"Zuzu foi uma mulher extraordinária", define o diretor

Sérgio Rezende gosta de dizer que o processo de realização de um filme é sempre estimulante, mas requer coragem. Em geral, um diretor dedica anos de vida a um projeto. É preciso avaliar, pensar se o filme que vai fazer é realmente necessário, sobretudo para ele próprio. Rezende não teve muitas dessas dúvidas e hesitações quando o produtor Joaquim Vaz de Carvalho lhe propôs que fizessem "Zuzu Angel". O filme contém na trilha sonora uma canção que Chico Buarque e Miltinho fizeram para Zuzu em 1977: "Angélica".Carvalho, o produtor do filme, foi vizinho e colega do filho de Zuzu, Stuart Angel, cujo desaparecimento, vítima da ditadura militar, levou a estilista a uma luta solitária (e ferrenha) contra o regime, que culminou com seu assassinato, travestido de morte acidental."Zuzu foi uma mulher extraordinária", define o diretor, acrescentando que a história da mãe que luta para enterrar o filho é uma tragédia universal, por mais que as circunstâncias da morte de Stuart façam parte de outra tragédia mais particular, a brasileira, nos anos da repressão. "Em Zuzu, a mulher, a artista e a mulher de negócios assumem outra dimensão - a de uma guerreira", ele completa. Tendo contado, no cinema, as vidas de Tenório Cavalcanti, Lamarca, do Conselheiro e do Visconde de Mauá, Rezende tem experiência suficiente para saber que cinebiografias impõem limites. "Filmes baseados em personagens reais não se fazem com imaginação. É preciso pesquisar, contextualizar. É preciso descobrir a verdade do personagem com base em muita documentação. Só assim, de posse dela, é possível criar a dramaturgia que vai revelá-lo para o público." Estilista fazia vestidos para mulheres de generaisFoi o que Rezende fez com Zuzu Angel. Havia uma sinopse escrita por Marcos Bernstein, co-roteirista de "Central do Brasil" e diretor de "Do Outro Lado da Rua", que Rezende reescreveu e modificou. O fato de ser uma obra de encomenda não o impediu de transformar "Zuzu Angel" num filme dele. Uma parceria decisiva foi com Patricia Pillar, que cria a personagem. Socialite, fazia vestidos para mulheres de generais. O filho a chamava de alienada e foi só depois que ele aderiu à luta armada, e desapareceu, que sua mãe iniciou a cruzada que a levou a atitudes radicais - em busca do cadáver do filho que sabia estar morto, em busca "do direito sagrado de uma mãe de enterrar seu filho", como ela grita no tribunal militar, Zuzu levou a denúncia da ditadura às passarelas e fez protestos como pedir a ajuda do secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, em visita ao Brasil, para sua investigação. Patricia, escolhida um ano antes da filmagem, foi de uma dedicação absoluta - "Um papel dessa dimensão só se vive com entrega total", ela diz - e ainda indicou Daniel de Oliveira, com quem havia feito a novela "Cabocla", na Globo, para ser Stuart. E Rezende ainda buscou a antiga modelo de Zuzu, Elke Maravilha, dando-lhe um papel e fazendo com que ela, no filme, fosse interpretada por Luana Piovani. Elke, na realidade, esteve presa no Dops, para onde foi levada após rasgar, no aeroporto, um cartaz com a foto de Stuart, sob a frase ?Procurado?. Elke se emociona ao falar da luta de Zuzu - chegou a chorar na coletiva - e diz que foi ali, no Dops, que resolveu enlouquecer, criando a persona que a tornou famosa e que lhe permite, até hoje, dizer o que pensa, sem temer as conseqüências. Os aventureiros Lamarca, Zuzu, MauáNuma atitude inédita em sua carreira, Rezende foi montando "Zuzu Angel" (com Marcelo Moraes) à medida que ia filmando sua Mãe Coragem nada brechtiana, já que ele busca, conscientemente, a emoção do público. "Um mês depois, o filme já estava montado", ele conta. Mesmo que essa vertente de grande espetáculo e biografias filmadas não represente o melhor de sua carreira - sua obra-prima é "Tudo ou Nada" -, Rezende alcança, aqui, um momento de grande dignidade. E o filme tem cenas ótimas - a do encontro de Zuzu com o pai de Lamarca, o velho sapateiro interpretado por Nelson Dantas, em seu último papel, justificaria, por si só, a realização do filme. Essa cena é fictícia, o diretor esclarece. Emocionou a própria filha de Zuzu, a jornalista Hildegard Angel, o que leva Rezende a uma reflexão - "Só com muita pesquisa e informação a gente consegue imaginar sem trair a verdade dos personagens reais." Todos eles - Lamarca, Zuzu, Mauá, o Conselheiro - são aventureiros que ousam. Fazem coisas que o metódico Rezende não faria nunca, por medo ou timidez. "É um dos encantos do cinema", ele admite. "Permite ao diretor e ao público viverem vidas que não são as nossas. No cinema, eu me sinto livre para ir a limites que não desafiaria na realidade", ele resume.

Agencia Estado,

03 de agosto de 2006 | 19h46

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