25.ª Bienal define artistas da Cidade Utópica

Os aguardados nomes que vão integrar a 12.ª Cidade da Bienal, conhecida por Cidade Utópica ou Cidade Prometida, foram finalmente revelados pelo curador-geral da exposição, Alfons Hug (veja lista abaixo). A seleção inclui o italiano Armin Linke, o zairense Bodys Isek e as americanas Vanessa Beecroft e Sarah Sze - além das duplas nacionais Isay Weinfeld/Marcio Kogan e Maurício Dias/Walter Riedweg, mais Arthur Omar, que apresenta uma videoinstalação. O tema desta 25.ª Bienal, que será inaugurada em 23 de março, é A Metrópole. Os artistas selecionados para a megaexposição foram divididos em 11 cidades reais (São Paulo, Caracas, Nova York, Johannesburgo, Istambul, Pequim, Tóquio, Sydney, Londres, Berlim e Moscou) mais esta Cidade Utópica, que abriga 12 artistas. Pela seleção apresentada, este módulo corre o risco de ficar parecido com uma Bienal de Arquitetura repleta de imagens de prédios, ao lado de maquetes de papel machê, vidro e mármore. Porém, para Alfons Hug, apesar dos trabalhos cuja base são a arquitetura, o urbanismo e a construção de espaços físicos, as questões levantadas pela 12.ª Cidade vão muito além. "Na verdade, esse módulo é uma tentativa de definição das relações humanas na contemporaneidade", diz o curador. "E esta é a pergunta mais difícil que colocamos. Como o homem vai se relacionar em uma Cidade Utópica?" Hug - que é funcionário de carreira do Instituto Goethe no mundo e curador da Bienal desde outubro do ano passado - confessa ter um carinho especial por esta seção, que ele vê como uma cidade não-hierárquica e democrática, onde o ser urbano pode vislumbrar uma possibilidade de salvação. Esperança - Grande parte dos trabalhos das outras 11 cidades está relacionada à violência e destruição, sobretudo após o atentado ao World Trade Center dois meses atrás. Se nos outros módulos a ruína se faz presente, às vezes de maneira dolorosa, a Cidade Utópica surge como uma esperança, mesmo que um pouco naïf. "Toda metrópole carrega em si o abismo e o vazio. Tudo o que vem acontecendo, nos EUA e no mundo, pode ser visto, alegoricamente, como uma antecipação da cidade condenada", acredita Hug. Questionado se a curadoria da Cidade Utópica não está apenas apontando problemas conhecidos por qualquer cidadão urbano, Hug responde: "Não se pode esperar da arte uma receita. Mas ela desperta sensibilidades e motiva reflexões que, no futuro, podem agir positivamente sobre a sociedade, incluindo aí políticos, arquitetos e urbanistas. Esta é nossa esperança e tudo o que podemos oferecer." "É óbvio que não podemos acabar com a guerra", prossegue ele, "contudo muitas vezes a arte funciona como uma premonição, um último aviso, que todos aqueles responsáveis pelas cidades poderiam considerar." Rede de objetos - Pelo caráter desordenado de suas construções, mas que se apresentam de forma bastante transparente, quase lúdica, o curador aponta o trabalho da artista americana (de origem chinesa) Sarah Sze como um exemplo de "utopia possível" em meio ao mar de lágrimas em que se afoga o homem do século 21. Ela constrói uma rede gigantesca de pequenos objetos domésticos - talheres, panelas, brinquedos porta-retratos, mouses... qualquer coisa que remeta à vida cotidiana. Como trepadeiras, as esculturas flutuantes de Sze vão formar uma trama enorme, espécie de infiltração no prédio da Bienal, ocupando o ambiente de maneira orgânica. Suas construções sobem até o teto, saem por janelas, depois voltam, descendo pela parede até chegar ao espectador. Há um lado precário e instável na fatura de seus trabalhos que tem muito a ver com a arquitetura das maiores metrópoles do mundo. "Sua obra é frágil e tenaz ao mesmo tempo, feita de um material muito delicado, mas que não cai", diz Hug. Século 20 - Alfons Hug aponta outro elemento que terá uma presença marcante na 12.ª Cidade Utópica, em março: o "lugar exótico", a cidade exótica. O italiano Armin Linke, por exemplo, vai trazer para a Bienal imagens de projetos utópicos do século 20, todos levados a cabo: a maior mesquita do mundo; a construção de Brasília; um hotel de Las Vegas erguido numa reprodução idêntica de Veneza; a Represa das Três Gargantas, a maior do planeta, na China; o maior prédio do mundo, na Malásia. Para Armin Linke, a idéia de um espaço utópico - mas também sua impossibilidade - anda de mãos dadas com a megalomania desenvolvimentista. Os trabalhos do artista italiano tratam dessa busca pelo espaço ideal (portanto, utópico) como uma das obsessões do século passado. Só que Linke isola essas fantasias que ganharam vida real (projetos absurdos, como a Veneza de Las Vegas) e, por meio da fotografia, lhes dá um caráter futurista. É um futurismo hoje considerado retrô, como a estética do alemão Fritz Lang em Metrópolis (1926), o primeiro filme de ficção científica da história. Linke arma um jogo de paradoxos. "O Venetian Hotel, de Las Vegas, é uma cópia quase idêntica da Veneza italiana. Tem até gondoleiros. Neste caso, Linke está falando da cidade utópica como uma cópia, um simulacro do real. E os hotéis de Las Vegas são capazes de copiar tudo: Roma, Florença, Paris e até Nova York. A escala usada é sempre de um para dois", conta Hug. Por fim, a cópia se torna mais verdadeira que o original, pois elimina o fator imprevisto, a surpresa e, principalmente, as imperfeições que, nas cidades reais, tornaram-se crônicas ao longo dos séculos. Não foi à toa que Linke também fotografou Brasília, a cidade utópica por excelência do século 20 que, se antes representava o futuro, foi alcançada e devorada pelo atraso, pela cidade velha. Bodys Isek Kingelez, do Congo, é outro artista que trabalha com a ironia e a contradição na metrópole. Usando maquetes de papel machê, ele constrói cidades artificiais, estéreis e assépticas dentro da paisagem africana. "Parecem vilas japonesas, de tão limpas, só que estão em plena África", diz o curador. O alemão Carsten Hoeller, baseado no desenho de uma cidade voadora do construtivista russo Georgii Krutikov, vai apresentar uma maquete feita de vidro. Desta forma, o artista dá continuidade a um projeto utópico do início do século passado. Os vanguardistas russos dos anos 20 foram pródigos na criação desses esquemas, mas quase nenhum deles foi realizado. Maquetes - Outro artista que ocupa a 12.ª Cidade com uma maquete é o japonês Sone Yutaka, que mostra uma pequena reprodução, em mármore maciço, da ilha de Hong Kong. Alfons Hug vê a participação do brasileiro Arthur Omar neste módulo, como um contraponto à supremacia dos trabalhos de arte que giram em torno da arquitetura e do urbanismo. "Ele foi selecionado porque sua obra atravessa a questão das relações humanas no interior das grandes cidades, a questão-chave deste segmento", diz o curador. Para o artista, a idéia da cidade do futuro é algo imaterial e insólito. "Não é um problema arquitetônico, mas uma questão humana e biológica, operando no terreno das relações humanas. Esta é também a tese da minha Antropologia da Face Gloriosa: o êxtase está acontecendo ao mesmo tempo em todas as pessoas", fala Omar. "Encontrar e poder operar na lógica do êxtase é uma forma de utopia", compara o artista, referindo-se a um de seus trabalhos mais célebres, a série de imagens de rostos humanos transtornados, tomadas durante o caos carnavalesco. A lista de Artistas - Armin Linke (Itália), Arthur Omar (Brasil), Bodys Isek Kingelez (Congo), Carsten Hoeller (Alemanha), Huang Yong Ping (China), Isay Weinfeld/Marcio Kogan (Brasil), Lucinda Devlin (EUA), Maurício Dias/Walter Riedweg (Brasil), Robert Cabot (França), Sarah Sze (EUA), Sone Yutaka (Japão), Vanessa Beecroft (EUA).

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