25 anos

Trair e Coçar É Só Começar, de Marcos Caruso, faz aniversário como a mais longeva peça da cena brasileira

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

Dia de estreia. Autor da peça que abria temporada naquela noite, Marcos Caruso preferiu afastar-se do burburinho. Foi sentar no balcão. De lá, viu quando as cortinas se abriram revelando o palco do Teatro Princesa Isabel. Mas não só. O lugar era propício porque o colocava bem diante também da plateia, que logo após o primeiro diálogo já sacolejava às gargalhadas. "As pessoas saltavam da cadeira, pulavam, curvavam-se para frente. Como se estivessem tendo uma convulsão. Visto lá de cima aquilo parecia uma onda varrendo o teatro", conta Caruso.

Já se vão 25 anos desde aquela primeira apresentação, em 26 de março de 1986. O que impressiona, porém, é que ainda hoje pode-se ver a cena se repetir: Trair e Coçar É Só Começar conseguiu a proeza de manter-se em cartaz através dos anos. E o público continua a contorcer-se de rir diante da trama: um emaranhado de enganos e intrigas conduzido pela empregada Olímpia.

A marca é histórica no teatro brasileiro. Não há registro de nenhum outro espetáculo que tenha emendado temporadas ininterruptas por tanto tempo. Um feito que levou a comédia de Caruso a figurar no Livro dos Recordes e que aparece amparado por números bastante eloquentes: mais de 6 milhões de espectadores, 9 mil apresentações, passagem por 22 Estados brasileiros e personagens vividos por 77 intérpretes diferentes.

Recentemente publicado pela editora Saraiva, o texto chama atenção pelo seu ar de despretensão. Ao longo dos anos, muitas foram as teses convocadas para esclarecer as razões desse sucesso. E a história talvez ganhasse laivos ainda mais heroicos se falássemos em um êxito inesperado, se o dramaturgo dissesse que não fazia a menor ideia do que tinha nas mãos. Mas não foi bem assim. "Desde o início, tinha certeza que faria sucesso, sim. O vaudeville é um gênero de teatro que é feito para se rir de 30 em 30 segundos. Ele tem uma carpintaria matemática. Se a cena é bem urdida você não tem como fugir do riso", explica.

Mesmo com tanta convicção sobre o valor de sua obra, Caruso teve que esperar seis anos até que Trair e Coçar saísse da gaveta para ganhar a cena. Quando o País caminhava para a abertura democrática, em 1985, o comediógrafo escreveu, com Jandira Martini, Sua Excelência, O Candidato.

Ao fim de uma temporada bastante popular da peça, o diretor Atílio Riccó perguntou a Caruso se havia um novo texto a ser montado. De novidade, ele não tinha nada. Só uma comédia algo ingênua, tantas vezes rejeitada, e que tinha um nome comprido: Trair e Coçar É Só Começar.

Foi em setembro de 1979 que a peça ficou pronta. Saiu de uma máquina de escrever Remington portátil, "comprada por 50 mil cruzeiros, divididos em três prestações".

Sem conseguir emprego como ator, Caruso decidiu, naquela época, que iria tornar-se autor. Durante três dias e três noites, bateu à máquina com dois dedos até pôr um ponto final na obra cheia de quiproquós, trapaças e armadilhas. "Mas o texto feito para me dar dinheiro, só iria me render alguma coisa muito tempo depois."

Protagonista. Quando se tenta recompor o percurso desse prodígio do teatro nacional, outro dado que convém não esquecer é sua protagonista. Ao entregar a condução das situações de comicidade à empregada Olímpia, Caruso criou uma personagem facilmente reconhecível. "Todo mundo conhece alguém como ela. Ela é um tipo muito brasileiro. Ingênua e com uma relação de tremenda intimidade com os patrões."

Nesses 25 anos, 13 atrizes já se revezaram no posto: Suely Franco, Iara Jamra e Anastácia Custódio são algumas. Além de Adriana Esteves, que protagonizou a versão para o cinema, em 2006. A seu modo, cada uma delas se valeu das próprias características para compor essa heroína às avessas. Algumas mais farsescas, outras mais contidas. "Já tivemos mineiras, cariocas, caipiras", lembra o autor.

Ficou para o público, contudo, o tom que Denise Fraga imprimiu à Olímpia, a partir de 1989. O papel cumpriu a missão de revelar seu talento cômico. E Denise alçou a personagem ao panteão dos grandes da nossa tradição cômica. Vestindo-lhe com as cores da commedia dell"arte.

"Ela trouxe para a peça uma pesquisa muito pessoal. Transformou essa personagem da empregada em um Arlequim. Uma proposta muito própria para o veículo teatro. Era histriônica, escancarada, e, ao mesmo tempo, extremamente humana e sincera."

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