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Ataques antissemitas nos EUA aumentaram 60% entre 2016 e 2017, o mais rápido em 40 anos

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

26 Março 2018 | 03h00

É o número de eleitores republicanos de Illinois que acabam de confirmar um ex-líder do Partido Nazista Americano como candidato a deputado. Não apareceu ninguém no partido para desafiar a candidatura de Arthur Jones, um cabra que nega o Holocausto. 

Os ataques antissemitas nos EUA aumentaram 60% entre 2016 e 2017, o crescimento mais rápido dos últimos 40 anos. Os incidentes vão de cemitérios vandalizados a assalto físico, assassinato e ocorreram nos 50 estados. Cinco homicídios em três estados foram recentemente ligados pela polícia a três membros do grupo neonazista Aftomwaffen Division (Divisão das Armas Nucleares). Jornalistas da ProPublica registraram um chat do grupo festejando o assassinato de um judeu gay, na Califórnia, em janeiro.

No Illinois, o candidato Arthur Jones nem tentou disfarçar seu radicalismo. Aparecia no website de campanha em companhia de nacionalistas brancos. Jones já tinha se candidatado em várias outras eleições. Mas desta vez é diferente. E a diferença aponta para a Casa Branca. 

Acaba de sair o livro (((Semitismo))) – Ser Judeu na América na Idade de Trump. O autor, Jonathan Weisman, se inclui entre os judeus americanos que, até, 2016, não acreditavam ser possível voltar a ter experiências como as que estão acontecendo na França e na Polônia. 

O despertar brutal de Weisman veio de um momento banal, quando ele retuitou, em maio de 2016, o link de um artigo sobre fascismo. Alguém que se identificava no Twitter como Cyber Trump respondeu com duas palavras, Hello, (((Weisman))). O autor, que é editor do New York Times, pediu ao tuiteiro para explicar os parênteses. A resposta: “É o assobio para o cachorro, otário, uma forma de marcar, para o universo digital, os judeus, uma forma de pendurar o sino do gato”. Explico: a expressão ‘belling a cat’ tem origem numa fábula de Esopo, em que ratos tramam colocar um sino no pescoço de um gato para ser alertados da sua presença. Os parênteses marcavam judeus online, alertando nacionalistas brancos.

A primeira troca de palavras deu início a meses de assédio repugnante. Weisman recebia e-mails, mensagens telefônicas e na rede social. Havia profusão de referências a Trump e iconografia nazista. Ele é apenas um dos jornalistas judeus que sofreram assédio semelhante na rede social durante a campanha de 2016.

Weisman deixa claro que não se arvora a adivinhar o que pensa o presidente, cuja filha se converteu ao casar com um judeu ortodoxo e tem três filhos judeus. Mas ele nota que o presidente pouco fez para se distanciar dos nacionalistas brancos que o tratam como um aliado.

O despertar coletivo, para Weisman, veio com os distúrbios neonazistas de Charlottesville em agosto passado, quando um manifestante jogou o carro contra um grupo e matou a jovem Heather Heyer. A primeira reação de Trump foi dizer que “os dois lados” tinham culpa, sugerindo que protestar contra o nazismo e ser nazista são posições equivalentes.

O livro de Weisman distribui responsabilidade para todos os lados, sem poupar a comunidade judaica americana que ele acusa de obsessão com Israel em detrimento do próprio judaísmo. Ele diz que os grandes doadores das campanhas viram a cara para a tolerância do presidente ao apoio de nacionalistas brancos porque seu governo é mais pró-Israel do que o de antecessores.

Weisman cresceu como judeu secular e ouviu de um rabino o comentário sobre a re-emergência do antissemitismo nos Estados Unidos. “Ele citou a Torá e lembrou: o judeu deve confrontar injustiça onde a encontrar”, seja ela contra judeus, negros, qualquer grupo perseguido. O dilema não é ideológico ou de tática de confronto, concluiu o autor. É uma resistência que define a espiritualidade judaica.

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