Alexandre Durão/AE
Alexandre Durão/AE

40 anos depois, tinindo

Ao lado de Davi Moraes, seu filho, Moraes Moreira relê os 9 clássicos de Acabou Chorare

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2011 | 00h00

Só, somente só, um único sobrevivente dos Novos Baianos passeou pelas nove faixas de Acabou Chorare, o disco-símbolo do grupo, "seu momento de plenitude", num show promovido pelo Instituto Moreira Salles, no Rio, terça-feira à noite. Era Moraes Moreira, o mesmo que há quatro anos lançou Histórias dos Novos Baianos e Outros Versos (Língua Geral), livro em que conta a trajetória dos malucos beleza em versos de cordel.

Não, ele não estava só. Levou o filho virtuoso, o guitarrista Davi Moraes, que nasceu no sítio de Jacarepaguá quase junto com as canções até hoje frescas, ainda que eternizadas: Brasil Pandeiro (feita por Assis Valente em 1940, para Carmen Miranda, e recuperada pelos Novos Baianos por sugestão de João Gilberto), Preta, Pretinha, Tinindo, Trincando, Swing de Campo Grande, Acabou Chorare, Mistério do Planeta, A Menina Dança, Besta É Tu e a instrumental Um Bilhete Para Didi. Moraes é coautor de todas as faixas, com Galvão, Paulinho Boca de Cantor e Pepeu Gomes.

Cara de menino, Davi faz 40 anos em 2013; o LP chega à marca em 2012. Cultuado tanto pela geração do pai quanto pela do filho, e também pela subsequente, o disco volta e meia é incluído nas listas dos melhores do século 20. "É incrível como as músicas estão vivas e não ficaram datadas. Eu vejo a meninada de 14, 17 anos cantando as letras inteiras. Fui cantar em Garanhuns (no interior de Pernambuco) às 2 da manhã, chovendo, pensando "não vai aparecer ninguém", e foi começar Mistério do Planeta e eles continuarem", dizia Moraes, findo o show.

De faixa etária variada, o público, que esgotara em duas horas os limitados ingressos (o auditório do centro cultural do Rio só tem 130 lugares; o palquinho, no máximo 15 metros quadrados), cantarolou baixinho por uma hora. "Tudo de novo!", alguém gritou, e conseguiu um bis curtinho, com Pombo Correio e Festa do interior.

Davi sorria. Tem muito prazer em tocar e cantar o repertório com o qual convive desde a placenta. "Foram com esses mestres que eu aprendi a gostar de música. Estou sempre fazendo show com meu pai, refazendo essas músicas", contava o músico, que está lançando o terceiro disco e acompanha atualmente Adriana Calcanhotto.

Ele se divertia junto com a plateia ao ouvir recontados os episódios de paz-amor-música-maconha-futebol de Moraes. "Fui o primeiro a sair do grupo, foi muito difícil. Tinha Davi e Ciça para criar, e no sítio nunca tinha dinheiro. Guardava leite para os meninos na geladeira e de noite, no meio da larica, os malucos pegavam para fazer mingau".

Ele falou também de João Gilberto, "produtor espiritual" do LP, que o chamava de "vaqueiro do som" e lhe permitia o roubo de acordes a cada audição.

Foi o pai da bossa nova quem vislumbrou a necessidade de a turma maneirar na guitarra e cantar mais o Brasil, a começar por Assis Valente, como está bem explicado em Filhos de João, o Admirável Mundo Novo Baiano, documentário de Henrique Dantas, nos cinemas. "João disse que ia nos visitar no apartamento de Botafogo (comunidade de antes do sítio) e a gente varria o chão todo dia, esperando que chegasse. Achava que se tivesse sujeira nos cantinhos ele não iria."

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