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72 anos depois

Tempo ainda é pouco para avaliar o que fizemos em Hiroshima e Nagasaki

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2017 | 02h00

Nesse agosto, faz 72 anos do lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, que encerraram a Segunda Guerra Mundial. Eu estava em Nova York e me lembro dos festejos na rua pelo fim da guerra. Nem eu, às vésperas dos meus 9 anos, nem a multidão nos dávamos conta do momento duplamente histórico - o fim da guerra e o nascimento da era atômica - que vivíamos. Mas, quando escreverem a história da nossa geração, é das bombas que falarão, e não da nossa festa. Somos seus contemporâneos, marcados para sempre por elas, como sobreviventes das explosões.

72 anos ainda é pouco para avaliar o que fizemos em Hiroshima e Nagasaki. A poeira ainda não baixou. Algumas feridas ainda não fecharam. Harry Truman, o presidente que ordenou o bombardeio, está não só vivo na memória do povo americano como virou herói nostálgico. Era um ex-camiseiro rude e prático do meio-oeste, com aquela mediocridade resoluta que os americanos confundem com sabedoria política e gostam de identificar com as melhores virtudes populistas. Sem rodeios, com o mesmo senso comum que lhe garantiu o afeto retroativo do público, Truman ordenou o aniquilamento de duas populações inteiras sem perder o sono.

Hoje, sabe-se que os japoneses faziam contatos com os aliados para negociarem a rendição muito antes dos B-29 decolarem. Truman também poderia ter demonstrado o poder das bombas em algum lugar desabitado para forçar a rendição incondicional do inimigo. Como era um homem prático, ou tinha conselheiros práticos, sabia que não estava apenas encerrando uma guerra como dando o primeiro tiro na provável guerra seguinte, contra a União Soviética, e preferiu que o mundo sentisse na pele o terror da nova arma. Justificou-se perante a História, alegando que a obliteração de Hiroshima e Nagasaki tinha encurtado a guerra e poupado vidas. Principalmente as vidas de americanos numa invasão do Japão. Outra pergunta que ainda se faz é: se a guerra na Europa, que acabou antes da guerra no Pacífico, tivesse se prolongado, bombas atômicas teriam sido usadas contra a Alemanha? Acho que não.

Harry Truman, esse nosso pitoresco contemporâneo, morreu de velhice, cercado pelo carinho dos netos e o respeito da nação.

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