50 anos de arte em "Caminhos do Contemporâneo"

Nas últimas cinco décadas, a artebrasileira ganhou caráter autônomo e dialogou com o poderconstituído para confirmar suas premissas, como o neoconcretismodos anos 50, ou para negá-las, como a contracultura dos anos 70.Um balanço desse meio século está na mostra Caminhos doContemporâneo: 1952/2002, no Paço da Cidade desde esta quarta-feira,comemorando os 50 anos do Banco Nacional de DesenvolvimentoEconômico e Social (BNDES), patrocinador do evento, orçado em R$1,1 milhão. São 415 peças de 176 artistas, num gigantesco painelque tomará todo o imóvel histórico do centro do Rio. "Procuramos obras emblemáticas, que se tornaramsímbolos dos movimentos surgidos nesse período e outras poucovistas pelo público, da coleção dos próprios artistas ou de acervos poucobadalados", avisa o curador da exposição e diretor do Paço,Lauro Cavalcanti. "É interessante notar rupturas nesses 50 anos, mas não uma queda de qualidade. Cada década tem suascaracterísticas, mas há sempre um destaque que enriquece aprodução como um todo." No texto do catálogo, Cavalcanti lembra ainda que acorrelação entre arte e economia sempre foi delicada,especialmente entre os contemporâneos, que se vêem independentesde influências externas, ao mesmo tempo em que a compra de umapeça significa investimento financeiro, além do prazer estético.No entanto, se o economista assumiu o papel de planejar asociedade, a arte nem sempre seguiu seus preceitos. "Enquanto aeconomia ganhou status de ciência, a arte contemporânea buscouum território autônomo", ensina ele. A exposição, organizada por décadas e em ordemcronológica inversa, leva o visitante do presente às origens doque está vendo. Alguns artistas, hoje conhecidos do grandepúblico, estão nas décadas em que seus trabalhos começaram a terprojeção. Assim, Tunga, Waltércio Caldas e Daniel Senise estãonos anos 80, enquanto Vik Muniz, Ernesto Netto e Elizabeth Jobimforam para os 90. Franz Krajberg, Hélio Oiticica e Lygia Clarkrepresentam a década de 70 e Vergara, Claudio Tozzi MariaLeontina e Tomie Othtake, os 60. Outros, por atravessaremprodutivamente as cinco décadas, entram com obras em todaselas. Segundo Cavalcanti, os Caminhos do Contemporâneo são, na verdade, duas exposições, uma de obras de arte e outra comfilmes, fotos e músicas que dão o contexto desses 50 anos. Assim, o público saberá os fatos que cercaram o surgimento demovimentos importantes nas artes plásticas. Um dessesacontecimentos pode ser a primeira Bienal de São Paulo, em 1951,cujo cartaz estará na mostra, ou a visita de Che Guevara aoBrasil, a convite do presidente Jânio Quadros, em 1961, documentada numfilme feito por Antônio Maluf, que será exibido. Essa correlação estáem documentos importantes, como o panfleto de convocação docomício de 13 de março de 1964, que precipitou o golpe militar,ou mesmo nos cartazes de filmes comerciais produzidos nesseperíodo. Para o presidente do BNDES, Eleazar de Carvalho, aexposição resulta também do apoio da instituição à cultura."Esse investimento é propulsor do desenvolvimentosocioeconômico, pois arte e cultura impulsionam o avançosocial", diz ele. Por isso, a mostra do Paço da Cidade dialogacom a montada na sede do banco, há duas semanas. "Enquanto estafala da vida do cidadão e a influência da instituição no seucotidiano, a outra pega o veio artístico, mostra que houve umatroca, embora bem menos evidente em alguns momentos", explica asuperintendente de Cultura e Patrocínio, Elizabeth São Paulo."Nos anos 50, há coincidência entre o pensamentodesenvolvimentista do governo e o neoconcretismo, mas nem sempreo artista acompanha tão de perto a economia." Caminhos do Contemporâneo fica no Rio até outubro edepois vai para a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Faz parteda trilogia iniciada em 1999, com a Mostra doRedescobrimento, com peças de 1500 até o início do séculopassado. Em 2000, foi realizada a mostra Quando o Brasil EraModerno, com a produção da primeira metade do século 20. E,agora, o foco é o período mais recente. As três exposições forampatrocinadas pelo BNDES. "Até se ventilou a idéia de o bancoter seu centro cultural no centro da cidade, como outrasinstituições", lembra Elizabeth. "Concluímos ser maisproveitoso usar o Paço, reformado com nosso patrocínio, e usar odinheiro em outras atividades culturais."

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