Fabio Motta|Estadão
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30 anos de 'Caderno 2': 'Nossa cultura passou por sol e chuva antes de chegar à tempestade'

O tempo avançou e a indústria fonográfica acabou se adaptando

Cadão Volpato, ESPECIAL PARA O ESTADO

06 de abril de 2016 | 03h00

Do ponto de vista de uma pessoa que esteve envolvida com o assunto nos últimos 30 anos, a cultura brasileira, assim como tudo mais no nosso País, passou por sol e chuva antes de chegar à tempestade. Ao olhar para esses 30 anos percorridos, penso naquela cena de O Passageiro – Profissão Repórter, de Michelangelo Antonioni, em que Maria Schneider e Jack Nicholson estão numa estrada a bordo de um conversível e ela pergunta: “Do que você está fugindo?”. E ele simplesmente manda ela olhar para trás. O que vemos são as árvores se distanciando, e a poeira da estrada.

Do ponto de vista de uma pessoa que escreveu livros (oito), teve uma banda (Fellini, que de vez em quando ainda existe, aos 32 anos), e editou (entre tantas outras) uma revista de cinema (a SET), essas três décadas foram anos incríveis, fizesse chuva ou sol. 

Minha banda nasceu em 1984. Nossos companheiros de viagem eram a Legião Urbana, os Titãs, os Paralamas e a Blitz. Desses todos, o Fellini era o único independente. Ainda assim, sem uma grande gravadora, lançamos quatro discos em vinil e outros três em CD. Chegamos a ser capa do Caderno 2! 

O tempo passou, e a indústria fonográfica acabou se adaptando ao Fellini: hoje, o que você mais vê são artistas independentes (do sucesso, inclusive). Qualquer um pode gravar e lançar numa plataforma da internet. A internet foi a grande revolução dos últimos 30 anos.

Em 1984, estreava Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho, o melhor filme brasileiro dos últimos 30 e tantos anos. O cinema brasileiro não aprendeu nada com ele. O que veio a seguir, os sucessos pontuais de Central do Brasil (1998), de Walter Salles, Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, Carandiru (2003), de Hector Babenco, Dois Filhos de Francisco (2005), de Breno Silveira, e Tropa de Elite (2007), de José Padilha, não chegaram aos pés de Cabra. Por quê? Basta ver qual deles ainda fala ao coração dos tempos conflagrados que vivemos hoje. Os últimos anos de cinema brasileiro não foram nada engraçados, apesar da tonelada de comédias que foram produzidas para milhões. A maioria tem o padrão Globo Filmes de qualidade, o que equivale à matéria plástica. Acho que é hora de mudar. 

Como escritor, recebi uma bolsa do programa Petrobras Cultural, que, no meio do caminho, recorreu à lei Rouanet. Não tenho do que reclamar. Graças a ela pude escrever em paz o livro Relógio sem Sol (2009). Mas as leis de incentivo são kafkianas em seus meandros e labirintos. Elas criaram a figura do especialista, um mago burocrata capaz de compreender a lei e convencer os departamentos de marketing das empresas a soltar a grana (abatida no imposto de renda, naturalmente). 

Parece ficção, mas a literatura brasileira, aos trancos e barrancos, só fez crescer nos últimos 30 anos. Quando publiquei meu primeiro livro, Ronda Noturna, em 1995, minha única baliza nacional eram os contos de Aberração, do Bernardo Carvalho, lançado um ou dois anos antes. Muitos outros escritores apareceram depois desse rompante dos anos 1990. Hoje, não somos mais um clube. Somos cidadãos respeitáveis que frequentam festas literárias e escrevem o que bem entendem. Certo que ainda não apareceu a obra-prima do nosso tempo – aquele romance que daria conta de tudo o que o Brasil está vivendo. Quem sabe, depois da tormenta, um de nós não se ilumine? Desde que não derreta, tudo ficará bem, porque a experiência tem me ensinado que não é só Deus que escreve certo por linhas tortas.

* CADÃO VOLPATO É ESCRITOR, MÚSICO E JORNALISTA, AUTOR DO ROMANCE ‘PESSOAS QUE PASSAM PELOS SONHOS’ (COSAC NAIFY, 2013)

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