Zurlini é o presente da mostra

Há imagens no cinema de Valerio Zurlini que são inesquecíveis. Eleanora Rossi Drago e Jean-Louis Trintignant dançam Temptation de rosto colado, totalmente imersos na sua paixão e alienados da guerra que ruge ao fundo, em Verão Violento; Silvie, que seria depois a velha dama indigna de René Allio, se despede do neto e da vida, atravessando a rua para entrar no asilo, em Dois Destinos. Você pode pensar: são apenas dois filmes. Zurlini, que morreu em 1982, aos 52 anos, não fez muitos mais.Jurista e diretor de teatro, ele foi documentarista, antes de estrear no longa, em 1954, com Quando o Amor É Mentira. Dirigiu só mais sete títulos: Verão Violento, A Moça com a Valise, Dois Destinos, Le Soldatesse, Sentado à Sua Direita, A Primeira Noite de Tranqüilidade e O Deserto dos Tártaros. Oito filmes e dois deles adaptados de romances de Vasco Pratolini: o primeiro e o quarto. Só essa identificação de Zurlini com Pratolini já diz alguma coisa.Hoje em dia ninguém mais fala no escritor da geração engajada de Elio Vitorini e Carlo Levi, que fez da literatura uma trincheira amparada no marxismo como principal perspectiva para a interpretação da realidade social da Itália e do mundo. O próprio Zurlini estaria meio esquecido se não existissem os vigilantes sacerdotes do culto em sua homenagem. Um deles é o diretor Carlos Reichenbach. Veja a retrospectiva e descubra um autor raro. O cinema de sentimentos de Zurlini é um dos dois presentes que o organizador da Mostra, Leon Cakoff, oferece ao público no 25.º aniversário do evento.Pense no grande cinema italiano: Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni. Todos evoluíram do neo-realismo, o movimento que floresceu na Itália devastada pela guerra. Rossellini partiu daí para desdramatizar radicalmente o roteiro, Visconti transformou a ópera e o melodrama em ferramentas para investigações históricas e sociais, Antonioni discutiu a alienação e Fellini fez do circo a metáfora da vida. E houve Francesco Rosi, que ainda está sendo homenageado com uma retrospectiva pelo Grupo Estação, no Belas Artes. Em seus melhores momentos, Rosi radicalizou a vertente de Visconti, de quem foi assistente, fazendo um cinema documentado para discutir o poder. Zurlini estaria, quem sabe, mais próximo de Antonioni, mas seu estilo não se confunde com o dele.Foi um romântico impregnado de tristeza e melancolia, falando de seres desgarrados ou destrutivos. Os dois destinos são de dois irmãos, Marcello Mastroianni e Jacques Perrin, e o segundo está morrendo, melhor seria dizer se esvaindo, sem força para lutar pela vida. Dois Destinos apresenta um dos mais extraordinários tratamentos da cor de toda a história do cinema. É a obra-prima do diretor (ou será Verão Violento?). São os seus dois melhores filmes, mas isso não deve desanimar o público de (re)ver A Moça com a Valise ou A Primeira Noite de Tranqüilidade.Há quem considere A Moça a verdadeira obra-prima de Zurlini. A maneira como Jacques Perrin, de novo ele, o mais zurliniano dos atores, se envolve com Claudia Cardinale rende outro relato de delicado intimismo. Quanto a A Primeira Noite de Tranqüilidade, é o mais sensual e triste de todos filmes do diretor. Zurlini pretendia fazer um amplo painel sobre uma família, os Dominici. Problemas de produção o levaram a se concentrar na saga do último representante da família, interpretado por Alain Delon. Amante dos versos e das mulheres, ele vive morrendo, como bom personagem de Zurlini, numa Rimini invernal, que em nada lembra a cidade circense de Fellini. O mar é de ressaca, a praia é poluída e a solidão devora a alma do protagonista. Delon é soberbo no papel.Zurlini foi casado com Jacqueline Sassard, uma deusa do cinema italiano por volta de 1960. Escreveu, para ela, Guendalina, mas quem dirigiu o filme foi Alberto Lattuada. Sua grande fase foi relativamente curta. A trajetória se tornou irregular, os filmes eventualmente confusos (o apólogo anti-racista Sentado à Sua Direita). É um cinema de fundo autobiográfico, sobre homens que não conseguem concretizar seu amor por belas mulheres. Viajar nos sentimentos de Zurlini é conhecer um dos grandes do cinema. Um poeta da angústia existencial na tela.

Agencia Estado,

16 de outubro de 2001 | 22h00

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