1.ª Bienal de Design homenageia Charlotte Perriand

Os trabalhos de Charlotte Perriand (1903-1999), cuja exposição foi um grande sucesso no Centro Pompidou, em Paris, estão na 1.ª Bienal de Design, da Oca, que a homenageia neste ano com mostra em todo o segundo andar. Nada de mais legítimo. Essa mulher, cujo gênio marcou os movimentos vanguardistas do século 20, foi buscar inspiração em várias fontes: nos Alpes franceses (nasceu na região da Savóia), em Paris, onde viveu todas as exaltações da modernidade, ao lado de Le Corbusier, Fernand Léger ou Jean Prouvé. No Japão, onde passou os anos da guerra. E, finalmente, no Brasil.Do País, ninguém melhor que sua filha para falar a respeito. Pernelle Perriand acompanhou muitas vezes a mãe em suas excursões ao Brasil e ainda se lembra bem do belo apartamento que seu pai, representante da Air France na América Latina, ocupava no Rio, na Avenida Niemeyer, sobre uma península.Charlotte, que anualmente passava alguns meses no Rio (anos 60), ocupava esse apartamento e dava curso livre a seu talento, fabricando cadeiras, estantes e mesas - móveis na época revolucionários e hoje considerados "clássicos".É preciso imaginar Charlotte nos anos 60. Uma mulher insaciável, sensual, livre de preconceitos, participando de todos as lutas de vanguardas. Abraçou com paixão a causa dos oprimidos, dos comunistas. No Japão, assimilou a cultura fria, abstrata, à qual se adaptaram seus móveis elegantes, lisos e sóbrios. De repente, descobriu um Brasil exaltado, adolescente, efervescente, lírico, grandioso, barroco. Como conciliar o choque de tantas memórias (Europa, Japão, Brasil)?Foi à sua filha, Pernelle, e à Jacques Barsac, o melhor conhecedor da obra de Charlotte, que essa pergunta foi feita, nesta mesma rua Las Cases, em Paris, onde Charlotte projetou tantos móveis. A resposta: "Quando descobriu o Brasil ela ficou petrificada. Tanta beleza, loucura, inteligência. O espaço. As florestas. E, como sempre, entregou-se. Adaptou os desenhos de móveis que havia projetado alguns anos antes no Japão. Juntou seus desenhos a lápis, seus decalques. Descobriu uma língua universal, comum às civilizações do mundo inteiro. Na verdade, Charlotte Pierrand jamais ignorou que uma obra, mesmo de vanguarda, tem ligação com a geografia, com a história de cada um."Mesmo o desenho mais apurado está ligado a uma terra, uma memória, um sofrimento, uma felicidade. Ela pensava também com as mãos e trabalhava com matéria viva, árvores em particular. Até então suas mesas eram feitas com a bela madeira dos Alpes. No Brasil, quando resolve fazer uma mesa para seu apartamento no Rio, ela encontra uma outra madeira, escura, luxuosa: o jacarandá.E o Japão, foi esquecido? O Brasil o apagou da memória?Não. A mesa era de jacarandá, mas ela quis clareá-la. Lembrou-se do Japão e das belas claridades das lanternas de Niguchi. O jacarandá da casa do Rio foi, portanto, delicadamente realçado pela claridade japonesa. Para isso, utilizou um objeto de ferro pontudo, vendido para cerimônias de macumba. Eis então todo o percurso concluído: uma senhora nascida nos Alpes franceses, o Japão, a macumba, as florestas do Amazonas - e tudo isso à vista na casa do Rio.

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