Xuxa em tempo de balanço

Xuxa recebe o repórter do jornal O Estado no seu escritório na Barra. Veste um blazer preto sobre camiseta com efígie do Mickey e calça jeans. A pedido do repórter, tira o blazer na hora da foto. Está linda, com os seios fartos que a tornaram mais sexy, desde a aplicação dosilicone. Xuxa fez dois shows em São Paulo (sábado e domingo) nofim de semana passado; continua com o programa no ar; estrela oespecial de Natal da Globo, que vai ao ar na noite de 24,espremido entre a novela das 9 (Belíssima) e a Missa do Galo. Nodomingo, dia 25, como um presente de Natal, ela aterrissa emmais de 150 cinemas de todo o País, cumprindo o que já faz partedo ritual da data. Não existe Natal no Brasil sem o novo discodo rei Roberto Carlos nem o novo filme da rainha dos baixinhos.Ela é Maria da Graça, lembram-se? Maria da GraçaMeneghel. Como o presidente, que virou Luiz Inácio Lula da Silva também é Maria da Graça Xuxa Meneghel, mesmo que continue sendosó Xuxa no imaginário dos fãs. São mais de 20 anos de estrada.Durante todo este tempo, o culto a Xuxa tem passado pormutações. As mães que se postavam com as filhas diante da TVpara assistir ao seu programa viraram avós, as filhas agora sãoas mães e - milagre - há uma nova geração de baixinhos adorandosua rainha.Desde Lua de Cristal, no começo dos anos 1990, Xuxa jáestrelou oito filmes produzidos por Diler Trindade. Fizeram 22,5milhões de espectadores. O maior sucesso da dupla foi justamenteLua de Cristal, com 5 milhões de espectadores. O ´fracasso´foi um filme que fez, mesmo assim, espetaculares 1,7 milhão deespectadores, Xuxa e o Tesouro da Cidade Perdida, no anopassado. Sua média é de mais de 2 milhões, por filme. Esperamantê-la com Xuxinha e Guto contra os Monstros do Espaço.É uma animação dirigida por Clewerson Saremba, estreante queantes trabalhou com desenho de publicidade. Xuxa, de carne eosso, aparece em algumas cenas (dirigidas por Moacyr Góes) quefazem a ligação da história. Na maior parte do tempo, quem estáno primeiro plano é Xuxinha, a projeção animada de Xuxa. Xuxinhae Guto são dois anjos da guarda que protegem dois garotostraquinas, verdadeiros pestinhas. Na hora H, Xuxinha sacrifica aimortalidade para que um deles possa viver e vira menina. Peraí- o que é isso senão Asas do Desejo, de Wim Wenders, refeitoem Hollywood como A Cidade dos Anjos, com Meg Ryan? Xuxa está cheia de expectativa em relação ao desempenhodo novo filme. Do sucesso da personagem na telona depende umasérie de coisas - o surgimento de uma série e o descanso a queela almeja, trabalhando menos dias por semana, substituída pelaXuxinha em seu programa de TV. Os críticos detectam uma mudança em Xuxa. Ela está menosmercenária - seu atual programa de TV investe menos no consumo,o que dá lugar a uma responsabilidade social maior. Xuxamercenária? Ela reconhece a fama. Conta que, após o Planeta Xuxa foi até ´Dona Marluce´, a todo-poderosa superintendente deOperações da Globo, Marluce Dias da Silva, mostrar seu projetode programa, Xuxa no Mundo da Imaginação. A Globo não estavamuito receptiva. Sairia mais barato exibir desenhos no horário.Xuxa mostrou o projeto e disse que tinha um senão, que talvezdesagradasse ao Departamento de Marketing da emissora. Ela nãoqueria merchandising, pelo menos não nos moldes que vinhapraticando. Dona Marluce foi categórica - "Mas isso nunca foiuma exigência da Globo; era uma exigência sua, para aumentar ofaturamento de seus produtos." Xuxa faz mea-culpa. Estava malassessorada, mas não joga a culpa nos outros. "Ouço muito o queme dizem, mas sempre tenho a palavra final."Até a erotização da infância, da qual ela volta e meia éacusada, merece um comentário. "Mas como eu vou falar com osadolescentes ignorando o sexo?" Acrescenta que desde que colocouo silicone, seu apelo erótico cresceu. São coisas que não dãopara segurar. Fala até de Pelé, a quem excluiu do seu livrooficial de carreira. "Não excluí, não. Ele está lá, citado. Masé um livro sobre a minha carreira, não sobre a minha vidasentimental. Se fosse sobre essa última, ele teria de ocupartodo um capítulo. Ficamos juntos por seis anos." Xuxa abre ojogo. Fala de tudo. A queda de audiência do programa de TV, porexemplo. Ela foi à direção da Globo. "Se os meus shows vivemlotados, os filmes batem recordes, os CDs e DVDs me enchem dediscos de ouro, por que só a TV não funciona mais?" Descobriucoisas interessantes. Seu programa matinal estava engessado entre o de AnaMaria Braga e a novelinha do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Saía deum programa adulto para outro infantil e com uma duração muitocurta para ir se desligando da audiência anterior e preparando aaudiência da atração seguinte. Outro problema é que as emissorasconcorrentes exibem muitos desenhos e existem canais da TV pagasó com desenhos no horário. Atraem uma audiência muito grande -justamente a dos baixinhos. Na verdade, o programa de Xuxaperdeu audiência durante poucos dias, mas o caso repercutiu naimprensa porque era ela, a rainha dos baixinhos. "Quando recuperei a audiência e a Globo voltou a ganharnas manhãs, ninguém mais se interessou pelo assunto", provoca.Sabe que não é fácil se equilibrar entre esses dois segmentos -os baixinhos e os adolescentes, cada grupo com suas expectativase até necessidades. Pode até ser acusada de falta de ambição, mas o que queré manter a coroa de rainha dos baixinhos. Faz a ressalva. "Queroa coroa, mas também quero sair do trono e me sentar com eles nochão, fazer o programa do ponto de vista deles, com eles, paraeles." Por conta disso, o apelo consumista está sendo diminuído,não anulado, em troca da tal responsabilidade social que oscríticos identificam. A coisa do consumo sempre tem. Nos shows,não pode impedir que, na frente dos ginásios e teatros, vendamtudo - camisetas, bonés, álbuns de figurinha. "Mas na Disney, emqualquer lugar, é assim. As pessoas sempre querem umalembrancinha", comenta. Seu melhor programa é a Fundação XuxaMeneghel. "Recebi tanto dos baixinhos que queria retribuir." Afundação, criada em 1989, atende mais de mil crianças, às quaisoferece educação, qualificação profissional, inclusão social. O repórter provoca. Xuxa, como outras personalidades daera da imagem, leva uma vida pública. Nela, até o privado virapúblico. Casamento, parto. A imprensa está sempre atrás de Xuxa,tudo o que ela faz vira notícia. Ela jura que se expõe cada vezmenos. "Não vou a festas, gosto de me trancar em casa, vestindojeans surrado e comendo pipoca com a Sasha, enquanto a gente vêfilmes na TV ou assiste a DVDs." Bate pesado na pirataria. Achauma vergonha. Tem funcionários, mantém uma fundação, cada showimplica a movimentação de 150 pessoas, no mínimo, com todos osgastos que uma operação desse porte encerra. Xuxa gera empregosdiretos e indiretos. A pirataria prejudica. Os seis DVDs dasérie Xuxa e os Baixinhos - o sexto acaba de ser lançado - jávenderam mais de 5 milhões de cópias. Mostra o certificado, paraninguém dizer que está mentindo. O número seria maior, se nãohouvesse pirataria. Critica o presidente, que assistiu a 2 Filhos deFrancisco num DVD pirata. "Se foi um assessor que mostrou,então tem de punir o assessor. O que não pode é dar mauexemplo." Sobre a questão público/privado, conta uma históriadivertida. Uma vez, no Recife, vestiu peruca, óculos escuros,tirou o anel, tudo isso para ir numa feirinha sem serreconhecida. "Adoro feirinha", confessa. Para não chamar aatenção pela voz, apontava o dedo na hora de perguntar o preço.Uma menina sacou (e ela imita o sotaque nordestino) - "Mainha,olha, não é a mão de Xuxa?" Sua persona é tão forte que Xuxa,não adianta, consegue ser pública até quando pretende permanecerprivada. Na TV, neste sábado, ela realiza um sonho, com oespecial de Natal da Globo, que retrata a festa tal como écomemorada nos quatro cantos do Brasil. Chama-se "Folias deNatal". Xuxa tomou como elogio o que lhe disse um dos convidados Milton Nascimento. Ele agradeceu pelo Natal brasileiro, semneve de mentira. Um Natal quente, com muita cor, frutas ecomidas brasileiras. Baixa um gauchês rápido em Xuxa. Falou emfruta e ela diz que está sentindo o cheirinho de butiá. Você nãosabe que fruta é essa? Você só precisa saber que é boa. Eimportar do Rio Grande. Ou então, melhor ainda, ir ao Sul ecomer butiá diretamente da árvore. Quem foi que disse que afelicidade não existe?Luiz Carlos Merten O repórter viajou a convite da empresa produtora Diler eAssociados

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