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'Z - A Cidade Perdida' traz aventura de explorador pela selva brasileira

Tom Holland fala da experiência seminal que foi fazer o longa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2017 | 06h23

Houve um momento em que Brad Pitt deveria interpretar o aventureiro Percy Fawcett em Z - A Cidade Perdida. Sua empresa, a Plan B, estava engajada no projeto, tudo parecia consolidado. No final, a Plan B permaneceu, mas não Pitt. Foi substituído por Charlie Hunnam, que, para falar a verdade, tem algo do physique du rôle do ex de Angelina Jolie. Ambos são loiros, atléticos. E têm essa ligação com Guy Ritchie. Brad Pitt interpretou Snatch - Porcos e Diamantes. Charlie Hunnam é o Rei Arthur, no longa ainda em cartaz.

The Lost City of Z. Convencido da existência dessa cidade mítica, o coronel Fawcett, no início do século passado, se aventura pela Amazônia. Quando retorna à Inglaterra, sua expedição se torna alvo de chacota. Z não existe. É uma utopia. Mas ele insiste - volta com o filho. Separados durante muito tempo, pai e filho reencontram-se na selva. E desaparecem. Quem conta a história é James Gray. Se você é cinéfilo, sabe quem é. Há um culto a James Gray, que se consolidou através de filmes como Os Donos da Noite, Amantes e A Imigrante.

Em fevereiro, Z - A Cidade Perdida integrou a seleção do Festival de Berlim. Passou fora de concurso. Na coletiva, um relutante Gray terminou por admitir que foi o filme mais difícil que fez. “Mas não gostaria de enfatizar essas dificuldades. Não quero que algum espectador vá dizer: ‘Vamos ver por que o filme foi tão complicado’. Filmar na selva envolve condições extremas, tanto físicas quanto psicológicas. O importante é que o filme fale por si. Quantas pessoas gostam de Apocalypse Now por que (Francis Ford) Coppola quase enlouqueceu na filmagem? Z conta a história da obsessão de um homem. Tornou-se uma obsessão para nós, também.”

A acolhida favorável da crítica a Z - A Cidade Perdida mostra que James Gray conseguiu pôr nas tela essa obsessão. O filme que estreia nesta quinta, 1.º, é uma grande aventura, e um grande estudo de personagem.

Quando esteve no Brasil para falar da próxima estreia do novo Homem-Aranha, Tom Holland não se furtou a comentar com o repórter sua experiência em Z - A Cidade Perdida. “Você viu o filme? O cara (o diretor James Gray) é louco, mas foi uma experiência seminal para mim. Filmar na selva pode ser muito difícil e desgastante, mas, se você quer tornar palpável o que, no fundo, é uma história de obsessão, tem de viver esse sentimento.” Tom Holland faz o filho de Charlie Hunnam, que interpreta o aventureiro Percy Fawcett.

Coronel do Exército inglês, Faewcett tem esse sonho de encontrar, na Amazônia, a cidade perdida de Z. Embrenha-se na selva. Durante anos vive esse inferno. Volta à Inglaterra e, a despeito do que para os outros é seu fracasso, resolve voltar. Dessa vez com o filho (Tom Holland). “Esse reencontro de pai e filho é uma coisa meio mítica. James brincava. Dizia que seus filmes anteriorees já recriavam o inferno na Terra, mas ele dizia que nunca esperaria ter encontrado o inferno de verdade, e foi na Amazônia. Nunca vivi nada parecido. Você interage com a selva, não é o green screen de O Homem-Aranha”, esclareceu Holland.

Em Berlim, na coletiva, Charlie Hunnam disse que o papel como Fawcett foi sua “melhor oportunidade” (pelo menos antes de Rei Arthur). Robert Pattinson, que participa da expedição, disse que o filme pode ter sido um inferno para fazer, mas, como aventura, é real, compreometida mais com o humano do que com a fantasia. James Gray, mesmo relutante, definiu seu conceito de “inferno”. “Claro que não enfrentamos as mesmas condições de Fawcett, e o tempo todo sabíamos o que estávamos fazendo, um filme. Mas havia o calor insuportável, a umidade, os insetos, os crocodilos e as aranhas. Minha mulher visitou o set, e, mesmo assim, se assustou quando regressei. Estava com uma barba enorme e a cara de um Moisés louco. Face às dificuldades, não me restava outra coisa senão ficar 100% focado no filme. A sensação, para um diretor que também é cinéfilo, é que estava encontrando os heróis da minha infância.”

E que herói, ou heróis são esses? Indiana Jones? “Aguirre, a Cólera dos Deuses, que para mim é o maior filme de Werner Herzog, e Apocalypse Now, embora seja outro contexto. É curioso que Hollywood tenha feito poucos filmes de aventura na América Latina. Temos Entre Dois Amores (de Sidney Pollack), que é um belo filme, mas racista na maneira de olhar o negro, o outro. Hollywood sedimentou esse tipo de visão ao longo do tempo. Não é a mesma coisa que com os latinos, embora também exista muito preconceito e, nesse momento (fevereiro), o presidente (Donald) Trump esteja falando em muro para isolar o México.”

Seria interessante debater com Gray como seu filme oferece o ponto de vista do branco colonizador, em oposição ao colonizado de O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra, também desenrolado na Amazônia, mas a diversidade dos interesses de uma coletiva não permitiu a abordagem. Gray, de qualquer maneira, sabe o filme que fez, ou quis fazer - “Como em tudo o que fiz antes, a família está no centro de Z - A Cidade Perdida. Fawcett e a mulher, o filho. É extraordinário que ele tenha tido uma mulher apaixonada como a personagem de Sienna Miller, que nunca deixou de honrar e procurar esse marido aventureiro. Se Z foi a obsessão de Fawcett, então pode-se dizer que ele foi a obsessão de sua mulher.”

Foram muitos anos para concretizar o filme. No meio do caminho, Gray desenvolveu outros propjetos, sem nunca desistir de Z - A Cidade Perdida. “Perguntem à minha mulher, ela vai dizer que mudei muito entre o primeiro momento em que me interessei pelo tema e o filme concluído. Provavelmente, seria outro filme, se o tivesse feito anos atrás. Não sei nem se teria trabalhado com Darius (Khondji), que fez um trabalho brilhante de captação das cores e luzes da selva. O que sei é que, amadurecendo o projeto, fui percebendo cada vez mais a transcendência na busca de Fawcett.” Nesse sentido, o desfecho é magnífico. Um dos grandes filmes do ano.

Busca por Fawcett custou muitas vidas e gerou livros

James Gray inspirou-se no livro A Cidade Perdida (Companhia das Letras), do repórter da New Yorker David Grann. Quando Fawcett sumiu na selva brasileira em 1925, várias expedições foram organizadas para encontrá-lo. Ou os restos dos expedicionários - Fawcett, seu filho e um amigo. Jamais foram localizados e as tentativas de encontrá-los custaram, segundo Grann, outras cem vidas. Grann refaz o possível traçado da viagem de Fawcett, observa, entrevista, reúne dados e produz uma grande reportagem.

Em 1953, um jornalista com forte vocação literária, Antonio Callado, publicou Esqueleto na Lagoa Verde, livro sobre as buscas dos restos de Fawcett. Foi reeditado em 2010 pela Companhia das Letras. O texto é estupendo, uma reportagem com contornos de romance e que, segundo críticos como Davi Arrigucci, serviu de base para toda a carreira literária posterior do autor de Quarup.

 

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