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Yasujiro Ozu, o mais oriental dos diretores

Diretor japonês nasceu e morreu no mesmo dia, 12 de dezembro; são 110 anos de nascimento e 50 de morte

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2013 | 13h24

Durante anos ele foi o mais bem guardado segredo do cinema japonês. Yasujiro Ozu era considerado o mais oriental dos diretores. Seu cinema seria incompreensível para o público ocidental que, nos anos 1950, foi tomado de assalto pela descoberta dos épicos de Keisuke Kinoshita e Akira Kurosawa. Mas, depois, criou-se o culto. Seus oficiantes foram Jean-Luc Godard e Wim Wenders. É famosa a foto de Godard visitando o túmulo de Ozu, em sua primeira visita ao Japão. Tão secreto era o autor, tão minimalista, que se criou o mito – Ozu nasceu e morreu no mesmo dia, 12 de dezembro. Nasceu em 1903, morreu em 1963. Mas há controvérsia. Existem fontes que dão como data de nascimento 18 de dezembro. O ciclo fechado da vida e morte seria uma ficção. O M IS, Museu da Imagem e do Som, promove uma retrospectiva que começa dia 18. Mera coincidência?

São 110 anos de nascimento e 50 de morte. O jovem Ozu interessou-se desde cedo pelo cinema e, contra a vontade do pai – numa sociedade patriarcal por excelência –, conseguiu um emprego de assistente na Shochiku. Foi assistente de fotografia, de direção. Seu mestre foi Yasujiro Shimazu, expoente do chamado ‘shimun geki’, o cinema de recorte mais intimista. Outro discípulo de Shimazu foi Mikio Naruse, que virou o Douglas Sirk do Japão, famoso por seus melodramas. A trajetória de Ozu foi sinuosa. Ele virou diretor nos anos 1930. Os primeiros filmes foram comédias ou sátiras sociais que retratavam a proletarização da sociedade japonesa tradicional. O militarismo ditava as regras.

Ozu reagia do seu jeito. Aquele Que a Dama Esqueceu tem um toque de humor à Lubitsch, mas Filho Único já antecipa o que serão os grandes filmes dos anos 1950 e 60. A guerra é um divisor de águas na vida e obra de Ozu. Ele se integrou ao Exército imperial. Serviu na Manchúria, no front do Pacífico e de novo na Manchúria chinesa. Durante quase uma década inteira, entre 1937 e 45, permaneceu afastado do cinema. A guerra com certeza afetou-o. Ozu deve ter tido tempo de pensar em seu cinema. No plano pessoal, tornou-se alcoólatra e o problema se acirrou (e o levou à morte prematura, com 60 anos).

Ao retomar a carreira, Ozu cria o que não deixa de ser uma unidade no estúdio que o reacolhe. Filma basicamente com a mesma equipe. O ator nunca muda – é Chisu Ryu. O tema também não. A dúzia de filmes que realiza até morrer trata das transformações na família japonesa. O estilo é mais depurado. Câmera que olha os personagens levemente de baixo, do ângulo de um espectador sentado no tatame, a esteira de fibra de arroz que é o tapete na maioria das casas. Pouca história, quase nenhuma dramatização. O próprio Ozu explicava-se – “Os filmes com muita história (e enredos elaborados) me aborrecem. Um filme deve ter uma estrutura própria, de outro modo não seria um filme, mas acho que, para que ele seja bom, é preciso renunciar ao excesso de ação e de drama.”

Pai e Filha, Também Fomos Felizes, O Gosto do Arroz no Chá Verde, Viagem a Tóquio, Flor de Equinócio, Primavera Precoce, Bom-Dia, Ervas Flutuantes, Dias de Outono, Fim de Verão, A Rotina Tem Seu Encanto. O título do último parece uma súmula da estética de Ozu. Suas (tênues) histórias tratam de pais e filhos, de casamentos arranjados, de desencontros familiares. Existem códigos – de honra, de dedicação. Uma filha arrisca-se a ficar solteira, para não deixar o pai sozinho, mas ele sabe que, em seu mundo, uma mulher vale pelo casamento. Não é um mundo propriamente triste, mas há nele muita resignação. A alegria e a felicidade são efêmeras. Ozu seria (era?) um conformista, mas que ninguém entenda a definição como pejorativa. Sua compreensão do mundo passava pelas regras – normas e convenções – que o regem e que ele filmava de dentro, com uma sutileza que beirava a subversão. Era essa sabedoria oriental, seu espírito zen, que tornava os filmes de Ozu tão especiais (e diferentes). O mundo mudou muito para que ele fosse finalmente aceito.

Berlim e Cannes apresentaram este ano versões restauradas de clássicos de Ozu. E em Berlim passou o remake de Viagem a Tóquio, também conhecido como Era Uma Vez em Tóquio. O filme chama-se agora Família de Tóquio e o diretor, sem exagero, é tão grande quanto Ozu – a diferença é que Yoji Yamada gosta da ‘história’ como ferramenta de trabalho. Sua série É Triste Ser Homem é a mais longeva do cinema, com mais de 30 títulos, e só foi interrompida pela morte do ator Kiyoshi Atsumi. Yamada foi assistente de Ozu, e simbolicamente colocava Chisu Ryu na sua série sobre o caixeiro viajante. Família de Tóquio é um grande filme, a diferença é que não tem – mas é uma opção estética de Yamada, para sublinhar seu humanismo – a depuração, quase o minimalismo de Ozu. O gênio especial do artista pode ser resumido em seu desejo. Em sua lápide, ele prescindiu de nome ou quaisquer informações adicionais. Fez gravar apenas o símbolo correspondente ao ideograma japonês Ma – que significa o Nada, o Vazio.

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