Zé do Caixão faz 40 anos e ganha homenagem

Em um momento em que o cinema brasileiro está em festa pelas indicações inéditas ao Oscar, um antigo personagem também é motivo de orgulho. Neste 2004 que começa bem para o cinema, o Zé do Caixão, personagem criado pelo cineasta José Mojica Marins, chega aos 40 anos. Ele nasce de um sonho de Mojica, que aos 67 anos é dono de uma filmografia de 155 títulos. Zé do Caixão nasceu de um pesadelo de Mojica. No sonho, um homem de capa preta e cartola arrastava o cineasta para o túmulo onde figurava sua data de morte. Mojica acordou em pânico e perdeu o sono, mas anotou tudo. O personagem estreou com À Meia-Noite Levarei Sua Alma, de 1964. A história trata de um agente funerário que aterroriza um vilarejo, eliminando todos os que se opõem a sua busca pela mulher ideal que lhe dará o filho perfeito. O diretor decidiu fazer o papel do coveiro depois de não encontrar atores dispostos a pegar o personagem. Mojica continua na ativa e anuncia seus novos planos: o livro Crepúsculo das Almas e o longa Encarnação do Demônio. E vai ser tema de escola de samba neste carnaval: ele é o tema do enredo De São Paulo para o Mundo!!!, da escola Em Cima da Hora Paulistana. Os 900 componentes da agremiação do Grajaú desfilarão em alas como Sucesso nos EUA, Cine Trash e Primeiro Elenco os sucessos de Mojica nas telas. O desfile acontece no dia 23, na Avenida Politécnica. Ainda há pessoas que, ao vê-lo, atravessam a rua de medo? José Mojica Marins - Existem, infelizmente, por superstição ou crenças. No passado, eu diria que 60% das pessoas desviavam o caminho de medo. Hoje, não chegam a 10%. Mas ainda há senhoras que se benzem, sim. Mojica e Zé do Caixão são a mesma pessoa? O Zé é uma criação minha. Dei vida própria à criatura, o que é bem diferente. Ele vive em busca do filho perfeito e se sacrifica para isso. Eu tenho sete filhos, 12 netos e fui casado quatro vezes! O Zé dorme com cobras e sapos. Eu, se tiver uma mosquinha no quarto, não consigo dormir se não matá-la. Em meados dos anos 90, os gringos descobriram seu trabalho. Depois, aconteceu o mesmo no Brasil. Isso o magoou? Magoou, mas não com os brasileiros e sim com alguns colegas. Nos anos 70, meus filmes eram vistos no exterior. Soube, tempos depois, que quando os gringos vinham me procurar, na Rua do Triunfo, meus inimigos diziam: ´O Mojica mora em Buenos Aires´. Achei uma injustiça. Com tantos filmes na carreira, quadrinhos, teatro, televisão e DVDs, deu pra ficar rico? Não, mas posso dizer que me sinto feliz. Fiz muita gente ficar rica. Meus ex-funcionários hoje têm sua casa, carro e até câmera própria. Todos os que investiram em mim não perderam. Eu era um poeta: ganhava dinheiro para comer e pagar minhas contas e me dava por satisfeito. Qual filme você gostaria de ter feito? E o Vento Levou. Nada a ver com terror, né? Como o senhor gostaria que fosse seu enterro? Sem alarde e ao som de uma canção (ele não revela qual é). Pedi aos meus filhos para não ser cremado. Assim poderei ser desenterrado, lustrado e vestido com minha capa e cartola. Queria que me deixassem na sala e conversassem comigo. Senão, que me expusessem num museu para mostrar que eu existi e era de carne e osso.

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