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Zendaya e John David Washington vivem casal em crise em 'Malcolm & Marie'

Filmada em branco e preto, produção acerta na cinematografia e peca nos monólogos; veja o trailer

Jake Coyle, AP

10 de fevereiro de 2021 | 05h00

Malcolm & Marie pelo menos vem em boa hora. Filmado em preto e branco, com John David Washington e Zendaya interpretando um casal elegante que acaba de voltar à sua casa modernista e deslumbrante em Los Angeles, Malcolm & Marie tem a aparência estilizada de Quem Tem Medo de Virginia Woolf? – além dos drinks e da gritaria.

Se a peça mordaz de Edward Albee e a escaldante adaptação para as telas de Mike Nichols usaram a raiva e a dor de um casal bêbado para se enterrar brutalmente no casamento, a fúria doméstica do melodrama millennial do roteirista e diretor Sam Levinson é mais brilhante e sexy, mas tem muito menos substância. Num diálogo autoindulgente que gira em torno do ego, da arte e do cinema, Malcolm & Marie mais parece um bate-boca de Twitter que ganhou vida, com uma disputa de teorias entre Malcolm (Washington), diretor de cinema, e Marie (Zendaya), a jovem que inspirou seu filme recém-lançado. Para um filme tão bem lustrado, é surpreendente e vazio.

Concebido e filmado furtivamente durante a pandemia, Malcolm & Marie (disponível na Netflix) tem o benefício de trazer algum frescor num momento de vazios. No início, a câmera de Levinson desliza de um lado para outro fora da casa, espiando pelas janelas, até que Malcolm e Marie chegam. É uma hora da manhã em Malibu e Malcolm está empolgado com a estreia triunfante de seu filme. “Você viu a plateia? Você viu só a plateia?”, ele exclama, enquanto prepara uma bebida e aumenta o volume da música. Mas Marie não está muito entusiasmada. Na longa lista de agradecimentos de Malcolm, ele omitiu o nome dela, embora o filme – ela afirma, ele discorda – fale sobre sua vida de viciada em drogas sob recuperação. (Levinson criou a série da HBO Euphoria, estrelando Zendaya como uma adolescente saindo da reabilitação).

O agradecimento é só um dos pontos de discórdia enquanto os dois trocam empurrões entre acessos de romance, banheiras e macarrão com queijo. Ela fala que ele é uma fraude. Ele joga na cara dela sua carreira de atriz estagnada. Mas a linha dominante são as críticas e discussões de Malcolm sobre como sua obra é recebida “através de lentes políticas”. Homem negro, ele se ressente dos críticos que o comparam a Barry Jenkins, quando ele considera William Wyler uma comparação mais adequada. “Nem tudo que faço é político só porque sou preto”, diz ele.

Malcolm, em monólogos enérgicos, ataca a política de identidade e a “autenticidade” como métricas predominantes da crítica de cinema – ao invés do que está na tela. É um argumento, digamos, interessante para expressar por meio de um personagem negro escrito por um homem branco. Malcolm é um porta-voz de Levinson? Isso faz diferença?

De um jeito ou de outro, Malcolm & Marie, ainda que seus dois protagonistas tenham se dedicado ao material (Washington, em particular, está fabulosamente flexível e elétrico em comparação com sua performance necessariamente mais sisuda em Tenet, de Christopher Nolan), nunca chega a convencer que é uma ego trip que valha a pena ouvir. Isso torna-se especialmente verdadeiro quando Malcolm ataca uma crítica que chama de “a senhora branca do Los Angeles Times” que, para ele, sintetiza tudo o que há de errado na crítica de cinema. Marie questiona esse julgamento e se autodenomina “irmã espiritual” da crítica (assim esperamos) ficcional. Tudo não passa de duas cabeças personificando um monólogo interior de Levinson? Um monólogo que representa os dois lados das queixas (tediosas) de um diretor?

Talvez tudo faça parte do jogo metalinguístico de Malcolm & Marie, um jogo que vai antecipando certas respostas à medida que avança. De um jeito ou de outro, não é um jogo especialmente recompensador. Soa autocentrado, egoísta. Como cinematografia, Malcolm & Marie é ótimo. Como cinema, nem tanto. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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