1.001 noites de trevas

Em Palácio do Fim, três personagens narram suas experiências devastadoras na Guerra do Iraque

O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2012 | 03h09

O nome Palácio do Fim, peça da canadense Judith Thompson, soa quase poético. A autora parece querer mesmo enfatizar esta sonoridade de um lugar do mesmo Oriente Médio onde nasceu o Livro das Mil e Uma Noites. Ironia brutal. Este "palácio" foi o DOI-Codi do Iraque de Saddam Hussein; ou a Esma (Escola Superior de Mecânica da Armada) da ditadura argentina (1976- 1983). Ou seja, foram "palácios" de torturas e mortes.

A obra de Judith resultou no espetáculo contundente de José Wilker que cita Hussein, mas vai além dele no rastro da barbárie das potências ocidentais, que foram salvar os iraquianos e seu petróleo. No meio do apocalipse militar, entre seitas que se digladiam e grupos locais em disputa pelo poder, o texto fixa os casos de três pessoas. Tira-as do quadro épico ou genérico das batalhas e as mostra desamparadas em dúvidas, misérias e coragem.

Como o mundo do entretenimento tem força e a CNN transforma uma invasão do Kuwait em show de notícias (quem se lembra? Quem se lembra do massacre de My Lai, no Vietnã?) parecia arriscado um espetáculo áspero sobre a lutas no outro lado de universo cultural ao qual nos habituamos. Nossa desinformação sobre o que acontece lá, ou na África, é enorme. Mas, a quem interessar, recomenda-se Orientalismo - O Oriente Como Invenção do Ocidente, de Edward Said (1935-2003) eminente intelectual palestino radicado nos EUA, onde lecionou na Universidade Columbia. Uma frase desse livro: "Assim, se o árabe ocupa bastante atenção, é como um valor negativo".

Pois o espetáculo foi realizado com um elenco notável; e, sim, ainda há pessoas, e muitas, dispostas a assisti-lo. Neste território geográfico e mental repleto de equívocos estão em foco a jovem militar americana (20 e poucos anos) mostrada ao mundo, sorrindo, a puxar um prisioneiro pela coleira; o cientista inglês que revelou ser mentira a existência de armas químicas no arsenal do Iraque (para justificar sua invasão) e cuja morte é mistério; e uma vítima direta de Saddam, a mulher da oposição torturada junto com o filho no palácio masmorra. O enredo cruza as versões reais ou supostas dos personagens em depoimentos devastadores. De início, a mocinha soldado justifica-se histericamente em nome da sua América (e dos seus preconceitos) até sucumbir ao peso do que cometeu. O pesquisador medita como a ciência pode servir a esquemas criminosos secretos, sabotagens e assassinatos invisíveis. Por fim, a peça grita como a iraquiana que teve seu sangue derramado e sofre a perda irreparável. Ela viu o "fim" do palácio.

Não se encenou um documento realista. Está implícito no texto a filosofia da história, a questão moral, o que fazer, ou recusar, sob pressão. Nesses países belos e devastados há gestos de coragem e discordância (sem carros ou homens-bomba. Não existe todo um povo terrorista). Na Líbia, por exemplo, Ibrahim al-Koni escreveu um romance em que mostra o mundo de Kadafi como um câncer. Acabou exilado na Suíça e o livro saiu em alemão com o título O Traje do Governante. Outras obras dele estão editadas na França. Esperemos que cheguem ao Brasil, como as de Ismail Kadaré, da Albânia, e as de Guillermo Cabrera Infante, de Cuba.

Para José Wilker, Palácio do Fim é teatro tomado de paixão, som e fúria. Ele assim o quis e cumpriu. O valor do seu trabalho está claro na força da montagem. Nas interpretações extraordinárias de Vera Holtz e Antonio Petrin, que se envolvem no enredo e, sem perda do distanciamento crítico, ilustram o coração das trevas. Petrin, brilhante com seu olhar perplexo e as pausas doloridas, os gestos precisos. Vera magnífica na indignação que faz lembrar a grande Lélia Abramo no filme O Caso dos Irmãos Naves, de Luis Sérgio Person (1967).

Camila Morgado enfrenta as dificuldades do papel fragmentado e da linha interpretativa de gestual excessivo, interjeições e muxoxos que fazem o seu sotaque carioca soar incômodo. Mas, no segundo movimento da peça, Camila delineia convincentemente a ocupante Made in USA que humilhou o prisioneiro.

Todo esse esforço artístico é um teatro maior que ecoa os versos do iraquiano Salim Al-Shackle: "Através da morte, você vai nascer de novo e qual ave fênix vai usar suas duas asas para bater as cinzas da história. E os ventos vão soprar a seu favor".

Crítica: Jefferson Del Rios

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