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'Zama' faz uma imersão na vivência do passado colonial

Diretora procura captar a essência da obra de Di Benedetto

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

29 Março 2018 | 06h00

Lucrecia Martel é um caso à parte. Não apenas no interior da cinematografia latino-americana em seu todo, mas na do seu próprio país, a Argentina. Estamos acostumados a ver nos cineastas argentinos essa habilidade em construir retratos verossímeis da classe média. Diálogos esculpidos com inteligência, certo distanciamento irônico dos personagens, uma carpintaria cinematográfica precisa.

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Lucrecia não se enquadra nessas definições benignas. Pelo contrário. Sua filmografia compacta - está apenas em seu quarto longa - contribui para colocar em crise esse “cinema de qualidade”, bastante invejado no Brasil e também em outros países americanos. 

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Lucrecia trabalha não com a narrativa tradicional, mas com formas de, digamos “não narrativas”, fazendo com que alguns trechos de suas histórias pareçam singularmente abstratos. Esses traços estão presentes em O Pântano, A Menina Santa e A Mulher Sem Cabeça, seus longas anteriores.

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Intensificam-se em Zama, sua primeira adaptação de obra alheia, o romance de mesmo nome do escritor Antonio Di Benedetto (1922-1986).

Lucrecia procura captar o que seria, talvez, a essência da obra de Di Benedetto, tão adequada para a realidade latino-americana, a narrativa “de espera”. Ou seja, o que de mais importante existe na história é exatamente aquilo que não acontece, o que um personagem almeja e não alcança. Aquilo por quem o protagonista gasta uma vida inútil como um fósforo queimado. 

É exatamente o que se passa com Zama (vivido pelo ator mexicano Daniel Giménez Cacho). Alto funcionário perdido numa província sul-americana, ele aspira à transferência para a corte espanhola, onde vivem sua mulher e filhos. É o único ou pelo menos o maior propósito em sua vida.

A maneira como filma Lucrecia, seu trabalho com sons, imagens e diálogos entrecortados, torna sufocante essa espera. Há o clima doentio da colônia (estamos no século 17), o desconforto, a sujeira, o calor, a ausência de expectativas, o desejo mesclado ao desalento, sensações que se transferem para o imaginário do público.

Esse cinema precisa de cumplicidade para ser fruído. Não trata apenas de uma história mal ou bem contada. Mais que isso, é experiência sensorial de um mundo que ainda não é o nosso, mas está na origem do que seria o nosso presente, e talvez o nosso futuro. Imersão em nossa realidade colonial, nessa proto-história de países incompletos e, vale dizer, um tanto abstratos, como a narrativa. 

 

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