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Sérgio Augusto
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8 de maio, 1945

Os alemães acabaram sendo os primeiros a anunciar o fim da guerra pelo rádio

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2021 | 03h00

O melhor e mais festivo 8 de maio de todos os tempos foi aquele que em 1945 selou o fim da 2ª Guerra Mundial. É a segunda data histórica mais cultuada aqui em casa. A primeira ainda é o 6 de junho de 1944, o D-Day, dia do desembarque das tropas aliadas na Normandia, prelúdio da libertação de Paris e da tomada de Berlim pelo exército soviético, o xeque-mate no Reich nazi-fascista. 

Como não há a menor chance de anunciarem a derrocada da covid-19 e o fim da pandemia nas próximas horas, o 8 de maio a ser hoje celebrado é, mesmo, o de 76 anos atrás. Óbvio que só sei como ele foi pelos relatos que li e ouvi. 

De leitura, minha última fonte foi Year Zero: A History of 1945, de Ian Buruma, editado em 2014 pela Penguin. Mas há outro livro, muito bom, em cujas 470 páginas já cisquei várias vezes: The Day the War Ended, May 8, 1945, de Martin Gilbert (Henry Holt & Company, 1995), que retrata como o fim do conflito foi recebido em todos os países nele mais diretamente envolvidos. 

À cata de uma pauta para esta coluna, fiquei em dúvida entre abordar a CPI do Genocídio e falar de Anitta – não o vermífugo receitado pelo negacionismo como outro “santo remédio” contra a covid, mas a cantora e sua The Girl From Rio, que, diga-se, só fui conhecer depois que o correspondente da Associated Press me procurou para comparar as duas garotas, a de Ipanema e a do Piscinão de Ramos. Resultado: acabei empacado em outra encruzilhada, indeciso entre a revogação da Lei de Segurança Nacional e os 76 anos do dia mais feliz do século passado. 

Embora já estejamos liberados para espinafrar, sem risco, o presidente, chamá-lo de todas aquelas coisas horrendas que ele, reconhecidamente, é ou encarna, o verdadeiro fim da LSN, dependente ainda da aprovação do Senado, pode esperar um pouco, mas o 8 de maio não. 

Cheguei a cogitar de uma terceira pauta com o que havia (e sempre há) à disposição da gente no noticiário. No mínimo me livraria de abordar mais uma vez as forças armadas, esteios da ditadura que nos impôs a LSN, cúmplices do sociopata do Planalto na promoção da cloroquina e alma pater do Pazuello, que todos sabemos como chegou a ministro da Saúde mas ao generalato, por pior que seja nosso conceito da meritocracia castrense, ainda é um mistério. 

Aí pensei em Thomas Pynchon, que hoje aniversaria. Debalde. Pynchon, 84, serviu dois anos na Marinha, durante a guerra, e O Arco-Íris da Gravidade, para muitos sua magnum opus, abriga um razoável arsenal bélico, destacadamente de bombas voadoras. A guerra se me revelou, pois, inescapável. E já que é inescapável, fico mesmo com o seu último ato.

Na noite de 6 de maio, numa escola de Reims, na França, as tropas alemãs assinaram sua rendição incondicional às forças aliadas. O V-E Day (V de vitória, E de Europa) ficou para dois dias depois, uma terça-feira. Stalin queria mais um dia para melhor preparar a festa em Moscou; Churchill desprezou a proposta. “Todo o povo britânico está há dias assando pães para a celebração, bandeiras e estandartes já foram confeccionados, os sinos das igrejas só esperam um sinal para ser dobrados”, ponderou. 

Aproveitando-se da indefinição aliada, os alemães acabaram sendo os primeiros a anunciar o fim da guerra pelo rádio, direto de Flensburg, onde o almirante Döenitz cuidava do que restara das forças do Reich; a BBC de Londres pegou a notícia e divulgou-a mundo afora. 



Em poucas horas, milhares de edições extras chegavam às bancas de jornais, com manchetes em letras garrafais e com no mínimo um ponto de exclamação: “A Guerra acabou!”. Em praças, ruas e avenidas, a festa começou, sem hora para terminar – menos em cidades alemãs, parte delas arrasada por bombardeios aliados.

Pouco antes da meia-noite, no QG russo em Karishorst, o marechal Georgy Zhukov, comandante das forças armadas soviéticas, aceitou a rendição alemã e o almirante Von Friedeburg assinou outra capitulação. Zhukov pediu aos alemães que se retirassem; ficaram apenas os vencedores: russos, americanos, britânicos e franceses – e um festival de inflamados e patrióticos discursos turbinados a vodca prolongou-se até de manhã.

Em Londres, o Big Ben soou três vezes, uma multidão nunca vista tomou a praça do Parlamento, dezenas de populares viraram pingentes nas grades do Palácio de Buckingham, alto-falantes retumbaram a voz de Churchill, às três da tarde. Eisenhower já fizera seu discurso aos americanos. De Gaulle, receoso de ser ofuscado por Churchill, agendou sua mensagem aos franceses também para as 15 h. 

Se pudesse escolher, gostaria de ter festejado o V-E Day em Paris, só para ver o acrobático voo daquele piloto de guerra através da (creio ser este o advérbio preciso) Torre Eiffel, repetindo a façanha do piloto William Overstreet, no ano anterior, com os alemães ainda ocupando a França, Vichy de pé, Rick Blaine e Ilsa Lund em Casablanca e... mas esta já é outra pauta. 


É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

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