THE NEW YORK TIMES, MARY GORDON É ESCRITORA, AUTORA DE HE LOVE OF MY YOUTH (KNOPF DOUBLEDAY, 2011), O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2012 | 02h08

Maria, a mãe de Jesus, deu um bom nome ao cristianismo. Nenhum dos sentidos negativos que fizeram do cristianismo um exemplo de tirania, crueldade e ódio autorizado foi associado a ela. Ela ficou livre durante séculos da síndrome da culpa materna, representando paciência incansável, bondade amorosa, misericórdia, auxílio, refúgio.

O problema é que isso tudo acarretou séculos de sentimentalismo - madonas de azul e branco com os braços dobrados e os olhos virados para cima, uma vara para surrar mulheres independentes. Em minha mocidade, lojas vendiam artigos chamados "vestidos tipo Maria", querendo dizer que a pessoa podia ir ao baile de formatura do colegial parecendo o menos desejável possível em nome da Virgem. A novela The Testament of Mary, de Colm Tóibín, não se aproxima em momento algum do terreno pantanoso do sentimentalismo. Considere-se, por exemplo, o desejo da Maria idosa com relação aos Evangelistas que a perseguem com suas insistentes visitas: "Quando olho para eles, espero que vejam desprezo". Viajando por mar após a morte de seu filho, ela percebe que anseia por um naufrágio, um afogamento. "Desenvolvi uma fome por catástrofe." Desprezo. Uma fome por catástrofe. Ela é muito mais próxima de Medeia do que de June Cleaver.

O escritor que assume a tarefa de fazer uma personagem ficcional de alguém cuja vida transcorreu na história enfrenta desafios especiais. Quando a vida da pessoa é uma parte da "Maior História de Todos os Tempos", a dificuldade aumenta. Sua consciência destas complicações levou Tóibín a fazer uma hábil jogada estratégica no início do livro ao tecer a criação de um texto na estrutura de sua narrativa. Afinal, ela se intitula The Testament of Mary (literalmente, O Testamento de Maria), e a palavra "testamento", que poderíamos ficar tentados a deixar de lado em nossa associação com seu significado bíblico, na verdade sugere tanto o ato de testemunhar como a preparação de um legado - em geral, composto perto da morte.

Ao longo da novela, Maria é envolvida em questões de escrita. Ela se vê como uma vítima, perseguida por homens determinados a criar uma história do que ela sabe que não é uma história, mas a sua vida. A criação dos Evangelhos é retratada não como um ato de recordação sagrada, mas como uma invasão e um roubo. Os Evangelistas - quais seriam eles? ... Lucas, talvez, ou João - são retratados como intrusos ameaçadores, com a presença da polícia secreta de Stalin espreitando das sombras. Eles têm uma agenda: sabem o que querem escrever e, quase por falta de opção, precisam entrevistar a mãe. Eles precisam estabelecer as bases de uma compreensão futura de Jesus, e isto precisa incluir a convicção de que ele é o Filho de Deus e que sua morte salvou o mundo. Mas Maria não engolirá nada disso.

"Eu me levantei da cadeira e me afastei deles, perseguida por suas palavras."

"Ele morreu para redimir o mundo... Sua morte libertou a humanidade da escuridão e do pecado... Seu sofrimento foi necessário... Era como a humanidade seria salva."

"Salva? perguntei e elevei minha voz. Quem foi salvo?"

"Os que vieram antes dele e os que vivem hoje e os que ainda não nasceram..."

"Salvos da morte? perguntei."

'Salvos para a vida eterna", ele disse. "Todos no mundo conhecerão a vida eterna."

"Ah, vida eterna!", eu repliquei. "Ah, todos no mundo."

O uso e repetição da palavra "ah" é magistral. Sua depreciação casual das palavras grandiosas "eterna" e "todos" é um marcador perfeito para a enorme distância entre a mãe e os escritores.

E Tóibín, o escritor, está empenhado em explodir em pedaços alguns dos mais venerados ícones do Ocidente. Na sua narração, Maria não pediu a Jesus para transformar água em vinho nas bodas em Canaã; ela foi, aliás, a única a insistir para ele voltar para casa, para ficar longe do perigo. Mais importante: ela fugiu do local da crucificação antes de seu filho estar efetivamente morto. Estava apavorada, ela nos conta; queria se proteger da violência que sabia que seria desencadeada. Seu medo e desejo de autoproteção afogaram sua tristeza e compaixão pelo destino do filho. "A dor", ela diz, "era dele e não minha." Isto para a Pietà. Isto para a Stabat Mater.

Diferentemente de outros escritores que, ao narrarem o passado histórico, deixam seus dons poéticos e imaginativos de lado, Tóibín é um lírico em grande forma em The Testament of Mary. Quando Maria está recordando a crucificação, por insistência de seus Evangelistas inquisidores, ela prefere falar sobre um homem com um falcão numa gaiola e coelhos numa sacola. A gaiola é pequena demais para o falcão; a ave está zangada e frustrada, e o homem continua colocando seus coelhos na gaiola, embora "a ave não pareça estar faminta.... A gaiola ficou repleta de coelhos meio mortos não comidos.... Estremecendo com velhas irrupções de vida."

A atmosfera é poderosa; compartilhamos as realidades físicas de acontecimentos que, por conta da repetição, se tornaram quase genéricos e, portanto, abstratos. Fugindo da violência que teme, Maria vê estrelas como "sobras confinadas em seu lugar, seu brilho nada mais que uma espécie de pleito". Enquanto os convidados esperam pelo aparecimento de Jesus nas bodas em Canaã ocorre uma "silenciosa contenção das coisas". A tensão precedendo a crucificação é evocada gelidamente: "Eu sabia que estava diante de algo feroz e exato".

Nós aprendemos as implicações psicológicas de eventos pela evocação precisa de suas manifestações físicas: "Havia um vazio soturno nas faces de alguns, e eles queriam esse vazio preenchido de crueldade, de dor e do som de alguém gritando". "O sangue de cada um estava cheio de veneno, um veneno que vinha disfarçado de energia, atividade, instruções rugidas enquanto eles abriam caminho para a procissão sinistra para um morro distante." Com um dom de poeta para as imagens, Tóibín descreve a cena da crucificação: "Era como um mercado, mas mais intenso de certa forma, o ato que estava prestes a acontecer ia dar lucro tanto para vendedor como para comprador".

Muito ocasionalmente, um tropeção anacrônico pode distrair. Maria se queixa por duas vezes de "sapatos" apertados e fala de alguém cuidar de suas "contas". Ora, é certamente possível que pessoas usassem sapatos e pagassem contas na Palestina romana do primeiro século, mas isto quase não importa. Este é um lugar em que nossas associações - sandálias e pilhas de moedas versus sapatos e contas - criam dúvidas que ficam pairando como um zumbido incômodo.

Isto porque The Testament of Mary é uma obra bela e ousada. Originalmente encenada num espetáculo solo feminino em Dublin, ela tira seu poder das surpresas de sua linguagem, sua caracterização quase chocante, sua recusa austera de consolo. A fonte do sofrimento desta mãe é tanto a natureza da humanidade como o destino cruel do seu filho. Suas orações são dirigidas não a Javé, mas a Artemis, grega e não judia, deusa casta da caça e da fertilidade, mas que não foi mãe de ninguém. A palavra final de Maria sobre a vida e a morte de seu filho é a declaração desolada: "Não valeu a pena". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Ela se vê como uma vítima, perseguida por homens determinados a criar uma história que é, no fundo, a sua vida

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