35 anos para as revistas chegarem

-Loyola?

, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2010 | 00h00

Virei-me, dei com uma senhora sorridente, ar tranquilo.

? Sim.

? Desculpe-me, sou Ivone Parra, uma professora. Vi o senhor, quis matar uma curiosidade antiga. Completou sua coleção de Mistério Magazine?

? Minha coleção? Puxa, faz tanto tempo. Como sabe da coleção?

? Eu lia o Shopping News aos domingos e um dia, na sua crônica, você contou que faltavam três números para fechar a coleção.

Meu Deus! Escrevi no Shopping nos anos 70. A vida ata um nó aqui e desata ali, não importa quanto tempo depois. Em algum momento o nó desaparece. E nem é um nó górdio que precise ser desatado com a espada de general. Quem não souber o que é nó górdio, recorra às enciclopédias ou ao Google, responsável por todas as pesquisas. Acabaram-se aqueles momentos de entrar em uma biblioteca, pedir um livro, copiar referências, encontrar pistas, pedir outro livro e ir encadeando o assunto até montar um estudo que afinal revelava um talento, o de investigador. Foram os prazeres da investigação e da dedução que me levaram, 40 anos atrás, a comprar a revista Mistério Magazine de Ellery Queen. Mensal, editada pela Globo de Porto Alegre, tinha o formato 13 cm x 19 cm e vinha em lombada canoa. Para quem não conhece o termo, gráfico significa revista grampeada ao meio.

Por anos fui lendo e amontoando as revistinhas no armário. Não era para se ler e jogar fora, havia ótimos contos policiais, de vez em quando eu relia, para reencontrar Michael Gilbert, Ed McBain, J.J. Marric, Nicholas Freeling Edward D. Hoch, James Powell, John Pierce e também, vejam só, até O. Henry. Uma vez encontrei uma história de R.L. Stevenson e fiquei alvoroçado, mas não era o mesmo autor de A Ilha do Tesouro, um dos maiores livros de minha infância, que se rivalizava com Alice no País das Maravilhas. Aliás, Alice voltou à moda e aconselho a edição da Cosac Naif, traduzida pelo Nicolau Svecenko, brilhante.

Ao mudar-me de casa, certa vez, vi que tinha três caixas de Mistério Magazine, todas em perfeito estado. Coloquei-as numa estante. Era uma coisa muito querida, ainda que bastante mal traduzida, às vezes. Fechei vários anos sem faltar um só número. E me bateu a ideia de colecionar. Descobri que a revista tinha nascido no fim dos anos 40. Como localizar todos os exemplares atrasados, se estávamos em meados dos 70? Mas quem lê Mistério Magazine é um investigador também. Comecei a percorrer sebos de livros, mas não era por aí. Então percorri os sebos de revistas nas imediações da Sé. Um deles, o Santa Luzia, foi meu principal municiador. Havia muitas bancas pelo Centro Velho e os donos foram meus parceiros.

Muitas vezes ligavam: "Chegou outra." Estava do outro lado da cidade, mas voava. O mais prazeroso é que me vendiam por preços normais, nada daquela exploração: é um colecionador, ele quer, precisa, vai pagar quanto eu pedir. Bem, não é que o Mistério Magazine também fosse tão procurado ou precioso. Quando encontrei o número 1, se não me engano de 1949, exultei, tomei um vinho caro naquela noite, com o exemplar na mão. Doces tolices.

De repente, a busca empacou. Faltavam três exemplares e eu não mais os encontrava, o tempo passando. Os números eram o 220, o 273 e o 282, dos anos 60 e 70. Busquei, busquei, nada. Meses se passaram, talvez um ano. Na época, passei a escrever crônicas para o Shopping News, jornal que não existe mais, entregue gratuitamente aos domingos. Teve grandes jornalistas como editores, até desaparecer. Minha crônica tinha um título, São Paulo S/A, o mesmo do filme de Luis Sérgio Person, cineasta e amigo, que colocava a cidade de São Paulo no cinema, da mesma forma que faço na crônica. Era uma espécie de homenagem. Person morreu cedíssimo, aos 38 anos, perda irreparável para o cinema. Fiz uma crônica falando de minha coleção e de meus três vazios e ficou por isso.

Mistério Magazine deixou de ser publicado pela Globo do Rio Grande do Sul. Houve ume retomada pela Editora Três de São Paulo, mas logo acabou. Comecei a encadernar minhas revistas na Livraria Nobel, em frente da Biblioteca, mas de repente a Nobel fechou a encadernadora. Arranjei em Araraquara um técnico que me fez o serviço por anos, até desaparecer do mercado o couro vermelho que dava um ar "policialesco" à coleção. Fiquei com um monte de exemplares sem encadernar, não quis usar couro diferente.

Duas semanas atrás, estou com Pedro, Lucas e Felipe na livraria Cultura da Paulista, que sempre foi um reduto meu e agora está sendo dos netos. Feitas as escolhas, estava na caixa pagando os livros de gnomos, duendes, peixes de rio e outros, quando me bateram nas costas delicadamente. Virei-me e dei com Ivone. De repente, 35 anos depois alguém se lembra das revistas que me faltaram. Ivone:

? O senhor conseguiu completar?

? Não.

? Conseguiu sim. Tenho os três números, guardei para o senhor. Por que não o procurei? Talvez timidez, ou não querendo invadir sua privacidade, não sei. Pensava que um dia nos encontraríamos, eu entregaria. Chegou o dia.

Foi como um relâmpago na tarde. Não é bonita a humanidade? Esta vida não é cheia de momentos que nos reconciliam com tudo? Os três velhos exemplares, bem conservados do Mistério Magazine estão sobre minha mesa, chegaram por Sedex. Gente como Ivone existe e aos montes, acreditemos. Quanto ao tempo, o que ele significa?

P.S.: Acabo de descobrir que o Shopping News voltou à ativa há poucos anos.

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