Mario Anzuoni/Reuters
Mario Anzuoni/Reuters

Woody Allen vs HBO vs pedófilos

Com o documentário, temos o ‘outro lado’ que faltava. E é terrível

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2021 | 03h00

Michael Jackson era pedófilo? A Justiça o inocentou. Mas tive certeza ao ver o documentário Leaving Neverland, de Dan Reed, de 2019 (HBO): duas vítimas de abuso, Wade Robson e James Safechuck, contam detalhes do inferno que viveram no quarto com Michael Jackson, que adorava dormir com crianças e construiu um parque numa casa isolada e protegida, para brincar com elas.

Em 1993, fora processado pela família de Jordan Chandler, 13 anos, que ia visitá-lo, por molestamento sexual. Mas ela fechou um acordo de US$ 15 milhões e retirou a queixa, o que a deixou sem credibilidade e com fama de interesseira. 

Em 2005, outra acusação. Agora a vítima, o garoto Gavin Arvizo. A casa foi revistada, encontraram material pornográfico, empregados acusaram, mas a tese da dúvida razoável predominou, como no caso de O. J. Simpson. 

Jackson virou Wacko (excêntrico) pela imprensa, quando se revelaram detalhes da sua mania de andar com crianças de mãos dadas. Wacko foi julgado e absolvido, num julgamento que virou um circo. 

Festival de Sundance exibiu Leaving Neverland. As duas vítimas, hoje adultas, foram aplaudidas em pé. Rádios deixaram de tocar suas músicas. Chris Richards, do The Washington Post, escreveu ao rever: “Thriller é hoje sobre um homem expondo seu horror interno”. 

Ao assistir ao quarto e último episódio de Allen v. Farrow (HBO), minhas convicções foram para o buraco. Comprei por décadas a versão da defesa de Woody Allen, que a mulher, Mia Farrow, que fica paranoica em Bebê de Rosemary de Polanski, namorou Sinatra, anos mais velho, adotou uma penca de filhos (dez), além dos quatro biológicos, surtou quando descobriu que seu namorado de 13 anos pegava a filha adotiva, Soon-Yi, 40 anos mais jovem. 

Allen não deu sua versão no documentário, o que elevou o tom da crítica. Nem precisava. Se casou com Soon-Yi e sempre ouvimos (apenas) a sua versão em coletivas, entrevistas, lançamentos e até numa biografia. 

Ele repete a mesma narrativa, a que advogados de defesa usam para livrar pais da acusação de assédio contra filhos, seguindo uma cartilha do direito criminal, a da desqualificação da vítima: a mãe é louca e por vingança fez lavagem na cabeça da criança.

Segundo o documentário, Allen chegou a chantagear o filho Ronan, jornalista atualmente na The New Yorker, que denunciou o predador Harvey Weinstein, alavancou o Me Too e acompanhou de perto o drama da irmã abusada, Dylan. Tornou pública em rede social sua posição, enquanto o pai era homenageado no Globo de Ouro de 2014. 

Ele conta no documentário que papai Woody pagaria sua faculdade se viesse a público chamar a mãe de louca. Na real, a única pessoa que chama a mãe de louca é Allen e o filho Moses, adotado por Allen. Os outros 13, não. Nem seus vizinhos, babás, amigos dos filhos, promotores, investigadores e assistentes sociais. 

A produção pega pesado ao tirar do contexto cenas de Manhattan e Husbands and Wives, em que o personagem de Allen é seduzido por garotas bem mais jovens, mas termina com elas por incompatibilidade. Chegam ao ridículo de entrevistar um jornalista que investiga arquivos do diretor e faz “descobertas”, como a de que ele diminuía a idade das personagens. O que não prova nada.

Vemos muitos registros de Allen na casa filmados pela família. Aparece um pai inconveniente, obcecado, que não tirava os olhos dela. Hipnotizado, exagerava fisicamente, colocava os dedos na boca dela, ficava o tempo todo grudado nela, abraçado, esquisito. Quando ele chegava, Dylan se escondia. Os outros saíam de perto.

Nunca o deixavam ficar a sós, depois que Mia viu fotos de Soon-Yi nua na casa do namorado. Mas os dois sumiram por 20 minutos numa visita em 1992. Ele a levou para brincar de trem elétrico no sótão. Ela reapareceu assustada e sem calcinha. Disse à mãe o que papai fez. Repetiu diversas vezes para a câmera. Em seus olhos, horror.

Ficamos sabendo que Allen não foi inocentado pela corte de Connecticut, onde se deu o assédio. Foi o promotor Frank Maco quem retirou a queixa, para preservar a criança, visivelmente abalada, e impedir um circo, para defender a família Farrow. 

Ficamos sabendo que, sim, tinha um trem elétrico no sótão, negado por ele e por Moses, mas confirmado por três investigadores da polícia. Mia não foi a público. Deu uma coletiva. Allen, cercado por um time de RPs, advogados e agentes, não se fartava de falar do tema. Fez 26 filmes depois. Recebeu homenagens. Ela sofreu boicote.

Dylan, hoje casada e com uma filha, detalha o pesadelo. As lembranças são nítidas. Ela treme, sua, ao descrever como o pai a pegou. Nunca se contradisse. Com 7 anos, tinha percepção do que acontecia. Não se relacionou na adolescência com ninguém. Travava ao imaginar que o outro quisesse o mesmo que o pai. Louca?

Documentarista não está lá para fazer justiça, mas dar audiência, e usa truques de roteiros de ficção, ganchos e pistas falsas, para conquistá-la. Jornalisticamente, é contestável. Porém, temos o ‘outro lado’ que faltava. E é terrível.

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

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