Sérgio Almeida/Divulgação
Sérgio Almeida/Divulgação

30 anos em movimento

Ednardo volta a São Paulo depois de nove anos para lançar livro e CD duplo que marcam as três décadas da Massafeira

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

Há nove anos Ednardo está ausente dos palcos de São Paulo. Autor de clássicos como Terral, Pavão Mysteriozo, Enquanto Engoma a Calça, Carneiro e A Manga Rosa, ele faz show único hoje no Sesc Belenzinho, com essas e outras canções do mesmo período, dentro do projeto Arquivo. É a oportunidade para trazer ao público paulistano parte da história de um movimento importante para a música cearense, do qual ele fez parte na virada da década de 1970 para a de 80: Masssafeira.

Ednardo organizou em livro um significativo acervo de reportagens, entrevistas, ensaios, análises, fotos, desenhos e outros registros que formam um amplo painel sobre o movimento. Acompanha o livro um CD duplo, réplica quase integral do LP (também duplo) lançado em 1980. Só falta a canção Frio da Serra (Petrúcio Maia/Brandão), que ele cantava com Fagner e Marta Lopes, "por exigência exclusiva" da herdeira de Petrúcio, que chegou a solicitar "valor absurdo" para a liberar a gravação.

Ednardo, Fagner e Belchior já estavam bem encaminhados nas carreiras individuais quando participaram da Massafeira. Mas o movimento, que foi reprimido pela ditadura militar, considerado "subversivo", deu certa visibilidade para artistas locais, novos e veteranos de várias modalidades artísticas além da música. É o caso do poeta Patativa do Assaré, que Fagner levou para gravar discos quando se tornou diretor artístico da gravadora CBS (hoje Sony).

Só que Ednardo e Fagner - como fica claro em entrevistas publicadas no livro - divergem sobre a importância do movimento, uma espécie de Tropicália cearense, que foi lançado com um grande show no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, em 1979. Fagner acha que é "engordar um pouco o caldo da Massafeira" atribuir àquele encontro sua escalada para o sucesso.

"Não existiu movimento. Só nós que fizemos essa história: Belchior, Ednardo e eu. Muito antes da Massafeira", disse, tomando como exemplo outros nomes que foram lançados ali, mas não decolaram, como Stélio Valle, Mona Gadelha, Lúcio Ricardo, Ângela Linhares, Vicente Lopes e vários outros. Rodger e Teti gravaram um belo disco com Ednardo (que tinha Terral) e ficaram conhecidos como o Pessoal do Ceará por isso.

Alguns desses artistas, segundo Ednardo, moram em Fortaleza, onde "continuam realizando seus trabalhos artísticos", outros "foram pelo mundo", alguns "já se foram para outros planos, mas seus trabalhos artísticos são perenes e merecem permanecer", diz Ednardo. O próprio Fagner fez sucesso com canções de vários integrantes do movimento.

Segundo Ednardo, a importância dos artistas e pensadores que fizeram a Massafeira não se mede por "sucessos discográficos em gravadoras". Um dos motivos principais da Massafeira foi justamente não "rezar pela cartilha" de gravadoras e meios de comunicações. "Abrimos de forma libertária e sem apoio logístico na época, uma possibilidade muito grande, para diversas tendências e formas de expressões. É desta forma que Massafeira foi e até hoje é, um manancial abraçado por novas gerações."

Longe de ser pretensioso, para ele "é uma realidade seminal". "Esse movimento apresentou frutos em várias regiões do Brasil, foi através da Massafeira que vários outros movimentos se assemelharam e se espelharam, como no Cio da Terra, em Caxias do Sul / RS (1982), no Festival de Artes do Forte em Natal / RN (1980), e outros que se destacaram nacionalmente e no exterior nas áreas de cinema, artes plásticas, músicas, letras, poesias, etc", lembra Ednardo.

Como exemplo desse resultado ele cita Patativa do Assaré, Rosemberg Cariry, Siegbert Franklin, Sérgio Pinheiro, entre outros de "uma lista grande que já está explícita no livro". "A ressonância nacional acompanhou de forma comedida, mesmo com iniciais matérias nos principais jornais e revistas e TVs brasileiras, mas para a gravadora naquela época, era como se os discos e o movimento não existissem. Mas a força da Massafeira está aqui, mais de 30 anos depois."

Boicote. Montado no massivo sucesso de Noturno (tema da novela Coração Alado), na época, Fagner produziu outro disco, Soro, que unia música e poesia, e teve pelo menos um grande êxito executado nas rádios, Aguapé, que ele gravou com Belchior. A predileção por Soro acabou ofuscando o lançamento do LP duplo da Massafeira, que se tornou símbolo de resistência.

"Foi utilização de um cargo em uma gravadora em proveito próprio", aponta Ednardo. "O represamento proposital do lançamento dos discos Massafeira foi criticado veementemente por muitos que participaram do movimento, ao saberem dos falsos motivos alegados da direção artística na época da CBS que daria prejuízo à gravadora."

O álbum duplo só foi lançado, segundo Ednardo, quando disponibilizou grande parte da verba de divulgação de seu disco Imã (1980) para que o outro fosse prensado. Mesmo assim saiu como "queima de estoque logo no lançamento". A bela capa com desenho de Brandão, saiu com um adesivo de oferta: "2 LP"s pelo preço de 1, Cr$ 600,00".

Ednardo conta que tem feito músicas e shows por várias cidades brasileiras, produz, por meio de seu selo e editora, CDs com trilhas musicais para cinema, shows. Ele também tem um vasto material de vídeo "que deverá gerar DVDs no tempo certo, com registros que envolvem mais de 30 anos de atividades artísticas."

MASSAFEIRA 30 ANOS

Aura Edições Musicais, 312 págs., acompanha CD duplo. R$ 100

Show de lançamento hoje às 21 h, no Sesc Belenzinho. R$ 32.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.