50 anos depois, ele ainda tira o sono

Objeto instantâneo de culto, Psicose é exibido em versão restaurada

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Em 1960, quando Alfred Hitchcock se lança ao desafio de realizar Psicose, o mundo e o cinema estão mudando. Ao longo dos anos 1950, uma geração de novos diretores contestou o sonho americano e abriu caminho em Hollywood. A década seguinte vai mudar tudo. Fellini antecipou as mudanças e ganhou a Palma de Ouro em Cannes com A Doce Vida. Em seguida, o Código Hays, que disciplinava o uso do sexo e da violência nas produções, será arquivado. Psicose surge nesse bojo. Completam-se agora 50 anos de um dos filmes mais influentes da história do cinema. A data está sendo lembrada pela Sala Cinemateca, que vai reexibir o filme - a versão restaurada reestreou em Cannes, em maio - e o remake de Gus Van Sant.

Foram mais de 70 posições de câmera que Hitchcock usou para 40 segundos de filme, apenas, na cena do assassinato de Marion Crane na ducha, em Psicose, gerou inúmeras imitações - de Brian De Palma, por exemplo -, mas também alimentou a estética da MTV. Hitchcock é cria de Hitchcock, pouca gente se dá conta disso. Quando faz Psicose, ele vem de uma sucessão impressionante de obras-primas. Janela Indiscreta, Um Corpo Que Cai (Vertigo), Intriga Internacional.

Na época, fazia sucesso o show de TV Alfred Hitchcock Presents, no qual o próprio mestre apresentava relatos de suspense. Buscando um projeto para empregar, no cinema, as técnicas da TV, ele concebeu esse modelo de filme barato, para ser feito com uma pequena equipe. Psicose nasceu com a intenção declarada de pesquisar a linguagem - e a própria dramaturgia. O filme começa acompanhando a personagem de Janet Leigh. Marion Crane, que Hitchcock definia como uma "pequeno-burguesa ordinária", que rouba da firma para tentar resolver sua ligação amorosa com um homem casado.

Ela vai parar no motel de Norman Bates. Surge o personagem interpretado por Anthony Perkins. Há um diálogo complexo entre Marion e Norman. Ambos são observados por pássaros empalhados - que ele empalhou. Ele expressa uma visão mórbida do mundo, na qual não existe perdão nem segunda chance. Marion discorda e termina sua fala dizendo que precisa ir para a cama porque amanhã terá um longo dia, de volta para casa. A ducha faz parte desse movimento. Em busca de uma purificação - disposta a pagar por seu crime -, Marion entra no banho. A câmera entra com ela. Vemos, através da cortina de plástico, o vulto que entra no banheiro. A cortina é descerrada brutalmente, Marion é morta a facadas.

Quem matou? Na sequência, ouve-se a voz de Norman imputando o crime à mãe. Mas não demora muito e o espectador descobre que Norman não tem mãe e mora sozinho no motel. O que está ocorrendo? Há 50 anos, era não apenas raro como insólito o que Hitchcock propunha. Janet Leigh era a estrela de Psicose e nenhum espectador de filmes de Hollywood entrava no cinema para ver a estrela morrer com apenas um terço da projeção do filme. Isso já era um choque. A brutalidade do assassinato compunha um quadro mais inesperado ainda. No segundo terço do filme, ocorre outro crime - a morte de Arbogast (Martin Balsam), o detetive que segue a pista de Marion. Virão depois a irmã e o ex-amante, mais uma tentativa de assassinato - que será evitada por ele. Concluída a tragédia em três atos, há um epílogo no qual o psiquiatra explica o trauma que está na origem da psicose retratada no filme.

O culto ao clássico foi instantâneo. Críticos importantes imediatamente perceberam que Psicose não apenas subvertia postulados estéticos e narrativos tradicionais - numa época de mudança, em que se impunham movimentos como a nouvelle vague -, mas a densidade emocional da cena da ducha, o seu significado profundo, davam nova aura ao uso que o grande diretor fazia, afinal de contas, de uma peça de literatura barata. Hitchcock há anos incorporara Freud ao seu processo criativo, recorrendo às chaves da psicanálise. Mas foi aqui que ele iniciou sua trilogia psicanalítica sobre Édipo. Bates é claramente um personagem edipiano, como o serão Rod Taylor em Os Pássaros e Tippi Hedren - uma Electra - em Marnie, as Confissões de Uma Ladra. A tragédia de Norman é que não existe volta para seu crime. Os Pássaros e, principalmente, Marnie contam a história de Norman Bates curáveis, e isso faz toda a diferença.

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