Zeffirelli finaliza filme sobre Maria Callas

Tudo começou em uma ópera de Wagner. Ao saberem que "uma grega" estava dando o que falar numa montagem de Parsifal, no Teatro dell´Opera, em Roma, Luchino Visconti e Franco Zeffirelli, que, em 1948, trabalhavam juntos respectivamente como diretor e decorador de uma peça de Shakespeare, foram conhecer Maria Callas.Ambos saíram encantados. Zeffirelli achou a soprano extraordinária, apesar de feiosa e de ter as pernas cabeludas. "Quando a vi pela primeira vez, Maria estava muito gorda. Era uma verdadeira baleia, algo como Pavarotti ou coisa do gênero", explica o italiano. "Mas ela tinha uma voz de levar o público ao delírio."Zeffirelli, que mais tarde veio a se tornar cineasta, dirigindo filmes como Romeu e Julieta, A Megera Domada e, mais recentemente, Hamlet e Chá com Mussolini, desenvolveu uma grande amizade com Maria Callas. Ele presenciou a ascensão da diva do bel canto no cenário mundial da ópera; sua radical mudança anatômica ("Ao emagrecer e se tornar muito atraente, Maria tinha uma foto de Audrey Hepburn no filme A Princesa e o Plebeu como inspiração"); foi aos poucos ganhando a confiança dela, até ser convidado a dirigi-la em óperas como La Traviata e Lucia di Lammermoor. O cineasta agora presta uma homenagem à amiga, transformando a atriz francesa Fanny Ardant em Maria Callas. No fim da tarde de terça-feira, na pequena cidade de Osuna, perto de Sevilha, Zeffirelli filmou a última cena da produção Callas Forever. O longa, que tem estréia mundial prevista para meados de 2002, também conta com as participações de Jeremy Irons, Angela Molina, Joan Plowright e uma ponta de Eugene Kohn, o maestro que acompanhou Callas nas master classes da Juilliard School, em Nova York. A cena do balé - Na semana passada, antes de a produção mudar-se para a Espanha, Zeffirelli falou por telefone com exclusividade à reportagem. Ele estava num hotel em Budapeste, na Hungria, preparando-se para dormir, depois de ter passado o dia inteiro filmando a cena de um balé da ópera Carmem. O cineasta foi abordado com projetos sobre Callas em duas ocasiões: em 1970, quando a Columbia Pictures queria contar a história da soprano, e novamente na década de 90, quando saiu o livro Maria Callas - A Mulher atrás do Mito, de Ariana Stassinopoulos, que ganhou a simpatia da atriz Anjelica Huston. "Da primeira vez, era simplesmente impossível, pois a morte de Callas estava ainda muito recente na minha memória", explica Zeffirelli. "O segundo projeto era calcado em fofocagem e eu queria ficar longe disso", continua. "Agora, 25 anos depois, me senti pronto, pois entendo melhor o legado que ela deixou e quem foi Maria Callas." "Maria sofreu muito com seus homens, principalmente Onassis, além da perda da voz, e a terrível irmã que teve", acrescenta. "Tudo isso resultou numa vida vazia. Nem um filho ela teve", prossegue. "Callas Forever é uma obra de ficção, onde eu re-imagino o que teria sido um possível retorno de Callas. É um experimento, um truque que traz Callas de volta ao cenário operístico." Fã de carteirinha - O truque que Zeffirelli menciona é executado pelo empresário Larry Clark, interpretado por Irons. Clark é um personagem fictício, definido pelo cineasta como "um amálgama dos assistentes, managers e fãs de carteirinha", como o próprio cineasta, que passaram pela vida da soprano. Esse empresário tenta convencer uma mulher que vive reclusa em seu apartamento a fazer vários filmes baseados em suas óperas preferidas. Callas seria filmada como aparenta, mas com uma voz de 20 anos atrás. Inicialmente, ela recusa, achando que será uma fraude, um pacto com o diabo. Aos poucos, é convencida pelo empresário, principalmente porque o primeiro filme seria uma versão de Carmem, ópera de Bizet que Callas nunca interpretou de forma integral no palco, apesar de ter feito trechos em recitais e gravado a música em estúdio. Para interpretar o papel principal, Fanny Ardant aprendeu todas as árias executadas no filme. Callas não era totalmente estranha a Fanny. Há quatro anos, a musa e ex-mulher de François Truffaut havia interpretado a soprano na versão parisiente da peça Master Class, que o cineasta Roman Polanski montou. Esse texto do dramaturgo americano Terrence McNally foi originado na Broadway como veículo para a atriz Zoë Caldwell, que venceu o prêmio Tony. No Brasil, a peça foi encenada por Marília Pêra. Zeffirelli, entretanto, acha o texto um insulto. "É tudo muito permeado de picuinhas, uma falsa ironia. Pura especulação", diz. "Os diálogos da peça nunca teriam saído da boca de Maria."Callas nunca comentou com o amigo italiano sua atribulada passagem pela América do Sul, em 1951, quando ela se apresentou no Municipal do Rio e de São Paulo, além do Teatro Colón, de Buenos Aires. "Segundo o que me foi contado, a grande rivalidade entre Maria e a soprano Renata Tebaldi foi acentuada de vez num incidente no Rio", explica. "Renata havia ganhado a imprensa, mas ao interpretar Norma pela primeira vez Maria é quem acabou sendo ovacionada", conclui o diretor. Entre as memoráveis performances de Callas, Zeffirelli diz que a heroína de Bellini nunca foi suplantada. "Posso até imaginar-me dirigindo outras versões para La Traviata e Tosca, mas eu nunca tocaria em Norma, pois Maria era Norma." A última vez que Zeffirelli conversou com Callas foi em maio de 1977, quatro meses antes da morte dela. "Tive uma idéia que achava muito boa para sua volta ao palco: fazer uma ópera de Monteverdi, algo mais simples", revela. "Contei-lhe meu plano por telefone e ela foi absolutamente Maria: "Maravilhoso, maravilhoso; sim, sim, Franco; mas estou um pouco ocupada agora; estou indo para uma ilha na Grécia; a gente se fala depois." Zeffirelli estava ensaiando Laurence Olivier e Joan Plowright no National Theater, de Londres, quando Callas morreu. "Era uma tarde. Larry (Olivier) chegou e me colocou de lado, dizendo que não tinha boas notícias. Foi um choque." As contradições de Callas são as melhores lembranças para Zeffirelli. "Ela era um pessoa muito focada, mas também vulnerável. Ela tinha seus chiliques, mas não era uma diva. E, apesar de todas as porradas que levou da vida, era absolutamente divertida."

Agencia Estado,

18 de outubro de 2001 | 13h06

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