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Sérgio Augusto
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50 anos de reflexão

O Festival de Cinema do Rio, que termina na próxima quarta-feira, acabou sendo uma pequena festa literária, com pelo menos duas atrações irresistíveis: os documentários sobre Susan Sontag e a revista The New York Review of Books. O que vale dizer que Sontag, em dose dupla por ter sido colaboradora da Review, foi a estrela máxima da mostra, secundada pela voz da atriz Patricia Clarkson, que também brilhou em dobro, dublando a autora na leitura dos textos enfocados em Sobre Susan Sontag e a de Mary McCarthy, no mesmo esquema, em The New York Review of Books: Uma Reflexão de 50 Anos. Embora Sontag e McCarthy tivessem tons de voz diferentes, Clarkson me pareceu uma escolha perfeita para as duas figuras.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2014 | 02h05

O íntimo e nuançado estudo biográfico que Nancy D. Kates fez de Sontag será reprisado hoje, às 14h40, no Estação Rio 3, e o documentário sobre o cinquentenário da New York Review também (18h30 no Cinépolis Lagoon 5), com uma sessão extra amanhã, às 15h20, no Estação Rio 2.

Sempre acurado na escolha dos seus colaboradores, Robert "Bob" Silvers não fez por menos ao convidar Martin Scorsese para contar a história de sua revista (que prefere chamar de "jornal") no cinema. Scorsese é o mais nova-iorquino dos cineastas (ok, ao lado de Woody Allen e Sidney Lumet), já publicou texto na Review (que acompanha desde o primeiro número), e é grande amigo (quem não é?) de Silvers, o último patriarca do jornalismo literário americano, hoje um senhor de 84 anos, ainda entregue de corpo e alma ao desafio de editar a mais bem-sucedida publicação intelectual dos últimos 50 anos.

As primeiras imagens do filme, inevitavelmente celebratório (nada contra, a Review merece), mostram Manhattan de cima, em plongée, como numa viagem em balão planejada por Saul Bass. E logo mergulhamos naquela magnífica selva de concreto para "ocupar" o Parque Zuccoti, o último grande agito social da ilha coberto pela Review. Michael Greenberg, que se ocupou da cobertura em 2011, é o primeiro integrante da revista a aparecer em cena, sucedido por Bob Silvers, solitário à noite na redação, a polir algum texto, e em seguida fazendo as honras da festa do cinquentenário, um ano atrás. Só então entram os créditos.

Scorsese, que divide a direção com David Tedeschi, procurou montar sua narrativa com um olho na cronologia e outro na divisão temática, sem abrir mão de idas e vindas no tempo. Seu filme é redondo, literalmente circular. Suas derradeiras imagens nos remetem à primeira visão de Silvers, sozinho em mais um serão, tentando conciliar a leitura de um texto com a cobertura televisiva da ocupação do Parque Zuccoti.

A Review nasceu de uma necessidade (espanar a modorrenta imprensa literária liderada pelo suplemento literário do New York Times) e uma conjuntura favorável (uma greve dos gráficos, que deixou Nova York sem jornais durante 114 dias, no inverno de 1962), por coincidência iguais às que,16 anos mais tarde, precipitariam o surgimento de seu clone britânico, a London Review of Books, cujo criador, aliás, o escocês Karl Miller, morreu na semana passada.

Viabilizada por dois casais ligados a Silvers, o editor Jason Epstein e sua mulher, Barbara, o poeta Robert Lowell e a escritora e crítica Elizabeth Hardwick, a Review, impressa em papel jornal numa gráfica de Connecticut, salvou o Natal das editoras, oferecendo-lhes uma vitrine aos seus lançamento de fim de ano, e o futuro da crítica e do ensaísmo, abrigando em suas páginas (apenas 47 no primeiro número) as melhores cabeças ao alcance do telefone e da intimidade de seus cinco fundadores.

"Nós podíamos fazer o que bem entendíamos", relembra Silvers com orgulho pela total liberdade conquistada e mantida. Ele é o penúltimo sobrevivente do quinteto. O outro, Jason Epstein, há muito apenas colabora, de forma infrequente, ao contrário de Barbara, que só deixou de ser o braço direito de Silvers ao morrer, oito anos atrás. Polímata bonachão, à vontade em qualquer conversa sobre arte, ciência, literatura e política, Silvers fez a revista a seu feitio: séria, eclética, socialmente engajada, sem parti pris e sem jargão, escrita com o máximo de autoridade, clareza e elegância, atributos por ele reiterados ao longo de suas intervenções no filme.

A impressão que se tem é que Silvers não se desliga jamais do trabalho de editor, ou, melhor dito, do prazer de editar. Quando não está ao telefone, sugerindo pautas e leituras, propondo um ou vários livros a um colaborador, aconselhando em surdina algum acréscimo, esclarecimento ou alteração no texto, já de algum tempo até mesmo de um táxi, pelo celular, é visto debruçado sobre um original ou uma prova gráfica, lápis ou caneta em punho, a discutir detalhes da paginação com um de seus assistentes.

"As pessoas pensam que escritores não gostam de ser editados, que editores interferem demais, mas isso não é verdade", depõe Daniel Mendelsohn, que considera um prêmio ser editado por alguém que saiba mais do que ele, como é o caso de Silvers, de quem Mendelsohn, especula-se, deverá herdar a batuta quando o maestro não tiver mais condições de reger a orquestra. Ian Buruma reitera esse ponto, destacando a vantagem de se escrever para uma publicação cujas colaborações não passam pelo crivo de um conselho editorial, mas dependem somente do julgamento de um cérebro, "em que confiamos e que confia na gente".

Scorsese optou por uma montagem simples, justapondo imagens originais com documentos de arquivo. Uma tomada de Jackson Pollock salpicando tintas antecede um ensaio de Frank Kermode sobre "o que é arte"; um discurso de Martin Luther King Jr. precede uma reflexão de Hardwick sobre a marcha dos direitos civis; poetas puxam poetas (Lowell-Auden-Eliot-Derek Walcott).

Os temas se sucedem e alternam com lógica jornalística, digamos assim, oferecendo um amplo panorama da cultura, da política e da ciência de 1962 até hoje: Vietnã, a revolução do papado de João 23 (examinado por Hannah Arendt), a Primavera de Praga (Václav Havel virou habitué da revista), as lutas dos dissidentes soviéticos e das feministas (há um tenso mas divertido bate-boca de Norman Mailer com Germaine Greer, Diana Trilling e Sontag, em 1971), os arranca-rabos de Mailer com Gore Vidal e Edmund Wilson com Nabokov, as grandes reportagens de Joan Didion (uma delas provocou uma reviravolta no julgamento de cinco jovens negros acusados de estuprar e matar uma mulher branca no Central Park), Mary McCarthy (no Vietnã) e Sontag (Sarajevo), as invectivas de Noam Chomsky sobre o império americano, as denúncias de tortura em Abu Ghraib feitas por Mark Danner.

Um saldo e tanto. Ter a coleção completa da Review já foi um dos meus maiores orgulhos na vida. Depois de digitalizada no site da revista, suas edições em papel viraram um trambolho. Melhor assim. A trincheira de Bob Silvers agora é de todos.

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