Werther Santana/AE-7/12/2010
Werther Santana/AE-7/12/2010

2011 em construção

Após temporada marcante, ano erudito começa repleto de incógnitas. Que cara vai ter o novo Municipal de São Paulo? A Osesp vai indicar seu novo maestro? E que fim levará a companhia de ópera de John Neschling?

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

Entramos hoje em 2011, mas, ao menos para a música clássica, 2010 ainda não acabou. A rigor, quando se levam em conta os últimos lances e dilemas das nossas programações, temos vivido desde 2009 - ano da saída de John Neschling da Osesp, do fechamento do Teatro Municipal, da troca de guarda em Campos do Jordão - um longo ano que coloca, de um lado, momentos musicais inesquecíveis; e, de outro, questões estruturais e políticas que ainda precisam de resolução. Nesse sentido, o balanço de 2010 precisa ser feito com um olho no passado - e outro atento ao que ainda está por vir, com a esperança de que a nova temporada consolide caminhos apenas sugeridos no passado recente.

A lista de concertos s especiais pode começar no Rachmaninoff de Yo-Yo Ma na Sala São Paulo, daqueles para figurar entre os grandes, assim como o Debussy de Itzhak Perlman, o Chopin de Nelson Freire e, claro, o de Maria João Pires, sem esquecer o Beethoven realizado por ela ao lado de Antonio Meneses, estreia de um duo que promete para breve novos encantamentos. E por falar em lances mágicos, o Concurso Internacional de Piano do BNDES recuperou em CD gravação ao vivo de 1967 de Guiomar Novaes, deixando na boca gosto ansioso por uma redescoberta mais ampla do trabalho da pianista brasileira.

Entre os cantores, Jessye Norman dividiu opiniões ao se reinventar como intérprete de jazz; pratas da casa, a meio-soprano Denise de Freitas e o barítono Leonardo Neiva ofereceram interpretação sensível dos Knaben Wunderhorn de Mahler com a Experimental de Repertório de Jamil Maluf. E, já que entramos no universo orquestral, destaque para a sonoridade rica da Filarmônica de Munique sob Zubin Mehta, em Mahler e Tchaikovsky; para o equilíbrio obtido pela Filarmônica de Minas Gerais, que puxa a fila de uma descentralização que já havia ocorrido na ópera e, agora, chega à atividade sinfônica brasileira: em Salvador, Ricardo Castro deu passos importantes com a orquestra do Neoiibá; em Aracaju, a Sinfônica de Sergipe começa a alçar voos; e chegam de Vitória boas notícias da Filarmônica do Espírito Santo. A Sinfônica de Heliópolis, por sua vez, foi à Alemanha e, com prestígio renovado, entra em 2011 apostando alto em uma temporada comandada pelo maestro Isaac Karabtchevsky. No Rio, a OSB recebeu Kurt Masur para um memorável ciclo Brahms. A nota dissonante foi a saída do maestro Ira Levin da Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília, interrompendo um projeto ousado e consistente e devolvendo a orquestra a um limbo do qual começava a sair.

Particularmente auspicioso foi o surgimento da Camerata Aberta, grupo ligado ao governo do Estado dedicado exclusivamente à música contemporânea, não apenas pelo ineditismo da iniciativa - mas também pelo fato de que ela parece estar ligada a um compromisso mais amplo com a música nova, evidenciado também pela programação do Festival de Inverno de Campos do Jordão que, por sua vez, busca uma nova proposta de união entre projeto social e artístico, pautada pela revisão dos sentidos da atividade pedagógica na área de música.

Os resultados obtidos pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo - e as promessas presentes na próxima temporada - parecem ter afastado o fantasma da decadência do grupo após a saída do maestro John Neschling. Mas restam desafios. Entre o desabafo informal de músicos e a posição oficial da direção, não dá para saber ao certo a quantas anda a relação entre a orquestra e o maestro Yan Pascal Tortelier. Ninguém parece discordar, no entanto, que os melhores concertos do ano foram realizados sob a batuta de regentes convidados - há tempos não se via unanimidade tão grande de público e crítica como a que se seguiu à Sagração da Primavera, de Stravinski, comandada pelo estoniano Kristian Järvi, por exemplo, um de muitos concertos importantes.

Aqui, o olhar começa a se voltar para o ano que começa. Teremos em 2011 a indicação de um novo maestro? A questão é importante, pois a escolha implica a consolidação de um novo modelo de gestão compartilhada entre um diretor artístico e um regente-titular. Sem rodeios, a pergunta que se faz é: como atrair um maestro de peso sem oferecer a ele controle total sobre a programação? A Osesp garante ser possível e, mais do que isso, recomendável.

Na ópera, expectativas. A grande novidade de 2010 foi a Companhia Brasileira de Ópera de John Neschling e do produtor José Roberto Walker, que percorreu 15 cidades do País com uma montagem de O Barbeiro de Sevilha, bancada pelo Ministério da Cultura. Ainda não se sabe, porém, qual será o futuro da iniciativa, colocada em espera pela troca de guarda no ministério.

Em Manaus, subiu ao palco a primeira produção brasileira completa da Yerma, de Villa-Lobos, assim como O Escravo, de Carlos Gomes, e Romeu e Julieta, de Gounod, que ajudaram a lançar nomes do canto lírico nacional, como o barítono Rodolfo Giuliani e as sopranos Carmen Monarcha e Manuela Freua (para 2011, já se fala em Tristão e Isolda, de Wagner, com Eliane Coelho). No Rio, a Petrobras Sinfônica acertou com a estreia brasileira de O Caso Makropoulos, de Janácek. E, em Belo Horizonte, o Palácio das Artes, em ano difícil, manteve seu posto entre os principais produtores de óperas do Brasil.

Já em São Paulo, o surgimento de uma orquestra própria, dirigida por Roberto Duarte, permitiu enfim ao Teatro São Pedro estabelecer uma programação consistente, com destaque para Don Pasquale e Rigoletto, que tende a crescer se o investimento do Estado continuar. No Municipal do Rio, após mais de 2 anos de reforma, a temporada parecia ter engrenado, com Il Trovatore, de Verdi, e uma versão completa do Guarani, de Carlos Gomes, comandada por Luiz Fernando Malheiro, ponto alto de um ano de exceção para a soprano Gabriella Pace - mas a falta de verbas cancelou as produções para o segundo semestre, tornando 2011 uma verdadeira interrogação.

Entre as incógnitas, porém, nenhuma é maior que o futuro do Teatro Municipal de São Paulo, que completa em setembro seu centenário. O ano começou com desentendimento entre maestro e músicos da Sinfônica Municipal, consequência do ocaso a que foram relegados os corpos estáveis durante a reforma, iniciada em 2009. Há cerca de três meses, um novo diretor foi apontado, o oboísta e maestro Alex Klein. A reabertura, a princípio, será em março mas, afirma o secretário Municipal de Cultura Carlos Augusto Calil, a certeza é que o teatro estará totalmente pronto até setembro. Ele garante também uma verba de R$ 15 milhões para a programação. Que cara ela vai ter? Nos bastidores, fala-se em óperas como A Valquíria, de Wagner, mas o secretário pede cautela e sugere espetáculos de menor porte. Mais importante, no entanto, com o projeto de transformar o Municipal em uma fundação em pauta, será ver se os festejos do centenário vão levar a uma nova estrutura administrativa que permita ao teatro funcionar de maneira mais profissional, se inserindo de modo mais eficiente na programação cultural da cidade e do Brasil, processo que se iniciava em 2008 quando a reforma colocou um dos maiores palcos do País em compasso de espera.

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