Woody Allen retorna mais grave e ambicioso em 'Homem Irracional'

Woody Allen retorna mais grave e ambicioso em 'Homem Irracional'

Homem Irracional é o 46.º filme de Woody Allen e o 11.º exibido em Cannes; longa estreou nesta quinta-feira, 27

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2015 | 07h00

Woody Allen volta e meia experimenta em seu cinema a tentação do assassinato. Homem Irracional retoma essa vertente da obra do autor. É um Woody Allen mais grave, e ambicioso, do que o de diversos filmes recentes, mas não necessariamente melhor, ou muito melhor. E aqui cabe uma pequena digressão. Mais do que qualquer outro diretor, ele tem mantido a regularidade de sua carreira – da trajetória, digamos assim. Um filme por ano, todos os anos. No documentário de Robert B. Weide, Allen esclarece. Recolhe ideias que coloca em gavetas. Na hora de escrever o roteiro, abre as gavetas, cruza as informações e assim compõe personagens e situações.

As gavetas são compartimentos da mente, e nem poderia ser diferente para um autor que se analisou, analisa, há tanto tempo. Allen tem a tendência a psicologizar, e mais que isso, a psicanalisar. E, para ele, a regularidade é importante. A rotina de escrever, filmar, montar. Alguns filmes saem bons (Blue Jasmine, Meia-noite em Paris), outros menos bons (Vicky Cristina Barcelona), alguns até ruins (Era Uma Vez em Roma, Magia ao Luar). O importante é manter a frequência.

Homem Irracional é o 46.º filme de Woody Allen e o 11.º exibido em Cannes – 12.º, se for considerado o episódio de Histórias de Nova York. Mas o filme não integrou a competição. “Quem vai garantir que O Poderoso Chefão é melhor que Os Bons Companheiros, ou vice-versa?”, perguntou-se mais de uma vez nas entrevistas que deu na Croisette. E por que filma tanto? “Tem gente que filma por dinheiro, ou por necessidade de expressão. Eu filmo porque gosto, porque me divirto.” E sobre a sua fidelidade à película – “Vou ter de usar o digital, nem que seja para experimentar. O digital não é mais o futuro. É o presente do cinema, e eu estou ficando por fora.”

O novo filme dialoga com outros do próprio Woody Allen, especialmente com Crimes e Pecados. Para Woody Allen, talvez valha o que Paulo Francis dizia de François Truffaut. A felicidade íntima, a satisfação no casamento com Fanny Ardant, de alguma forma apaziguou o artista. Domou-o? Existem críticos que contestam, vendo grandes méritos em um filme que o próprio Truffaut, na fase de jornalista, consideraria mediano. A Mulher do Lado. Allen vive hoje o que parece uma existência calma e feliz, mas o gênio criador ficou lá atrás, na fase conturbada com Mia Farrow, quando fez seus melhores filmes, e Crimes e Pecados era um deles.

Existem elementos daquele filme, e de Hannah e Suas Irmãs, e de Manhattan, e Tudo Pode Dar Certo, em Homem Irracional. Joaquin Phoenix é quem faz o papel. É um professor de filosofia que chega ao câmpus de uma universidade precedido por sua fama. Uma aluna, Emma Stone, se envolve com ele. Uma colega, Parker Posey, o persegue. Ele disserta sobre sua especialidade. Kirkegaard (‘Sickness into death’, a doença da morte), Kant, Simone de Beauvoir. Discute a dificuldade de se adequar conceitos e ideais filosóficos ao mundo real. Analisa responsabilidade, moralidade, e livre-arbítrio. Dostoievski/Crime e Castigo, e Anne Frank, a cultura judaica e o nazismo. E, aí, quase por acaso, o professor ouve a história da mulher ameaçada de perder a guarda dos filhos por causa da inflexibilidade de um juiz. Resolve eliminá-lo. Planeja o crime perfeito.

O tema de Homem Irracional não é o crime perfeito, que já estava em Match Point, mas a tentação da irracionalidade. Allen é atraído por homens racionais (artistas, professores) que transigem com os próprios princípios e se confrontam com o terrível mundo real. O plano de Joaquin Phoenix dá novo sentido à sua vida. Termina por consumi-lo. Rememorando – o cineasta de Crimes e Pecados planeja friamente a morte da amante, que passa a exigir demais dele. Allen filma o isolamento (moral), num mundo em que as pessoas são estimuladas a abandonar projetos coletivos e focar somente em seus desejos e necessidades. A personagem de Parker Posey vai desaparecendo. Emma Stone, nova musa do diretor (substituindo Scarlett Johansson), decepciona-se com seu professor. “Havia algo de muito errado com ele, mas era fascinante.” A frase poderia ser usada à maneira de epitáfio. Tudo bem, mas para quem?

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