Yimou reinventa o cinema em "Herói"

Quando Serguei Mihailvitch Eisensteinmorreu, em 1948, o cinema já tinha meio século de existência. Ohomem que foi um dos construtores da linguagem cinematográfica eum dos mais importantes teóricos desse meio teve a humildade dedizer que o cinema apenas engatinhava. Dez anos mais tarde, ocrítico francês André Bazin foi ainda mais radical do queEisenstein e disse, em pleno alvorecer da nouvelle vague, que ocinema ainda teria de ser inventado. Mais de um século depois dainvenção oficial do cinema não dá para não lembrar dessascoisas. Filmes como os da ainda inacabada trilogia O Senhordos Anéis reinventam o conceito da própria narração e doespetáculo. O mesmo sentimento pode-se ter diante do filme deZhang Yimou, Herói, que foi o primeiro concorrente ao Ursode Ouro, na quinta à noite. O cinema já nos acostumou às perseguições. John Fordchegou a instituir um modelo de cavalgada em No Tempo dasDiligências. Zhang Yimou filma uma cavalgada na abertura deHerói como nunca ninguém fez antes dele. É como se estivesse(re)descobrindo o cinema. O filme é um exercício prodigioso decor, de ritmo, de narração. Inspira-se na figura do lendárioprimeiro imperador da China e conta a história do herói queteria exterminado seus três principais inimigos. A narrativa nãoadota o modelo clássico de Rashomon, de Akira Kurosawa, paramostrar diferentes ângulos ou versões da mesma história, mastambém está sempre mudando. O herói é um traidor, mas também éum herói de novo. A idéia do sacrifício que anima os verdadeirosheróis, capazes de sacrificar-se por uma boa causa, é a mesma deMasaki Kobayashi no maior de todos os filmes do cinema japonês(com o perdão de Kurosawa, Kenji Mizouchi e Yasujiro Ozu, queestá sendo homenageado com uma retrospectiva no 53.º Festival deBerlim), Rebelião. Mas é um filme de ação, de artes marciais e, para muitagente, será só um subproduto de Matrix e O Tigre e oDragão. Não é. O expressionismo de Zhang Yimou, a maneira comoele usa a cor, como coreografa as lutas, tudo é magnífico eimpressionante. Se você gosta dos filmes de artes marciais,então, é a glória. Yimou criou-se lendo os wuxia, livros deartes marciais, mas quis construir uma história original, dele.Demorou três anos para fazê-lo. Reuniu um elenco excepcional:Maggie Cheung, Tony Leung, a dupla de Amor à Flor da Pele, eJet Li, que confirma mais uma vez que é o maior lutador docinema atual. É um filme de aventuras e é bom. Satisfaz nossossentidos, nosso intelecto. Houve, em seguida, a exibição deoutro concorrente completamente diverso: In This World, umahistória de refugiados políticos que começa num campo doPaquistão e mostra a luta de dois primos para chegar a Londres,atravessando o Irã e a Turquia até chegar a Trieste, na Itália,e daí ganhar Paris e Londres. O diretor Michael Winterbottom mistura realidade eficção, usa o digital e cria cenas de grande beleza. Mas ele foimuito criticado pelos limites do seu cinema: ele pôde fazer ofilme que queria e está em Berlim, mas seu ator, que seinterpreta, um garoto chamado Jamal, luta para permanecer naInglaterra. Como não possui papéis, está para ser deportado. Nãopôde vir a Berlim. Muita gente, a partir daí, discute o alcancede um filme como In This World. Pode ser que não mude omundo, mas nos força a olhar no espelho da violência que nosameaça, a todos. O lema da Berlinale, do 53.º Festival de Berlim é towards tolerance. Enquanto não houver aceitação da diferença não haverá paz.

Agencia Estado,

07 de fevereiro de 2003 | 16h56

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