0 encontro da grande cidade com as grandes matas

Artigo: Francisco Brennand

FRANCISCO BRENNAND É ARTISTA PLÁSTICO, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2012 | 03h12

Embora esse enorme mural tenha sido pintado no começo dos anos 60, é um dos meus trabalhos preferidos. Não só pela sua dimensão, pois não se trata apenas de uma superfície pintada ou esculpida, mas, do revestimento total de um prédio de oito andares. Algo mais ou menos parecido com o revestimento cerâmico utilizado na Biblioteca do México, aliás, exemplo sempre citado pelo superintendente da Bacardi Export, nos anos 60, o senhor José Maria Bosch.

A inspiração para o desenho resultou da ampliação e agigantamento de diferentes formas vegetais interpretadas de uma maneira diversa de qualquer realismo fotográfico, sem, contudo, chegar, sob nenhum aspecto, a uma abstração.

Os arquitetos do prédio, talvez por eu ser um artista sul-americano, temiam a utilização de cores muito vivas, o que prejudicaria, com certeza, a volumetria do prédio. Ficaram bastante tranquilos quando esclareci que utilizaria a cor azul - uma cor espacial -, que em nada iria alterar os volumes perfeitos desse magnífico projeto. Em certo sentido, pela utilização da cor azul (cobalto) e pelas formas orgânicas em expansão, não fiz senão confirmar o estilo barroco tão comum nos azulejos das antigas igrejas brasileiras.

Esse estilo coincidiu e foi decorrente das grandes descobertas marítimas. Para todos os efeitos, nós, americanos do Sul, estamos ligados ao barroco que talvez simbolize melhor que qualquer outra estética a nossa adaptação de velhos europeus a esse "admirável mundo novo", descoberto por nossos antepassados. A propósito, a chegada dos europeus ao continente sul-americano não foi mais do que a descoberta de homens provenientes das Grandes Cidades do mundo a se deparar com as Grandes Florestas do mundo. O mural não é outra coisa senão a idealização dessa grande floresta.

O meu trabalho, que jamais poderia ser pintado de uma só vez, foi realizado em partes perfeitamente subdivididas (antes de entrar nos fornos) e rigorosamente marcadas no fundo de cada pedra de azulejo com o número da fila, da ordem e da parede a que se destinava. Sem essa nomenclatura, o conjunto se tornaria um verdadeiro puzzle.

O mural pronto foi embalado e enviado pela Pan America Airways. Ainda tenho comigo uma notícia de jornal mencionando a inauguração dessa linha aérea com aviões Jet Clipper, que iniciou a escala entre o Aeroporto dos Guararapes, no Recife, com San Juan e Nova York. Na mesma notícia, vemos parte de um carregamento de oito toneladas de ladrilhos decorativos, produzidos pela Indústria de Azulejos Brennand, que foram adquiridas pela Companhia Ron Bacardi para ornamentação da fachada do edifício sede dessa indústria de bebidas em Miami, Flórida.

No processo de assentamento das peças, a empresa Bacardi se orgulhou de não ter acontecido nenhum acidente danoso no decorrer do trabalho e acabamento do mural. A minha curiosidade de vê-lo assentado no seu respectivo lugar me tirou muitas noites de sono, mas eu só viria a vê-lo na sua plenitude durante uma viagem aos Estados Unidos, em setembro de 1975, 12 anos depois.

Por falar na excelência do projeto complementado com o mural, eu soube, algum tempo depois, que a prefeitura de Miami estabeleceu um prêmio com a finalidade de melhorar nessa época (anos 60) a qualidade das construções dessa bela cidade da Flórida. O prédio da Bacardi Export, no Biscayne Boulevard, foi premiado como o melhor edifício na categoria de edifícios para escritório.

Agora, passados 50 anos, o New York Times noticia a transformação do complexo Bacardi em um Câmpus de Arte sob a orientação do admirável arquiteto Frank Gehry, autor do prédio do famoso Museu Guggenheim, em Bilbao, na Espanha, todo revestido de titânio.

Quanto à escolha de Frank Gehry para este projeto, posso dizer que os melhores sempre escolhem o melhor.

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