'Yara' reúne atores não profissionais e com seus nomes reais

No novo longa de Abbas Fahdel, tirando o casal central, todos os atores são amadores

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2019 | 03h00

Abbas Fahdel, diretor de Yara – belíssimo filme que vai se despedindo no Cinesesc –, é o primeiro a admitir que, sem o Vale de Qadisha, no Líbano, seu filme não existiria. “É personagem central, como a própria Yara. Precisava de um lugar assim, ao mesmo tempo belo e impregnado de ressonâncias míticas e religiosas.” Yara conta a história dessa garota que vive com a avó. Chega o rapaz, Elias. Iniciam um dos romances mais pudicos do cinema. Ele quer levá-la para a Austrália. Ela gostaria de ir, mas não pode. Tem a avó.

Só isso? Tudo isso, porque Yara é um daqueles filmes em que nada é tudo. O diretor, iraquiano, inspirou-se em dois mestres. Criou Yara a partir das personagens de Luis Buñuel em A Adolescente e de Robert Bresson em Mouchette – A Virgem Possuída e A Grande Testemunha. Embora trabalhe com ficção, tem alma de documentarista. “Tirando o casal central, todos os atores são não profissionais e têm o nome dos personagens. A avó cedeu sua casa, mas não queria aparecer. Demorei a convencê-la.”

Fahdel é cria de Robert Flaherty e Abbas Kiarostami, que fizeram sua cabeça de cinéfilo. É um dos mistérios do cinema. “Tinha essa ideia de uma garota isolada com a avó, mas não cheguei a escrever um roteiro detalhado. Tinha anotações, e em geral escrevia a cena e a discutia com o elenco na hora de filmar.” 

É um filme sobre o tempo – o vento nas folhas, a água que escorre, os bichos que brincam. A cachorra, os gatos, as galinhas e as cabras. Nesse mundo tão concreto, e tão banal, o amor surge e esvai-se – para sempre? “É um filme feito de observação. Sinto como se estivesse em busca da inocência do cinema primitivo."

 

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