J.F. Diorio|Estadão
J.F. Diorio|Estadão

30 anos de 'Caderno 2': Verissimo, Werneck, Loyola e Rubens Paiva falam sobre o ofício da crônica

Os escritores relembram suas primeiras crônicas e leem trechos; veja também quem já passou pelo 'Caderno 2' ao longo da história

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2016 | 04h00

Foi com Nélida Piñon que Ignácio de Loyola Brandão aprendeu a usar uma roupa nova ao começar um romance, ou um artigo importante. “Ela quer ser digna do texto que vai escrever. Achei isso muito bonito”, conta. E assim começa sua primeira crônica para o Caderno 2: “Vesti roupa nova antes de me sentar e escrever este texto. É bom. Uma roupa simples, confortável”. O autor de Zero e Não Verás País Nenhum já era cronista do Estado desde setembro de 1993, mas em Cidades. Em 22 de dezembro de 2000, com Tantas Boas Festas. Quantas de Coração?, ele passaria a ocupar o espaço que mantém até hoje, às sextas-feiras. Quase metade do tempo de vida do Caderno 2, que celebra, nesta quarta-feira, 6, 30 anos. Há mais tempo que ele, só Luis Fernando Verissimo, que chegou em 1989. Na grade de cronistas, ainda, Milton Hatoum, Vanessa Barbara, Humberto Werneck, Marcelo Rubens Paiva, Sérgio Augusto, Lúcia Guimarães, Roberto DaMatta e Fábio Porchat.

A crônica é um gênero que me agrada muito porque, como gosto muito dessa cidade, vou recortando trechos dela, vou fotografando pequenos personagens. Os anônimos me interessam. Gente que encontro nas ruas, nos bares e, principalmente, na padaria da minha rua e com as quais eu converso. É essa gente que me dá os temas de tudo”, diz. E completa: “E o tema, evidente, é a situação da cidade, do País. Sou eu documentando de que maneira estamos vivendo, como é essa política, essa coisa que nos afaga, nos abafa ou nos sufoca. No fundo, o cronista é um filtro de tudo o que estamos vendo”.

Verissimo estreou na capa do caderno no dia 30 de julho de 1989, um domingo. Sua crônica, de página inteira e ilustrada pelo próprio escritor, chama-se Os Outros. “Confesso que não me lembrava dela. Inventei uma lista de candidatos fictícios ao governo brasileiro”, conta. Meses depois, Fernando Collor de Mello seria eleito presidente. Jailton Ouro Velho, por exemplo, era liberal e defendia a privatização do governo e sua venda para uma multinacional. Assim termina seu perfil: “Jailton defende a tese do aborto retroativo: dependendo de como a criança se sair como adulto, o aborto é permitido ou não. A tese, estranhamente, tem o apoio entusiástico da sua mãe”. 

O escritor gaúcho segue publicando suas crônicas precisas, com humor requintado, aos domingos – quando a charge da Família Brasil, um retrato da classe média, a acompanha. Às quintas, o leitor também encontra seus textos no caderno. Sobre o que mudou no fazer do cronista, ele diz: “Quando leio algo que fiz anos atrás, inclusive essa crônica, me surpreendo com o volume que a gente escrevia. Não sei se fiquei mais preguiçoso ou conciso”.

O mineiro Humberto Werneck seguiu os passos de Ignácio de Loyola Brandão. Começou em Cidades em 2010 e, em abril de 2013, já estava no Caderno 2. O anúncio da mudança o pegou de surpresa, durante férias em Paris, e a cidade, mais precisamente um restaurante que não tinha uma comida muito boa, mas que o remetia a Hemingway e Fitzgerald, foi tema de seu texto de estreia no novo espaço. 

Werneck, que é jornalista e escritor, comenta a antiga discussão sobre em qual gênero a crônica se encaixa. “O cronista é o contrário do jornalista: ele é pessoal e subjetivo”. Para ele, crônica é literatura – gostem os críticos ou não. “Eles acham que é uma coisa superficial. É falta de ler Rubem Braga.” 

E vai além. “A crônica é uma janelinha simpática, uma espécie de contramão no noticiário do jornal que, em geral, é pesado e triste. Quero que ela seja uma lufada de algo diferente no outro sentido. É isso o que eu busco e é por essa razão que evito comentar fatos da atualidade.”

Marcelo Rubens Paiva estreou no Estado em 2004 com o texto Na sala de aula com Condoleezza. Ele falava sobre o dia em que fora expulso da sala de aula de Condoleezza Rice, que anos depois viria a ser secretária de Estado de Bush, na Universidade de Stanford, e sobre outras coisas mais. “Procuro fazer hard news, mas lembrando que a crônica é algo que fica para sempre. Essa crônica é um hard news: falo de Columbine, de Condoleezza, da Guerra do Iraque, mas como um pano de fundo. Ela é sobre a dinâmica dentro de uma sala de aula numa faculdade americana. O que me interessa é falar da notícia por trás, mas falar do humano.”

Rubens Paiva, autor de Feliz Ano Velho e de Ainda Estou Aqui, entre outras obras, tem uma atitude mais eclética com relação ao que cabe em sua coluna. “Às vezes, vou para ficção e acho que todo cronista que se preze deve fazer do seu espaço um espaço de invenção – e o Verissimo, nosso grande mestre inspirador, faz muito isso. Às vezes, vou para o jornalismo mais puro, dando uma informação. Ou faço uma análise da conjuntura, um olhar de alguém que está distante do hard news, mas que observa com uma bagagem política anterior.”

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