27.ª Bienal de SP abre com grande público

Nas mostras de arte contemporânea e, ainda mais numa exposição como uma Bienal, que atrai grande leva de público e reúne obras das mais diversas, uma das ansiedades dos visitantes é a de querer entender o que realmente está por trás daqueles trabalhos. ´Você é monitora?´, pergunta Jailson Melo à repórter do Estado, logo numa das primeiras obras que fazem parte da 27.ª Bienal de São Paulo, aberta para o público na manhã de sábado. Jailson, de 32 anos, manipulador de fórmulas de cosméticos, estava acompanhado de sua mulher dentro de uma das instalações que mais chamam a atenção do público no piso térreo da mostra: um ambiente meio sinistro, com paredes de papelão, criado pelo suíço Thomas Hirschhorn - dentro dele, fotos de pessoas mortas, violentadas, pregos, livros de filosofia, televisão, ferramentas, uma série de objetos. ´Estou vendo que é uma obra sobre o trabalho porque tem mãos de manequins e ferramentas, mas ela pode significar muito mais´, diz Jailson, ansioso.Não havia filas para entrar no pavilhão da Bienal, mas havia, durante todo o dia, sempre uma fila para visitar a instalação de Hirschhorn. Dois seguranças deixavam entrar apenas grupos de 20 pessoas. ´Desde de manhã está assim e não cabe todo mundo lá´, diz Miguel, um dos funcionários. Dentro também dessa instalação, Ana Lúcia Vieira da Silva, de 41 anos, estava assustada com as fotografias de ´tanta gente esfacelada´. Ela, que nunca tinha ido a uma Bienal, foi levada por suas duas sobrinhas, Daniela Vieira Fernandes, de 20 anos, e Denise, de 13. ´Estávamos no ginásio do Ibirapuera e elas me falaram para virmos. Não é pago não, tia, elas disseram´, completa Ana Lúcia. A gratuidade da entrada para a 27.ª Bienal de São Paulo é uma das maiores qualidades do evento.Tanto Jailson quanto Ana Lúcia estavam entre os 300 visitantes que entraram no pavilhão logo na primeira meia hora de abertura para o público da 27.ª Bienal de São Paulo, que nesta edição tem como tema "Como Viver Junto" e curadoria-geral de Lisette Lagnado. A visitação foi intensa no seu primeiro dia: até 14 horas de sábado, 2 mil pessoas visitaram o pavilhão (o número do fim de semana, porém, não foi divulgado pela Fundação Bienal de São Paulo).Na bela entrada pela parede de vidro nos fundos do prédio no Parque do Ibirapuera, já outra obra chama tanto a atenção dos visitantes: a maquete de uma cidade feita com açúcar do artista Meschac Gaba. Há espectadores que se sentem inseguros e querem muito a ajuda de monitores para saberem sobre as obras, mas há sempre os visitantes que arriscam suas próprias interpretações. No caso da ex-operadora de telemarketing Aparecida da Cruz Prates, de 45 anos, e de sua mãe, d. Maria Teresinha, a cidade de açúcar, vista minuciosamente por elas, inspirou uma bela idéia. ´Deveria ser assim: um mundo completo e sem fronteiras´, disse Aparecida. Como elas contam, aos poucos foram identificando as miniaturas de prédios, construções e monumentos de localidades do planeta inteiro presentes na cidade utópica de Gaba. Torre Eiffel, Taj Mahal, Empire State, ´torres gêmeas´, Aparecida completa, formam o ´mundo completo´ que elas viram. ´Esse prédio do Niemeyer aqui, onde estamos, poderia pertencer ao mundo inteiro, não somente a São Paulo.´ Outra reflexão importante foi a do metalúrgico Ocimar Ferreira da Silva, de 48 anos. ´Gosto de ir às exposições porque vejo que a arte é feita com coisas do dia-a-dia, algumas, até rudimentares. E, assim, ela faz ver o que não conseguimos ver no cotidiano.´Obras interativasÉ certo que sempre são as obras interativas o maior chamariz para o grande público. O espaço da brasileira Laura Lima, logo no térreo, está sempre repleto de gente. Porque lá estão as vestimentas, costumes de vinil feitos pela artista para as pessoas experimentarem. ´É ótimo porque você pode interagir com a arte´, diz a engenheira civil Verônica Mori, de 29 anos, acompanhada de um grupo de amigos. O que mais chamou a atenção de Verônica foi o fato de que os costumes da artista mineira, de perto, são criações estranhas. ´Isso, para mim, era uma peruca, mas pode ser outra coisa, depende da criatividade de quem o experimenta´, diz a engenheira.E por mais que se brade a bandeira do ´não-parque de diversões´, a obra do argentino Tomas Saraceno no vão livre do primeiro piso, formada por três grandes bolas de plástico onde o público pode entrar e escalar, também é uma que exige fila porque muita gente quer experimentá-la - ao lado dessa obra, a árvore de metal do francês Didier Faustino, com faixas de tecidos que se transformam em balanços, atrai muitas crianças. Mas, curiosamente, no primeiro dia de visitação, a obra de Saraceno ficou algumas horas sem poder ser usada - os funcionários que a monitoram tinham saído para almoçar. Depois das 15 horas ela voltou a funcionar - e dentro do espaço da primeira bola de plástico, há também espécies de almofadas onde as pessoas ficam deitadas. ´Queria ir lá para me divertir´, diz a Priscila Aragão, de 15 anos.Antes de ir à obra de Saraceno, a estudante entrou no ´espaço livre´ do grupo argentino Eloisa Cartonera para pintar e produzir livros com capas de papelão comprado de catadores de papel. ´Aqui é um lugar aberto, para pintar, dançar, criar´, diz a artista do grupo, Ramona Leiva. No segundo piso, o enorme quadro-negro colocado pelo artista catalão Antoni Miralda, no qual as pessoas podem escrever e desenhar, também já repleto de participações. ´Esse é legal porque as pessoas podem expressar o que elas acham e o que sentem´, diz Melanie Chapaval, de 10 anos, que estava acompanhada do irmão Ariel e da amiga Tamy Niski.27.ª Bienal de São Paulo. Pavilhão da Bienal. Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 3 do Parque do Ibirapuera. 3.ª a 6.ª, 9 h às 21 h (sáb., dom. e fer., 10 h às 22 h). Grátis. Até 17/12

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