100 ANOS DE ABSTRAÇÃO

O movimento é revisto em mostra aberta até abril no MoMA, em NY

TONICA CHAGAS, ESPECIAL PARA O ESTADO, NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2013 | 02h12

Cerca de 100 anos atrás, pintores como o russo Vasily Kandinsky, os franceses Francis Picabia, Robert Delaunay, Fernand Léger, e o checo František Kupka, que tinham pensamentos diferentes e trabalhavam distantes uns dos outros, começaram a exibir, quase ao mesmo tempo, quadros sem nenhuma representação de objetos reais ou formas naturais. Com eles, surgia a pintura abstrata. Aquele momento histórico é comemorado pelo Museum of Modern Art (MoMA) com Inventing Abstraction, 1910-1925, exposição aberta até 15 de abril que conduz o espectador por um percurso enciclopédico, didático, de uma das mudanças mais radicais já ocorridas na arte moderna.

Alguns pioneiros proclamam a paternidade da invenção que transformou as regras da produção artística a partir da segunda década do século 20. Um dos principais pontos de Inventing Abstraction é que a ideia daquela forma de pintar foi fecundada pela interação social entre artistas e intelectuais de diversas áreas.

Um grande gráfico na entrada da exposição mapeia conexões entre os 83 pintores, escultores, poetas, fotógrafos, coreógrafos e artistas, europeus e americanos, que produziram as cerca de 400 obras em exibição. Como entroncamentos dessas redes, sobressaem em vermelho nomes como os de Kandinsky, dos poetas Guillaume Appolinaire, Filippo Tommaso Marinetti, Tristan Tzara, e do fotógrafo Alfred Stieglitz, que proliferaram aquela revolução.

No centro de um desses entroncamentos está Pablo Picasso que, apesar de não ter aceito a possibilidade de uma arte abstrata, é quem abre a exposição com seu óleo sobre tela Mulher com Um Bandolim (1910). A única coisa que sugere a imagem citada pelo título da pintura é a linha curva que lembra a do instrumento na parte central inferior da tela.

Ao organizar a exposição, Leah Dickerman, curadora do Departamento de Pintura e Escultura do MoMA, escolheu aquele quadro para mostrar como um dos pais do cubismo chegou à beira da abstração mas deu meia-volta. "Para Picasso, manter a ligação entre a obra de arte e as coisas do mundo era básico", lembra ela. "Mas para muitos artistas que vieram depois, a lição da pintura cubista de Picasso foi a abstração."

Música. Vivendo na Alemanha, em 1909 Kandinsky já tinha o manuscrito da primeira versão do seu manifesto Do Espiritual na Arte, defendendo uma expressão que não fosse articulada em palavras, tratando da abstração como um objetivo. Mas como pintor ele ainda não conseguia se desvencilhar dos sistemas de representação. A música de Arnold Schoenberg o levou da teoria para a prática.

Sem melodia ou tons perceptíveis, as composições do músico austríaco que Kandinsky ouviu num concerto em Munique, em 2/1/1911, o estimularam a criar uma série de esquetes cada vez mais abstratos sobre aquela apresentação. Apenas traços de figuras humanas e de um piano ficaram no resultado final, Impressão III (Concerto).

Mais tarde Kandinsky comparou: "A cor é o teclado, os olhos são os martelos, a alma é o piano com muitas cordas. O pintor é a mão tocando uma tecla ou outra para provocar vibrações na alma". Em alto-falantes direcionados nas galerias, composições de Schoenberg, Stravinski, Debussy e outros contemporâneos são presença constante em Inventing Abstraction. A música teve papel-chave para muitos dos primeiros pintores abstracionistas, que encontraram nela formas de explicar a abstração, de transmitir ou provocar sentimentos apenas com cores.

Alguns meses depois de criar a série inspirada pelo concerto de Schoenberg, Kandinsky começou a trabalhar num grande quadro que muitos consideram o primogênito da pintura abstrata: Composição V (190 x 275 cm), exibido em dezembro daquele ano. No verso de uma carta vista ao lado dessa obra há dois desenhos preparatórios mostrando que, em vez de esboços como os que usou para pinturas anteriores, Kandinsky fez diagramas representando o que levaria para a tela.

Para expressar suas emoções sobre a profecia religiosa da ressurreição dos mortos, tema daquele quadro, Kandinsky abriu campos em tons de azuis, amarelos, ocres e vermelhos, mais amplos na parte inferior da tela e mais ou menos definidos por linhas pretas. É novamente a música, agora a de Richard Wagner, que lhe serviu como pedra de toque. "Wagner desmonta a estrutura tradicional de uma sonata - que tem começo, meio e fim definidos claramente - e cria um fluxo no qual a estrutura interna não é demarcada e as partes são interligadas por temas recorrentes", compara Leah Dickerman no ensaio de abertura do livro Inventing Abstraction, 1910-1925: How a Radical Idea Changed Modern Art, lançado com a exposição.

Do Espiritual na Arte também foi publicado em 1911 e tornou-se o texto mais influente daquela geração de artistas.

Em julho de 1912, a convite de Jean Arp, Delaunay exibiu em Zurique sua série Fenêtres (Janelas). Ele se correspondia com Kandinsky e havia estudado Do Espiritual na Arte traduzido para o francês por sua mulher, a pintora russa Sonia Delaunay-Terk. Embora partisse da observação direta do que pintava, naquela série Delaunay se concentrou apenas na representação da luz e no movimento das cores.

Três meses depois, no Salão de Outono, em Paris, Kupka, Léger e Picabia apresentaram pinturas também incluídas no registro de nascimento da abstração. Kupka, que acreditava em formas rítmicas e de cor pura para refletir forças cósmicas, mostrou Amorfa, Cromática Quente e Amorfa, Fuga em Duas Cores, formadas por elipses entrelaçadas, a segunda delas fazendo alusão clara entre música e matemática. Léger levou para o salão Mulher em Azul, planos em arco pintados daquela cor, e em seguida começou a série Contrastes de Formas, destilando paisagens e figuras em cubos, cilindros e arcos.

No mesmo salão, Picabia exibiu La Source (A Fonte) e no Salão da Seção de Ouro, também em outubro daquele ano, mostrou Danses à la Source (Danças na Fonte).

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