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O diretor  Woody Allen na estreia do filme 'Roda Gigante' em Nova York, ele lançará uma coletânea de ensaios  Evan Agostini/Invision/AP

Woody Allen publicará nova coleção de ensaios

Polêmico, cineasta continua em atividade e coleciona sucessos como 'Noivo Neurótico, Noiva Nervosa' ao novo 'Festival do Amor'

Hillel Itália, AP

25 de fevereiro de 2022 | 08h00

Woody Allen tem pronta uma coleção de ensaios humorísticos que será lançada em junho, seu primeiro livro desde que seu controverso livro de memórias A Autobiografia' foi lançado há dois anos - no Brasil, foi editado pela Globo Livros.

A Arcade Publishing, uma marca da Skyhorse Publishing, anunciou na quarta-feira que Zero Gravity será publicado em 7 de junho. Inclui ensaios que apareceram na The New Yorker e alguns escritos apenas para o novo livro. Nenhum deles faz referência à sua ex-parceira, Mia Farrow, ou à filha Dylan Farrow, que alegou ter sido agredida sexualmente por ele quando menina, há 30 anos. Allen negou as acusações.

Segundo a Arcade, os assuntos do livro incluirão “cavalos que pintam, carros que pensam” e “a vida sexual das celebridades”. Os títulos incluem Buffalo Wings Woncha Sai Tonight, When Your Hood Ornament Is Nietzsche e Growing Up in Manhattan.

'Zero Gravity'implica que escrever não deve ser levado a sério, mas, como acontece com qualquer humor verdadeiro, nem todas as risadas são leves”, diz o anúncio do Arcade.mAllen, de 86 anos, começou a publicar com a Skyhorse em 2020, depois que A Biografia foi descartada pelo Hachette Book Group em meio a críticas generalizadas de funcionários da Hachette e do filho de Allen, Ronan Farrow, que também está afastado do pai. Allen lançou quatro coleções de ensaios anteriores, incluindo Getting Even e Without Feathers.

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Woody Allen: 'Estou interessado em filmes mais artísticos, com público menor'

'Meu desejo ao fazer um filme não é financeiro, mas, sim, de fazer um bom filme. Então, mesmo que a audiência seja pequena, tudo bem', opina diretor de 'O Festival do Amor' em entrevista ao 'Estadão'; leia a íntegra

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

19 de dezembro de 2021 | 05h00

Nem a idade nem a longa carreira de mais de 70 anos diminuíram o apetite de Woody Allen por fazer cinema. Aos 86 anos, ele chega a seu 50º filme como diretor com O Festival do Amor, rodado mais uma vez na Europa, mais precisamente em San Sebastián, na Espanha, durante seu festival de cinema.

Wallace Shawn interpreta Mort Rifkin, um professor de cinema e aspirante a romancista que viaja à Espanha para acompanhar a mulher, a assessora de imprensa Sue (Gina Gershon). Mas, como não é cego, ele começa a desconfiar que Sue está flertando com um de seus clientes, o ambicioso cineasta Philippe (Louis Garrel). O estresse e a hipocondria fazem com que Rifkin acredite estar doente, procurando ajuda médica na forma de Jo Rojas (Elena Anaya), por quem ele se encanta. À noite, Rifkin tem sonhos em que se coloca em grandes clássicos do cinema, como Persona, de Ingmar Bergman, e Cidadão Kane, de Orson Welles.

O Festival do Amor ficou pronto em 2020 e por Woody Allen já haveria um 51º filme, que seria rodado em Paris, mas foi interrompido pela pandemia - a única coisa capaz de impossibilitar sua média de uma nova obra lançada por ano.

O trabalho também parece uma espécie de refúgio para o diretor, que teve a carreira brilhante obscurecida pelas acusações de sua ex-mulher, Mia Farrow, de abuso sexual da filha adotiva do casal, Dylan, em 1992. Pouco antes, tinha vindo à tona que ele vivia um romance com a filha adotiva de Farrow, Soon-Yi, com quem ainda está casado e com quem adotou duas meninas. “Eu suponho que pelo resto da minha vida um grande número de pessoas vai pensar que eu sou um predador”, disse Allen em entrevista recente ao jornal inglês The Guardian. “Tudo o que eu digo a respeito do assunto parece egoísta e na defensiva, então é melhor seguir meu caminho e trabalhar”, completou ele, que nunca foi acusado nem condenado por abuso.

Em entrevista ao Estadão, por telefone, Woody Allen falou sobre O Festival do Amor, pandemia, se ele vê filmes da Marvel e seus projetos para o futuro - incluindo se pretende ou não fazer um longa-metragem no Rio de Janeiro.

O Festival do Amor é seu 50º filme. Isso faz com que reflita sobre a carreira?

Não, quando eu faço um filme eu nunca vejo novamente. O primeiro filme que fiz foi em 1967 ou 1968, não me lembro. E nunca mais vi. Nunca mais assisti a nenhum deles, porque não acho que seja uma boa ideia fazer isso.

O longa faz homenagem a clássicos do cinema, como Persona - Quando Duas Mulheres Pecam e Cidadão Kane. Assiste a muitos filmes?

Vejo muito os clássicos e alguns contemporâneos quando sei que são bons, quando um amigo me indica e me diz que eu provavelmente vou gostar. Mas eu gosto de ver os clássicos frequentemente, é prazeroso para mim. Com o coronavírus, fiquei muito em casa, então vi ocasionalmente filmes na televisão. Muitos eram filmes antigos, da minha infância, que me trazem muitas memórias e por isso me dão muito prazer. Foi engraçado rever alguns. Muitos que eu amava me parecem tolos. E outros que não apreciava tanto me parecem ótimos.

Qual filme contemporâneo viu recentemente?

Não tenho ido muito ao cinema, mas recentemente vi documentários. Há um muito bom sobre a relação entre Tennessee Williams e Truman Capote e outro, que ainda não foi lançado, sobre Leonard Bernstein. E eu gostei demais do filme da Jane Campion, Ataque dos Cães.

Gosta de assistir a filmes na televisão?

Não. Mas, se for O Poderoso Chefão ou Cidadão Kane, que eu vi na tela grande, não me incomodo de ver de novo na televisão. Não gostaria que meus filhos vissem os clássicos primeiro na televisão em vez do cinema. Eles poderiam rever esses filmes na televisão, desde que tivessem visto da maneira correta primeiro. É uma experiência muito diferente sentar-se com centenas de pessoas no cinema. Em casa, dá para interromper o filme, ir buscar um copo de água. Eu entendo quem prefira ver em casa. Eu, não. A sala de cinema é mais empolgante para mim.

Como se sente vendo um filme como Homem-Aranha: Sem Volta para Casa tomando praticamente todas as salas de cinema?

Acho que diz muito sobre o público que está indo ao cinema. As pessoas querem ver isso, estão dispostas a, no meio de uma pandemia, ir à sala de cinema para ver Homem-Aranha, com todos os seus efeitos. Para mim, é uma indústria separada. Existe o cinema como negócio e o cinema como arte. Quando artistas como Luis Buñuel ou Ingmar Bergman faziam um filme, eles esperavam um público pequeno de pessoas perspicazes, educadas e interessadas em obras de arte sérias. E há toda uma indústria interessada na bilheteria. Se você está nesse ramo, é maravilhoso, eles fazem centenas de milhões de dólares. Eu estou interessado em filmes mais artísticos, com público menor. Meu desejo ao fazer um filme não é financeiro, mas, sim, de fazer um bom filme. Então, mesmo que a audiência seja pequena, tudo bem.

O senhor assiste aos filmes da Marvel?

Não vejo Homem-Aranha ou Vingadores. Mas há um público enorme de pessoas que adoram esses filmes. São gostos diferentes, como tem gente que gosta de rock e outros que preferem música erudita.

E suas filhas, assistem aos filmes da Marvel?

Eu tentei dirigi-las a filmes bons, mas quando estavam crescendo gostavam de lixo que vinha do mundo mais comercial. Agora, aos 20 anos, estão começando a apreciar outros tipos de filmes.

O senhor é conhecido por querer evitar a morte o tanto quanto possível e ser um pouco obcecado com doenças. Como está sendo atravessar a pandemia?

Foi traumático para todos, inclusive para mim. Quando a pandemia começou, eu disse que ia ficar em casa e que me acordassem quando terminasse. Disse que não ia sair. E todos eram super cuidadosos no começo. Pediam comida e desinfetavam a sacola. Eu fui muito cuidadoso e fiquei com muito medo. Mas as vacinas fizeram uma enorme diferença.

Como vê a politização da vacina?

Pois é. Eu não entendo quem não se vacina, quem se coloca em risco. Se todos se vacinassem, poderíamos nos livrar da pandemia. Mas virou um assunto político, uma medalha de honra não se vacinar. Enfim, com as vacinas, ficou menos aterrorizante. Porque, antes, quem tinha mais de 65 anos tinha grande chance de não sobreviver se tivesse covid. Nova York foi severamente atingida pela pandemia, mas hoje é um dos melhores lugares para se estar. Mas ainda é um problema, e pior ainda porque poderia ter sido evitado.

O senhor fez seus últimos filmes na Europa. Pretende continuar rodando por lá?

Sim. Eu tinha um projeto que deveria ter sido rodado um ano e meio atrás, em Paris. Estava tudo pronto. Mas, por causa da pandemia, tivemos de cancelar. Se a pandemia melhorar, não houver variantes e tivermos o financiamento novamente, ainda vou tentar fazer este filme em Paris, no verão - eu só filmo no verão, porque o inverno é frio demais para mim.

E aquele projeto no Rio?

Nunca tive um projeto no Rio. Minha irmã, que é uma das minhas produtoras, foi ao Rio e a São Paulo para conversar sobre possibilidades. Mas eu nunca tive uma ideia. Eu preciso ter uma ideia para filmar no lugar, não dá para ir e fazer um filme só porque há financiamento. Tive ideias para Londres, Roma e outros lugares. A história tem de ser real, nativa à geografia. Nada me ocorreu em relação ao Rio. Mas adoraria ir ao Rio e fazer um filme lá.

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Woody Allen revela em autobiografia seu talento e se defende de acusações

'Woody Allen – A Autobiografia', que a editora Globo Livros lança no Brasil, correu o risco de não ser publicada nos Estados Unidos

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

10 de novembro de 2020 | 05h00

Era uma das mais aguardadas autobiografias, afinal, Woody Allen firmou-se, desde a década de 1960, como um dos principais diretores e roteiristas do cinema americano, autor de comédias (algumas já clássicas) que traduzem com graça as principais angústias humanas. Mas Woody Allen – A Autobiografia que a Globo Livros lança nesta terça, 10, no Brasil correu o risco de não ser publicada nos Estados Unidos – a editora Hachette já cuidava da obra quando desistiu de lançá-la, depois de um protesto de seus funcionários contra o lançamento. “Dispensaram o livro como se fosse um bloco radioativo de xenônio-135”, conta ele. Por fim, Apropos of Nothing (A propósito do nada, em tradução livre), título original, saiu pela independente Arcade, que o lançou quase na surdina, no final de março.

O motivo não era editorial, pois Allen relembra sua trajetória com a mesma verve cômica que marca seus filmes e livros. Mas sim a acusação feita por Dylan, filha do cineasta com a atriz Mia Farrow, de abuso sexual, crime que teria acontecido em 1992, quando ela tinha 7 anos – uma acusação que reiterou em 2018, mas Allen sempre desmentiu e a denúncia não chegou a ser comprovada pelas investigações feitas sobre o caso.

Mesmo assim, o estrago estava feito e Allen logo perdeu um contrato estimado em US$ 68 milhões com a Amazon, responsável pela distribuição de seus novos filmes. Um dos mais recentes, por exemplo, Um Dia de Chuva em Nova York (2019), nem chegou a ser lançado nos Estados Unidos, mas estreou nos cinemas brasileiros. E a comédia romântica Rifkin’s Festival, seu último longa até o momento, foi financiada por uma produtora espanhola, a Mediapro, e abriu o Festival de San Sebastián, em setembro.

Se a Europa tornou-se novamente o refúgio cinematográfico para Allen, o furacão iniciado no mercado editorial americano foi suficiente para contaminar o provável sucesso que o livro teria em diversos países, onde a publicação foi protelada ou mesmo cancelada. No Brasil, alguns editores não quiseram participar do leilão pelos direitos autorais, temendo uma negativa reação do público leitor. A definição, aliás, aconteceu depois de um esquema arriscado, com ofertas feitas às escuras, pois os participantes do leilão receberam uma vaga descrição do que seria o livro, sem acesso ao original, nem mesmo a um capítulo.

Uma das apostas da Globo Livros, que acabou ficando com os direitos no Brasil, é que Allen, na autobiografia, apresentasse um outro ponto de vista. De fato, são várias as surpresas apresentadas na obra, na qual Allen traça um perfil honesto sobre si – mesmo que isso possa ser usado contra ele, como a insensibilidade ao tratar de mulheres. 

De fato, Allen não escapou da condenação moral a que foi submetido especialmente pelos americanos e ocupa uma parte considerável de sua autobiografia para se defender. Um dos principais alvos é a atriz Mia Farrow, com quem teve um filho biológico (Satchel, que agora se identifica como Ronan) e vários outros adotados. São momentos do livro em que a voz descontraída cede espaço para um ajuste de contas, o humor é atropelado pelo desabafo. Allen retrata Mia como uma mulher insensível no trato com os filhos, que eram adotados com a mesma emoção com que se compra um brinquedo novo – e isso ainda lhe trouxe uma bem-vinda reputação de santa.

Allen descreve maus-tratos praticados por Mia em diversos filhos, mas se concentra em Soon-Yi, garota sul-coreana que foi adotada pela atriz quando estava com 7 anos e com quem Allen iniciou um relacionamento amoroso quando ela completou 21. Segundo o cineasta, a menina vivia feliz em um orfanato gerido por freiras quando foi levada pela atriz. “Mia então a tirou desse ambiente com o qual ela havia se habituado e a obrigou a fazer uma turnê por outros orfanatos, onde buscava novos órfãos como alguém que passa pelas gôndolas de promoção numa livraria”, escreve Allen, que passa a enumerar uma série de situações constrangedoras a que Soon-Yi era submetida.

Allen chega a usar o depoimento de outro filho, Moses, para dizer que sua irmã Tam não morreu de problemas cardíacos aos 21 anos, mas de uma overdose de pílulas ingeridas após uma depressão que marcou grande parte de sua vida.

Mia descobriu que Allen estava se relacionando com Soon-Yi ao encontrar fotos polaroides eróticas da garota no apartamento do cineasta. “É claro que entendo o choque dela, sua consternação, raiva e tudo mais”, observa. “Foi a reação correta.” Depois disso, furiosa, Mia decidiu acusá-lo de ser molestador, o que se agravou quando surgiu a denúncia de Dylan.

Apesar da turbulenta vida privada, Woody Allen não deixou de fazer filmes, alguns figurando entre os melhores de sua carreira – como Maridos e Esposas (1992). “Quando terminei de escrever (o roteiro), decidi que rodaria predominantemente com a câmera na mão e não obedeceria às regras de filmagem. Eu cortaria quando quisesse, sem me preocupar com gente olhando na direção certa, faria cortes e iria ao oposto do bonito ou bem-feito. Acabou sendo um bom filme, eu acho, e não pego leve com o meu trabalho.”

Allen, aliás, revela uma sinceridade cortante quando se refere a si mesmo. A primeira surpresa surge quando conta que, quando jovem, era popular no colégio e praticante de vários esportes, especialmente o beisebol. É hilariante a forma como descreve a família: o pai era um jogador e praticante de pequenos furtos – foi em uma máquina de escrever surrupiada, aliás, que Allen iniciou sua carreira artística, escrevendo piadas para colunas de jornal e, depois, para comediantes sem talento para a escrita.

Já a mãe impedia que a família fracassasse, impetuosa como o general Patton, trabalhando como caixa de uma floricultura. O jovem Allen, no entanto, ia mal na escola, preferindo se tornar mágico amador e, com habilidade nas cartas, usava o DNA herdado do pai para a desonestidade e embolsava a mesada dos colegas. Por isso, não é de se estranhar quando ele confessa que não gostava de ler – o rádio e os filmes eram mais empolgantes.

“Eu não era um leitor até quase o fim do ensino médio, quando os meus hormônios de fato começaram a agir e eu notei pela primeira vez aquelas garotas com longos cabelos lisos, que não passavam batom, quase não usavam maquiagem, se vestiam com gola rulê preta e saias com meias-calças escuras e carregavam grandes bolsas de couro com cópias de A Metamorfose, em que anotavam nas margens coisas como: ‘É, fato’ ou ‘Ver Kierkegaard’”, escreve.

Hoje, próximo dos 85 anos (completa em 1.º de dezembro), prefere escrever a filmar. Mudaria algo? “Não teria comprado o fatiador milagroso de vegetais que um cara anunciou na TV.” Algum legado? “Melhor que viver nos corações e nas mentes do público é viver no meu apartamento.”

WOODY ALLEN – A AUTOBIOGRAFIA

  • Autor: Woody Allen
  • Tradutor: Santiago Nazarian
  • Editora: Globo (328 págs., R$ 49,90)

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