"Xangô de Baker Street" abre Festival do Rio BR

Convidados importantes cancelaram sua vinda ao Brasil, para participar do Festival do Rio 2001, que começa quinta-feira. A ausência mais sentida será a do diretor italiano Francesco Rosi, homenageado com uma retrospectiva que vai mostrar todos os filmes que fez. Numa carta à organização do evento, Rosi lamenta mas não se sente em condições de abandonar seu país e atravessar o Atlântico para receber uma honraria, neste momento de luto, em que o mundo se prepara para a guerra. Mas o festival vai ocorrer e outros convidados já arrumam suas malas. Joaquim de Almeida e Maria de Medeiros confirmam a chegada (ele, na quarta-feira; ela, na quinta). São os atores de O Xangô de Baker Street, que Miguel Faria Jr. adaptou do best seller de Jô Soares sobre a aventura brasileira de Sherlock Holmes. O filme abre oficialmente, no cine Odeon, na quinta à noite, o Festival do Rio deste ano.Almeida e Maria conversaram com a reportagem pelo telefone. Ele, de Lisboa. Ela, de Paris. Almeida possui outra casa, em Nova York. Maria também tem sua casa lisboeta. Moram nos EUA e na França por necessidades profissionais, já que ambos desenvolvem carreiras internacionais, longe de Portugal, onde nasceram. Almeida achou muito divertido fazer não Sherlock Holmes, o personagem de Arthur Conan Doyle, mas o de Jô, que define como o reverso do mito, no filme de Faria. Maria realiza o que não deixa de ser um sonho, representando a mítica Sarah Bernhardt, que está virando uma personagem freqüente do cinema brasileiro. Foi vista, há pouco, em Amélia, de Ana Carolina, na interpretação de Béatrice Agenin, uma atriz da Comédie Française.Há muitos anos, Maria esteve no Brasil, representando em francês, como integrante justamente do elenco da Comédie Française, que excursionava pelo País. Visitaram Rio, São Paulo, Porto Alegre e outras capitais. "E nós ficávamos comparando nossa estada no Brasil com as excursões de Sarah Bernhardt; você pode imaginar como me senti interpretando a própria Sarah em sua viagem ao Brasil." Maria não conhecia o diretor Miguel Faria Jr. "Mas quando ele me contatou e ofereceu o papel, fui logo aceitando, antes até de ler o roteiro; foi assim que aconteceu."Almeida dá uma versão mais detalhada da sua adesão ao projeto. Havia acabado de chegar a Lisboa, vindo de Nova York, quando uma amiga lhe telefonou e disse que ligasse correndo a TV. "O Jô estava a dar uma entrevista; dizia que havia vendido os direitos de O Xangô de Baker Street para o cinema e gostaria muito que eu fosse o seu Sherlock Holmes. Corri atrás do livro, que li e um mês depois o Miguel me contatou." Tão logo Almeida lhe deu o sim, o diretor lhe enviou alguns vídeos de filmes com o célebre personagem, um dos mais famosos da história da literatura. Sherlock ficou tão conhecido e para seu público era tão real que cartas chegavam ao endereço famoso de Baker Street, propondo que ele investigasse casos particularmente difíceis. Na linguagem coloquial, diz-se de uma pessoa que é um sherlock quando é esperta ou tem capacidade de dedução.Miguel Faria Jr. estava no interior na Bahia, como produtor-executivo de Tieta do Agreste, que Carlos (Cacá) Diegues adaptou do romance de Jorge Amado, quando o livro arrebentou como um grande sucesso de vendas. Ele devorou o livro. Conversava com Cacá e o produtor Bruno Stroppiana sobre o personagem e o tratamento que Jô dava ao mito. Quando Stroppiana comprou os direitos, se lembrou dessas conversas e chamou Faria para a direção. Ele não vacilou, mesmo sabendo dos desafios ou justamente atraído por eles.Dificuldades - "Quem lê o livro pode achar que já é um roteiro, mas quando Patrícia e eu (a escritora Patrícia Melo) fizemos a adaptação percebemos que era difícil, com todos aqueles personagens e situações." O próprio fato de misturar figuras históricas e personagens de ficção que viraram mito demandou muita pesquisa dos adaptadores. Uma coisa é o livro, que você lê; outra é o filme, que vê e se constrói, no inconsciente do espectador, como uma coisa real. O outro desafio não podia ser enfrentado na escrita, mas na direção mesmo. "O filme, como o livro, tem muitos gêneros: ação, aventura, romance, thriller, comédia, drama histórico; tem de de tudo." Era preciso achar um tom. Faria acha que conseguiu.Havia outros desafios para ele. Embora modesto para os padrões internacionais de um filme de época, Xangô é caro para o Brasil. Faria Jr. não sabe o valor exato ("É a vantagem de trabalhar como diretor contratado"); estima algo em torno de US$ 7 milhões. O que foi captado pelas leis de incentivo está integralmente na tela. É um filme muito bem produzido, com uma opulência visual, movimentação de extras, cenários e figurinos que não são freqüentes no cinema brasileiro. Um filme caro era uma novidade para Faria Jr. Um filme narrativo, também. Em obras como Pedro Diabo Ama Rosa Meia-Noite e Pecado Mortal, no começo de sua carreira, ele fazia um cinema antinarrativo, pelo menos no sentido da narrativa hollywoodiana, tradicional. A ideologia era mais importante. Hoje, está mais cético quanto ao poder do cinema de mudar a realidade, mas sabe que nenhum filme deixa de veicular uma ideologia.Em Xangô, há um subtema que foi o que o motivou no projeto: Miguel Faria Jr. fez o filme para discutir o embrião do que hoje se chama de globalização. E achou divertido brincar - pois o filme lhe parece isso, uma brincadeira - com o mito de Sherlock Holmes. Em sua aventura brasileira, ele inventa a caipirinha, descobre a mulata, a maconha e o candomblé e ainda por cima experimenta o único fracasso de sua carreira, já que não consegue identificar o assassino que mata mulheres no Rio de D. Pedro II. O espectador, sim, sabe quem é e o filme prossegue com o assassino em Londres, transformando-se em ninguém menos do que Jack, o Estripador. "República dos Assassinos já era um filme mais narrativo, mas aqui esse cuidado com a narração não é só mais evidente como é necessário." Na fase de preparativos para o filme, Faria Jr. enviou os vídeos de diversos filmes com o detetive de Baker Street para Joaquim de Almeida. "Ele me enviou principalmente os vídeos do Basil Rathbone; era um Sherlock maravilhoso, mas sua influência me serviu para mostrar aquilo que não queríamos. Nosso Sherlock não é o dele", diz o ator. Almeida sempre foi fã das aventuras de Sherlock Holmes. Maria também foi fundo na pesquisa sobre a mítica Sarah Bernhardt. "Felizmente, há muita bibliografia sobre ela", diz. Só lamenta não ter visto o filme de Ana Carolina. Acha que o intercâmbio Brasil-Portugal só pode favorecer a ambas as cinematografias. Está contente por voltar ao Brasil. "Amo o seu País." Não esquece da Mostra Internacional de Cinema São Paulo ("Envie carinhos ao Leon e à Renata" - Leon Cakoff e Renata Almeida, organizadores do evento). Afinal, além dos convites em anos anteriores, a mostra deu-lhe o prêmio de melhor filme no ano passado, por sua estréia na direção, com Capitães de Abril.

Agencia Estado,

24 de setembro de 2001 | 10h49

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