64 contos, com a grife literária de Rubem Fonseca

64 Contos de Rubem Fonseca traz como bônus um prefácio do escritor argentino Tomás Eloy Martinez. O livro reúne desde os primeiros, como Força Humana (de seu segundo livro, A Coleira do Cão, 1965) até os mais recentes, incluindo os mais populares (O Cobrador, de 1979). Martinez, autor do recém-lançado O Cantor de Tango, parece gostar particularmente de dois deles, O Cobrador e Romance Negro.Compreensível. No primeiro, o cobrador tenta se vingar de um mundo que lhe negou tudo - sexo, comida, cobertor, sapatos, dentes - e quer tirar tudo dele. Já nos sete contos de Romance Negro, o intelectual por trás desses textos se manifesta, refletindo sobre essa violência que não começou com a ditadura, mas bem antes dela. Há exatamente 30 anos Rubem Fonseca morava numa favela para observar a rotina de seus moradores e escrever um livro que a ditadura militar tratou imediatamente de censurar, Feliz Ano Novo, volume de contos que anunciou, com fúria e sem pudor, a escalada de violência no País. No conto que dá título ao livro, bandidos entram numa casa de um bairro elegante, no Rio, e cometem uma carnificina na ceia da passagem de ano, discutindo uns com os outros qual é a melhor forma de fuzilar um homem - se contra a parede ou a porta. Em Feliz Ano Novo, o escritor mineiro, que mora no Rio desde os 8 anos, traça um retrato do Brasil que desceu ao nono círculo do inferno e nunca mais saiu de lá.Reduzido à condição de flâneur, como o Augusto de seu conto A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro, Rubem Fonseca chega perto dos 80 anos sem ver o Brasil livre dos carniceiros. Sua única arma é a língua. Os leitores, agradecidos, voluntariamente se rendem. 64 Contos de Rubem Fonseca - Lançamento Companhia das letras. 800 págs. RS$ 44,90

Agencia Estado,

22 de novembro de 2004 | 18h14

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