10 músicas que abalaram o mundo

Perdoem-me, trata-se apenas de meu mundo musical. Que pretensão, na verdade! Mas, tudo bem. Acho que toda pessoa sensível à fatal sugestão da grande arte tem, além de suas músicas simplesmente favoritas, também aquelas muito especiais que se integraram à sua constituição artística e humana. Não porque sejam de fato as melhores, mas porque mexeram com qualquer coisa muito particular dentro da gente.

O Estado de S.Paulo

03 de março de 2012 | 03h08

É claro que as Variações Goldberg, de Bach, são sua obra-prima. Mas a música que me toca de maneira muito particular é o Concerto Italiano. Sua pompa, circunstância e luz tão mediterrâneas, ou talvez porque tive a ventura de ouvi-la pelo pianista Wilhelm Backhaus, abrindo seu recital, em certa noite muito gelada, no Municipal de São Paulo.

Debussy, La Mer, L'Aaprès Midi d'Un Faune, mas o Passepied da Suite Bergamasque é sua música que me marcou. A delícia daquele fluir cadenciado, que Debussy foi buscar no Clair de Lune de Fauré. E já que falei nesta outra obra-prima, ela também é fundamental na construção de meu gosto artístico, desde quando a ouvia numa Ponta da Praia de meus 20 anos. Desse mesmo momento, Si Mes Vers Avaient des Ailes, de Reinaldo Hahn.

Aquela melancólica canção de Schubert, Tränenregen, cantada pela Lotte Lehmann, que eu ouvia no programa Música dos Mestres, da Rádio Gazeta, me faz lembrar muito de minha mãe, com quem ouvia esses programas.

Na fase do começo dos LPs, a Sinfonia para Um Homem Só, de Pierre Schaeffer, o choque do novo na música concreta, e depois a revelação dos madrigais italianos, a extraordinária Misera Che Farai dim Doralice, de Adriano Banchieri, e Cosi Pensoso com'Amor me Guida, de Francesco Landini. Lembro-me de ter entrado na Academia de Música Sta. Cecília, de Roma, só para copiar à mão estas duas maravilhas.

E o que dizer daquele piano em Petruchka e, mais ainda, dos quatro pianos em Les Noces, do velho Stravinski, O MAIOR! Tentaremos montar Les Noces, este ano, e faço questão de participar do coro. É a música mais eletrizante e arrebatadora que conheço.

De repente, não mais que de repente: Chega de Saudade, no rádio, pelo João Gilberto. Saí correndo para comprar o disco. Alguns anos depois, I Wanna Hold Your Hand, dos Beatles, que coisa mais nova, já outros tempos, num compact-disc comprado pelo meu filho Carlos, de apenas 13 anos!

A tão jovem e linda Anna Stella Schic tocando uma Arabesque de Schumann, no Cine Carlos Gomes. E aquela tarde de um sábado, no Cine Atlântico, o andante expressivo do Trio n.º 2 de Mendelssohn. Ah, cinemas de rua de minha vida, que nem mais existem!

Antonietta Rudge, sim, a mitológica pianista, tocando só para mim as duas rapsódias de Brahms, e aquele Prelúdio Cor.12 n.º 7, de Prokofieff. Longínqua tarde, em 1937, bolando aula para ouvir Thanks for the Memory pela orquestra de Benny Goodman, na Rádio Record. E Moonlight and Shadows, de Friedrich Hollaender, em 1935, pela orquestra de Eddy Duchin, num jantar dançante no velho, tão santista Club XV. E ainda sempre em discos, Aracy de Almeida cantando João Ninguém, de Noel Rosa, acompanhada pelo notável pianista Fats Elpídio, e Francisco Alves Na Virada da Montanha, no extraordinário arranjo de Pixinguinha. E o poético transporte a um brasileirismo tão Villa-Lobos, tão evocativo, ouvindo seu Quarteto n.º 6, uma das mais belas obras de câmara de toda a história da música. Tenho a partitura, com autógrafo do Villa. Passei um dia todo atrás dele em sua visita ao Conservatório Musical de Santos. E finalmente Kontrapunkte, do grande Stockhausen. Bem misturado e batido, tudo isso aí pode dar em algo parecido com o cosmopolitismo musical que venho experimentando, à procura também de um pouco daquela antiga melodramaticidade cinematográfica chapliniana ouvida recentemente no apaixonante filme O Artista. Ou simplesmente da beleza nostálgica de Beautiful Love, de Victor Young, no velhíssimo filme A Múmia, com Boris Karlof. Bill Evans gravou esta maravilha.

Música apenas semântica, sem espectrais preocupações. Falei em 10 compositores, mas até aqui já são... quantos? Meu Deus, e o que estarei esquecendo!

Gilberto

Mendes

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