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'Yesterday' e outros filmes com enredos que não explicam sua premissa

Estreia no fim de agosto, no Brasil, o novo filme de Danny Boyle, 'Yesterday'; veja outros filmes com premissa única e explicação mínima

Sopan Deb, New York Times

29 de julho de 2019 | 03h00

A maioria das histórias explora o básico: quem, o que, onde, quando e especialmente por que. Mas alguns filmes pularam esse último item. O novo de Danny Boyle, Yesterday, que estreia no fim de agosto no Brasil, imagina um mundo sem um dos grupos musicais mais influentes de todos os tempos, os Beatles. Durante um apagão global, Jack Malik (Himesh Patel), um compositor mediano, sofre um acidente de bicicleta e fica inconsciente. Quando acorda, ele se lembra da banda, mas só ele, ninguém mais. Nós jamais saberemos por que um blecaute fez o mundo esquecer os Beatles ou por que Jack se lembra deles. 

Isso não importava para o primeiro roteirista do filme, Richard Curtis. Enquanto são muitos os filmes que fazem de tudo para justificar premissas elaboradas ou excêntricas, Curtis optou por se concentrar apenas nas questões existenciais que a história propunha: como os Beatles se sairiam se começassem sua carreira em 2019? As performances são tão importantes quanto as composições? E a ética de reivindicar a propriedade de músicas que não são suas? Para começar, seria roubo se a banda não existisse?

“Tente e faça o mais lógico possível”, disse Curtis em uma entrevista por telefone. “Mas eu acho que o problema é que se você realmente tentar e provar que algo que não poderia acontecer aconteceu, você vai ficar estressado e confuso e criar uma solução.”

Essa história me fez pensar em outros filmes cujos enredos são baseados em premissas únicas com explicações mínimas. Como muitas tramas de filmes parecem inexplicáveis, eu criei algumas normas arbitrárias. O comportamento de alguém não pode colocar a história em movimento (por exemplo, na comédia de 2000, Um Homem de Família, está implícito que o personagem de Don Cheadle, Cash, causa os problemas de férias que acontecem com o Jack Campbell de Nicolas Cage). A premissa precisa ser quase inteiramente inexplicável. Isso não acontece com Quero Ser Grande (1988), porque a história se inicia a partir de um desejo, ou Matrix (1999), no qual a história de origem é explicada pelos personagens. Também não vale um filme de super-heróis.

Eu dei uma olhada mais de perto em quatro desses filmes, mas deixo três menções honrosas: Do que as Mulheres Gostam (2000), Mais Estranho que a Ficção (2006) e Quero ser John Malkovich (1999).

Feitiço do Tempo

Dirigido por Harold Ramis, o filme de 1993 imagina o enfadonho homem do tempo Phil Connors (Bill Murray em seu melhor desempenho) vivendo o mesmo dia de novo e de novo. Nós jamais ficamos sabendo por que Connors continua tendo que viver o mesmo dia. Isso apenas acontece, embora haja alguma sugestão de que o padrão esteja ligado à misantropia de Phil. Ele finalmente evolui, de um amargo narcisista para um ser humano caridoso e amoroso, tudo por passar pelos mesmos movimentos todos os dias.

Danny Rubin apresentou a premissa original e a escreveu de acordo com as especificações. A Columbia Pictures, o estúdio por trás do filme, queria inserir uma razão pela qual Phil tem que suportar a punição de não conseguir chegar ao amanhã. Entre as justificativas, Rubin e Ramis levaram em consideração a ideia de uma maldição criada por uma mulher que Connors teria prejudicado.

“Parecia tão arbitrário. E eu pensei: ‘Por que eu tenho que fazer isso? É apenas uma perda de tempo’, disse Rubin. E eu também percebi que a coisa que mais me entusiasmava quanto à premissa era que Phil estava empacado tendo que lidar com o dia, e ele nem sabia como chegara lá. Mas ele ainda tinha que lidar com isso.” Rubin escreveu cenas com a maldição, mas Ramis terminou por não as filmar. Às vezes, é melhor ignorar as anotações do estúdio.

Se Eu Fosse Minha Mãe

Ignore a versão de 2003, estrelada por Lindsay Lohan e Jamie Lee Curtis, Sexta-Feira Muito Louca. O que nos interessa é o original, de 1976, com Barbara Harris e Jodie Foster. A história do filme é baseada em um romance infantil de Mary Rodgers, que também escreveu o roteiro.

No filme, a mãe e a filha adolescente trocam de corpo por razões obscuras, depois de uma discussão. Pode parecer que estou quebrando minha própria regra sobre o comportamento: sim, ambas fazem um pedido no exato momento antes da troca. Mas não é na presença de ninguém em particular. 

O Primeiro Mentiroso

Este filme de 2009 recebeu críticas contraditórias quando foi lançado (muitos críticos o consideraram irritante). Mas eu vou comprar essa briga e defender uma premissa engenhosa de Ricky Gervais e Matthew Robinson, que escreveu e dirigiu o filme, que também foi estrelado por Gervais.

O cômico interpreta Mark Bellison, roteirista em um mundo onde ninguém pode contar mentiras. Nem mentirinhas. Nem grandes mentiras. Até que Mark, de certa forma, consegue fazer isso. Claro, ele usa isso para sua vantagem: ganhar dinheiro em um cassino dizendo que ganhou quando não o fez; sacando dinheiro que ele não tem de contas bancárias; impedindo que um policial prenda seu amigo por dirigir bêbado.

No entanto, o público nunca fica sabendo como Mark desenvolve a capacidade de mentir. Há um transitório olhar dentro de seu cérebro, onde aparentemente ele recebeu uma ferramenta para fazer isso, mas na verdade, não muito mais que isso. Na verdade, havia uma cena para explicar a discrepância. Robinson disse em um e-mail que eles tinham filmado uma abertura elaborada em tempos pré-históricos, na qual um homem das cavernas (também interpretado por Gervais) diz à sua tribo que matou um javali para impressioná-los, quando o animal na verdade foi morto por um rochedo que caiu. Foi a cena mais cara para filmar de todo o filme, mas acabou no chão da sala de edição. Robinson e Gervais a consideraram desnecessária.

“Ricky e eu sempre sentimos que queríamos fazer o mínimo necessário para explicar a premissa do filme, então teríamos o máximo de tempo para comédia e personagem”, disse Robinson.

Colossal

Uma explicação sobre a trama não faz justiça à premissa deste filme de 2017. Escrito e dirigido por Nacho Vigalondo, centra-se numa mulher em maré de pouca sorte, chamada Gloria (Anne Hathaway), que retorna para sua cidade natal, onde estabelece um relacionamento com Oscar, um barman que cresceu com ela (Jason Sudeikis).

Os dois acham que, simplesmente por estar em um playground em um determinado momento, eles têm a capacidade de controlar um monstro e um robô que estão aterrorizando Seul, no outro lado do mundo. Oscar, com o passar do tempo, se torna vilão e, por proximidade, o robô faz o mesmo, causando um confronto com o monstro de Gloria e colocando em risco o destino de milhões de pessoas. Há quase nenhuma explicação sobre como isso seria possível. Já que está lá, você só precisa aproveitar o passeio. 

“A razão pela qual meus personagens têm avatares de monstros gigantes é explicada apenas emocionalmente”, disse Vigalondo em um e-mail. “Uma história de origem racional ou científica jamais funcionaria caso meu filme estivesse centrado no mistério da aparência do monstro. Neste caso, os personagens nunca tentam resolver o mistério. Eles são apenas afetados pelas consequências.”/ TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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