos: só hoje lutarei para ser melhor até o fim deste único e irrepetível dia. Exclusivamente no dia em curso tentarei olhar para meu universo, mesmo mantendo o olhar e o gesto solidário com o mundo. E, corrigindo o demônio do poema citado de Milton, eu saberei que no Paraíso ou no Inferno, reinando ou sendo mandado, continuarei sendo eu e me carregando para sempre. Eu estou condenado a mim mesmo. Isso liberta, assusta, faz pensar e, talvez, despertar. A inveja é o grito do prisioneiro de si que não suporta mais a cela. Boa semana para todos os sábios, e para nós também.

*É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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