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Amy Courvoisier trouxe filmes fundamentais, num turbilhão contínuo de projeções

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

12 de fevereiro de 2022 | 03h00

Quem escrever a história do Cinema Novo não poderá deixar de fora a figura de um búlgaro, com outras duas nacionalidades (francesa e venezuelana), chamado Amy Courvoisier. Jornalista, poeta e escritor, foi o representante da Unifrance Film no Brasil de 1960 a não sei quando exatamente. Sei, contudo, o quanto ele fez pela divulgação do moderno cinema francês entre nós e por nossa educação cinematográfica - e é isso que importa. 

Ao auditório da Maison de France, no Rio, Amy trouxe filmes fundamentais, diretores e atores, num turbilhão contínuo de projeções, coquetéis e entrevistas coletivas. Graças a ele, pudemos assistir aos iniciáticos exercícios na mise-en-scène dos cineastas da Nouvelle Vague, antes mesmo da chegada de seus primeiros longas ao nosso circuito comercial. Uma vez por ano, ele também nos brindava com uma mostra de filmes publicitários franceses de alto nível.

Vez por outra me lembro de sua figura avuncular, sempre afável e sorridente, ora despertada por uma foto, ora por um recorte de jornal ou, como agora, por uma efeméride; no caso, os 90 anos de François Truffaut, festejados nas redes sociais, domingo passado, ainda com uma ponta de “amertume” por ele nos ter deixado tão cedo - por coincidência no mesmo ano em que Amy, já então de volta a Paris, também se foi.

Quantas alegrias mais Truffaut nos poderia ter proporcionado se não tivesse morrido com apenas 52 anos? Abel Gance tinha 82 quando filmou pela última vez, Stanley Donen trabalhou até os 79, Kurosawa até os 83, e o português Manoel de Oliveira, recordista na longevidade, até os 104. 

A morte de Truffaut não me pegou de surpresa. Já o sabia condenado por um tumor cerebral, desde que meu amigo Walter Salles voltara de uma entrevista com Chagall para a TV, em 1983. Hospedado no legendário La Colombe d’Or, em Saint-Paul-de-Vence, Salles inteirou-se do precário estado de saúde de Truffaut através de um dos proprietários do hotel, o ator Yves Montand, que lá manteve Truffaut a salvo do assédio da imprensa. 

Agora, um flashback: na primeira semana de abril de 1962, Amy anunciou a vinda de Truffaut ao Rio, com a cópia de Jules et Jim que levara ao Festival de Mar del Plata. Viagem curta, durante a qual David Neves e eu fomos incumbidos de mostrar a cidade ao visitante ilustre. Simpático, muito tímido, o que dele mais me marcou foi a brutal enxaqueca que retardou por uma hora seu encontro com jornalistas. 

Da impaciência dos jornalistas Amy deu conta, deixando para mim a honrosa tarefa de paparicar o cineasta, na Unifrance. Aquela cefaleia de Truffaut foi a primeira coisa que me veio à cabeça ao saber da história do tumor. “Et pour cause”, diria um francês.

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