Fabio Motta|Estadão
Fabio Motta|Estadão

30 anos de 'Caderno 2': Publicação tem refletido o Brasil e o mundo

Caderno está sempre de olho em tendências e na transformações culturais

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

06 de abril de 2016 | 03h00

Em 1963, o francês Louis Malle adaptou o romance cult de Drieu de La Rochelle Le Feu Follet e fez um filme que, no Brasil, se chamou Trinta Anos Esta Noite. Corrigindo Malle - 30 Anos Esta Manhã. Pois, foi na manhã de domingo, 6 de abril de 1986, encartado na volumosa edição do Estado, que os leitores, finalmente, encontraram o primeiro exemplar do Caderno 2. Há tempos, a promessa de um caderno do Estado inteiramente voltado à cultura vinha alimentando as fofocas paulistanas e o C2 nascia como um projeto arrojado, tanto de marketing como cultural, lembra o primeiro editor do caderno, Luiz Fernando Emediato. Embutido nele, estava a intenção explícita de restaurar a importância dos colunistas, uma tradição que o C2 mantém hoje.

A primeira capa, assinada pela repórter especial Regina Echeverría, estampava a novidade: “Eles vão invadir sua TV”. Eles já eram duas instituições, e não apenas da MPB - Chico Buarque de Hollanda e Caetano Veloso. E, dentro, a entrevista esclarecia: “Cenas da próxima estação”. Chico e Caetano iam apresentar um programa na Globo com as músicas que não tocavam nas rádios e prometendo trazer gente nova, de todo o Brasil e da América Latina. Ambos reclamavam da censura da Nova República e criticavam o então ministro da Cultura, Celso Furtado. O Caderno 2 nascia crítico, novo, ágil, como o jornal vinha anunciando. Sem escândalos nem sensacionalismos, bonito e leve, mas austero e responsável como o secular Estado.

Três décadas e vários editores depois, consolidado como projeto de marketing e editorial, o Caderno sopra as velinhas de seu aniversário e vê que os mesmos personagens da sua histórica primeira capa continuam atuantes - e polêmicos - na vida artística e política brasileira. 

Ao longo desses 30 anos, Chico somou uma nova faceta à sua paleta de criador e firmou-se como grande escritor. Anda muito ativo, e tem ouvido - nas ruas e nas redes sociais - muito desaforo por sua rejeição ao impeachment. Curiosidade - uma das capas experimentais do C2, as chamadas capas zero, para esquentar a equipe e atrair publicidade para o projeto, trazia estampado o roqueiro Lobão e ele acaba de ser assunto novamente, reclamando da vida porque suas posições (pró-impeachment) o marginalizam perante a classe artística e ele não consegue mais fazer shows.

São 30 anos de histórias - de discos, livros, filmes, peças, exposições e programas de televisão. São 30 anos de reflexão sobre a cultura e seus agentes. Nas páginas do Caderno 2, o leitor viu o cinema brasileiro ser varrido do mapa (no governo de Fernando Collor de Mello) para ressurgir. A chamada ‘Retomada’ começou com os curtas, mais baratos (e fáceis) de fazer. Em 1995, a atriz Carla Camurati, transformada em diretora, fez Carlota Joaquina - Princesa do Brazil. Colocou a cópia do filme debaixo do braço e saiu pelo País usando seu prestígio para vender o ‘produto’. Carlota Joaquina fez mais de 1 milhão de espectadores e recolocou o cinema brasileiro no mapa.

Tudo foi acompanhado ao longo dessas três décadas prodigiosas. A revolução do rock e os grandes shows que colocaram o Brasil na rota dos maiores artistas. As crises e a institucionalização da Bienal de São Paulo. As feiras de literatura e os festivais de teatro que abriram os palcos e hoje acolhem os maiores encenadores do mundo - Bob Wilson, Peter Brook. Em Cannes/2000, o maior dos festivais promoveu um seminário para discutir novas tecnologias. Foi profético - palmas (e a Palma) para Dançando no Escuro, de Lars Von Trier, com Bjork. Desde então, e em apenas 16 anos, os filmes e os sistemas de exibição digitalizaram-se. De certa forma foi - está sendo - uma (r)evolução maior que a que marcou os primeiros 100 anos do cinema, desde 1895 (quando o Estado já existia).

Estrangeiro no próprio mercado, o cinema brasileiro tem ganhado público. E prêmios. Walter Salles e Fernanda Montenegro foram premiados em Berlim e concorreram ao Oscar. Em 2007, Tropa de Elite, de José Padilha, virou um fenômeno - antes mesmo da estreia, cópias do filme já podiam ser encontradas nas barracas dos marreteiros. Houve um amplo debate sobre a questão da segurança no País - e a pirataria. No ano seguinte, Tropa venceu o Urso de Ouro em Berlim e o presidente do júri, o cineasta Costa-Gavras, disse no Caderno 2 que o tema da segurança era seminal na atualidade - os ataques do terror só têm confirmado isso. Em 2010, Tropa de Elite 2 bateu o recorde histórico de Dona Flor e Seus Dois Maridos e se converteu na maior bilheteria do cinema brasileiro. Enquanto isso, no interior de Minas, crescia a Mostra de Tiradentes, que é hoje a grande vitrine do novo cinema autoral brasileiro. Uma coisa não exclui a outra. Trinta anos esta manhã. Um novo festival de música, Tomorrowland, avizinha-se. O C2 estará lá. Onde houver cultura, onde houver paixão. Sempre. 

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