Jean-Paul Pelissier/Reuters
Jean-Paul Pelissier/Reuters

2016: O ano em que a Cultura foi à guerra

No balanço final da temporada, uma constatação histórica: ao se unir em torno da manutenção do Ministério da Cultura, a classe artística se tornou um dos maiores focos de oposição ao governo Temer

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2016 | 06h00

A cultura viveu um ano de fortes emoções. Ao mesmo tempo em que teve sua casa maior, o MinC, desprestigiada pelo governo Temer logo no início de sua gestão, quando veio a ordem de reduzi-la a secretaria e abrigá-la encolhida sob o guarda-chuva do Ministério da Educação, o seguimento cultural demonstrou uma força de mobilização sem precedentes. Nem Temer esperava tanto barulho. O mesmo ano em que a cultura desceu ao posto mais baixo desde os anos 1980 – o MinC foi criado pelo presidente José Sarney em 1985 – refletiu uma consciência reivindicatória poderosa. Mexer com a cultura não será mais um ato invisível depois de 2016.

Desgastado pelo bombardeio disparado contra sua medida em um País pós-impeachment ainda em chamas, Michel Temer foi obrigado a voltar duas casas e a retomar a existência do MinC. Depois de penar em busca de um nome que aceitasse conduzir a pasta ressuscitada, conseguiu um jovem de discurso conciliador chamado Marcelo Calero, um diplomata para quem a oposição e muitos artistas olharam torto. Enquanto a Polícia Federal investigava uma fraude de R$ 180 milhões de verbas conseguidas via Lei Rouanet para custear festas privadas para grandes empresas, Calero se reunia com lideranças de peso com o lenço branco em mãos. Começou a ganhar confiança e a dar sinais de reaproximação até eclodir mais um elemento-surpresa: Calero tinha caráter demais, não sabia brincar de política.

O Ministério da Cultura voltou às manchetes dos jornais no dia 18 de novembro, quando Calero pediu demissão acusando o então ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, de tê-lo pressionado a liberar a construção de um arranha-céu em Salvador em uma área tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional). Geddel havia comprado um apartamento no edifício – algo que, obviamente, parecia julgar ser mais importante do que a preservação de uma área histórica. Calero disse não e não arredou o pé, mesmo sob pressão. Avisou Temer do pedido, mas não sentiu-se seguro. Então, lembrou-se do único bem que deveria ser inegociável a um homem, o próprio nome, e saiu de cena antes de sujar as mãos. Geddel caiu seis dias depois.

A cultura, essa filha rebelde e indomável, já havia causado problemas demais. Depois de ser pivô da maior cisão entre artistas e governo desde o final da ditadura, deveria, desta vez, parar em mãos que não oferecessem mais ao Planalto os inconvenientes riscos da surpresa. Mesmo sem uma política cultural definida e nenhuma experiência no setor, o aliado de Temer, Roberto Freire (PPS), que já havia defendido o encolhimento do modelo ministério para o de secretaria, aceitou a função analgésica de líder da pasta mais enferma.

O plano-sequência cinematográfico que começa com a decisão de encolhimento do MinC e termina em um escândalo político com a derrubada de um ministro, sucessivo ao ambiente de indignação de parte majoritária de uma classe que não reconhece Temer como um líder legítimo, levanta a muralha mais alta. Mais forte do que a própria oposição de um PT em farrapos, ao qual resta apostar na corrosão das memórias, os artistas alinhados entoam “Fora Temer” em seus shows e fazem apresentações em espaços ocupados. Com o espírito bélico, Chico Buarque mandou retirar sua música Roda Viva da trilha sonora do programa de mesmo nome da TV Cultura depois de uma entrevista com o presidente. Antes da estreia da Bienal de Artes, em São Paulo, artistas exibiram faixas de “Fora Temer” no Parque do Ibirapuera.

O cinema mostrou suas armas em Cannes. Em maio, parte do elenco e o diretor de Aquarius, Kleber Mendonça Filho, protestaram durante a estreia do longa. “Um golpe ocorreu no Brasil” e “resistiremos” foram algumas das mensagens escritas nos cartazes. O filme considerado um dos melhores da temporada se tornou símbolo de resistência em um ano que, para a cultura, não vai terminar no dia 31. 

Destaques do ano

Cinema (Luiz Carlos Merten)

O Cavalo de Turim

Tempo, espaço, conceitos filosóficos. E o suntuoso P&B do húngaro Béla Tarr (foto).

 

Os Campos Voltarão

É possível fazer poesia com o horror da guerra? O italiano Ermanno Olmi consegue.

 

Aquarius

Kleber Mendonça Filho e o filme brasileiro mais revelador do ano. Sublime Sonia Braga. 

 

Boi Neon

Gabriel Mascaro revela o novo Nordeste de mulheres fortes e homens sem medo de se expor.

 

Os Dez Mandamentos

O megassucesso inexistente: 12 milhões de ingressos vendidos, salas vazias (ou quase).

Música (Julio Maria)

Rita Lee revelada 

A melhor autobiografia brasileira de todos os tempos é lançada pela roqueira

 

Todos por Gil

Gilberto Gil assusta fãs com tratamento para insuficiência renal, mas segue nos palcos

 

Virada revirada

Antes de assumir, Doria anuncia que vai levar parte da Virada Cultural para Interlagos 

 

Que vá pro inferno

Roberto Carlos canta, depois de 30 anos, a palavra “inferno” em especial de fim de ano 

 

Aniquilador

Dentre as baixas mais sentidas, estão as de Prince, David Bowie e George Michael

 

Literatura (Guilherme Sobota)

Bob Dylan, Nobel 

O nome do compositor era sempre citado, mas será que alguém botava fé de verdade?

 

Quedas no mercado 

O ano foi ruim para as editoras: dados recentes mostram queda anual de 3,3% no faturamento

 

Na política 

Mudanças no MinC e projetos de lei no Congresso fizeram pouco pelo livro neste ano 

 

Perdemos 

Ferreira Gullar, Umberto Eco, Boris Schnaiderman, Sábato Magaldi, Sergio Machado... 

 

‘Final feliz’ 

A Cosac Naify conseguiu dar um fim ao seu estoque ao vender o restante para a Amazon

Guilherme Sobota

Visuais (Antonio Gonçalves Filho

Mondrian  

CCBB promoveu uma mostra exemplar do neoplasticismo e do movimento De Stijl

 

Volpi 

MAM reuniu algumas das melhores obras do pintor da coleção de Ladi Biezus 

 

Leilão do Banco Santos 

Venda de obra de Brecheret provou que colecionadores ainda preferem modernos 

 

Calder 

Escultor americano ganhou exposição no Itaú sobre sua influência entre brasileiros 

 

Bienal 

Polêmica, a 32.ª edição da mostra internacional provocou discussões calorosas 

Musicais (Ubiratan Brasil)

Wicked

Considerado de risco em um ano marcado pela crise, teve ótimo resultado de bilheteria

 

Love Story 

O produtor Tadeu Aguiar montou o musical só com um elenco negro. Um belo trabalho 

 

Cinderella 

Previa ao menos uma sessão com um ator negro no papel do príncipe. A ideia pouco frutificou 

 

Rent 

Seu grande trunfo foi ter nascido a partir da paixão de abnegados, que abriram mão de ganhos (foto) 

 

Wanderléa 

Aos 70 anos, ela aceitou o desafio para participar de 60! Década de Arromba – Doc. Musical

 

Teatro (Leandro Nunes)

Os Realistas

Peça de Will Eno com Debora Bloch, Fernando Eiras, Marina Lima e Emilio de Mello

 

Leite Derramado 

A atriz Juliana Galdino se destacou na adaptação da obra de Chico Buarque (foto) 

 

Caranguejo Overdrive

Grupo Aquela Cia planejou em sua dramaturgia subterrânea a percepção das superfícies 

 

Cachorro Enterrado Vivo

Leonardo Fernandes mostra versatilidade ao viver três personagens em história brutal 

 

A Tragédia Latino-americana 

Felipe Hirsch fez um mergulho na literatura do continente

 

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